Friday, April 03, 2009
Moscou já está começando a abrir as perninhas...
Sunday, March 29, 2009
Rússia: vitimização geopolítica
Dizer que Washington traiu o acordo com Mikhail Gorbachev de não levar as forças da OTAN mais para leste, ao passo que os russos tiraram o Exército Vermelho da Europa Oriental observando que a única violação partiu dos EUA é de uma ingenuidade (para dizer o mínimo) ou desonestidade (para ser justo) atroz. Quer dizer então que a pressão para que a Geórgia permanecesse dentro da Comunidade dos Estados Independentes (C.E.I.), organização pós-soviética, mas russa, não conta? Sua influência e pressão na Bielo-Rússia e na Ucrânia não são igualmente significativas?
Sem falar na malandragem semântica de nosso libertário... Do lado americano foi “Washington” quem fez o acordo, para dar um ar de perenidade; do lado russo foi Gorbachev, para não levar em conta o que Yeltsin ou Putin fizeram. Por que não citar Ronald Reagan, então? Porque levaria a conclusão que as condições mudaram com Bush e Clinton.
Claro que “nos últimos anos, os EUA vêm expandindo sua influência no Cáucaso, em estados da Geórgia, Armênia e Azerbaidjão”, mas por quê? Para alinhavar acordos de livre comércio com
estas nações. Não parece justo, ainda mais para um anarcocapitalista que publica no http://www.lewrockwell.com/? Haveria razão mais legítima do que esta? E, é claro, os negócios não são seguros sem a presença militar, ainda mais naquelas paragens...E esse eterno temor da China... “Existem de 20 a 25 milhões de russos étnicos no distante e vulnerável extremo oriente russo, enquanto que as províncias chinesas têm 1,3 bilhão”. Só esqueceu de dizer que o grosso dessa população (90%) encontra-se numa faixa próxima ao litoral.

Assim como a concentração de suas forças militares também se encontra nesta região porque é aí que estão seus problemas de ordem geopolítica (Taiwan, Coréias, Japão).
[Continua...]
Wednesday, March 25, 2009
Rússia e informalidade
http://www.amanha.com.br/ColunaIntegra.aspx?ColunaID=e4b9ff31-3ec3-4cc7-a15a-47cf0276e9bd
Saturday, March 21, 2009
Rússia vende mísseis avançados para o Irã
http://www.estadao.com.br/interatividade/Multimidia/ShowVideos.action?destaque.idGuidSelect=CB9878B9415C48F18B3AB684E5EFF2FD
TV Estadão 19.3.2009
O jornalista Roberto Godoy, de O Estado de S. Paulo, comenta a venda de mísseis de última geração russos para o Irã, negócio que deve criar ainda mais instabilidade na região do Oriente Médio
Tags: TV Estadao, Mundo, Russia, Ira, Oriente Medio, Ameaca nuclear, guerra
PermaLink
Friday, March 20, 2009
As rotas de caça ao Talebã

1. Por Chaman, no sudoeste, na região de Kandahar;
2. Por Torkham, no noroeste, na passagem de Khyber.
Ainda há a facilidade política, pois se trata de um governo apenas, ao passo que as alternativas envolvem a costura com vários. Apesar da instabilidade atual, o Paquistão mostrou-se um importante aliado desde a campanha do Afeganistão em 2001. O fator energético também pesa: as refinarias paquistanesas abastecem as forças da Otan em operação na região, ao passo que o combustível de Baku no Azerbaidjão tem que passar pelo Cáspio e pelo Turcomenistão. Estas, por sua vez, se tornam mais importantes na medida em que as tropas da Otan se encontram mais afastadas da fronteira paquistanesa.
Até 2007, não se viu revoltas insufladas pelo Talebã no Paquistão. Mas, a ambigüidade do apoio de Musharraf, quem estendia uma mão para Washington e outra aos fundamentalistas deve ter forçado sua queda. A opção, consequentemente, é diminuir esta dependência logística. E isto, evidentemente, encarece a operação que precisa passar pelos portos da Geórgia e pelos europeus no Mar Negro. Dali prosseguem por ferrovias até o Azerbaidjão no Cáspio e depois até o Turcomenistão para então seguir por estrada ou até o Cazaquistão e Uzbequistão para a área ocupada.
Como se não bastasse a enorme dificuldade logística adicional, ainda há a possível interferência da Rússia nas operações. A Rússia trava uma queda de braço com as forças da Otan e os russos
deverão exigir algo para garantir sua segurança regional. Após a invasão da Geórgia, a Rússia já insinuou, sutilmente, mas insinuou sobre a viabilidade das rotas utilizadas pela Otan em direção ao Afeganistão. E os governos uzbeque e turcomeno ainda são muito ligados a Moscou e, igualmente receosos da interferência americana na região. Uma alternativa pouco provável seria traçar um acordo com o Irã, rival do Talebã, mas nem tanto ao ponto de favorecer os interesses de Washington no Afeganistão.As três seguranças do Estado
O Brasil é, atualmente, um dos maiores fornecedores de carnes para a Rússia. No caso de bovinos, parece não haver plano russo de aumentar a produção doméstica, mas, quanto a suínos e frangos, há uma política declarada de substituição de importações. E isso é algo compreensível, já que a Rússia importa quase 50% de tudo que sua população come.
Há, grosso modo, três áreas de segurança vital dos Estados: energética, militar e alimentar. Os EUA têm segurança militar e alimentar, mas não energética, que não por acaso foi um dos temas centrais da campanha de B. Obama. Já China e Índia têm segurança militar, mas não energética e alimentar. A UE tem somente a alimentar (e, ainda assim, à base de subsídios bilionários para o setor agrícola) e está buscando reduzir sua perigosa dependência energética de terceiros (a começar pelo gás russo) e reequacionar sua moldura de segurança herdada da Guerra Fria. O Brasil tem segurança energética (se considerarmos que a dependência do gás boliviano não afeta a segurança nacional) e alimentar, mas não militar. Enfim, a Rússia tem segurança energética e militar, mas não alimentar.
Daí podemos inferir o seguinte: para uma empresa estrangeira, uma estratégia de médio e longo prazo na Rússia, na área de alimentos, passa por investir em produção local, além claro de seguir exportando, pois dificilmente o Estado russo vai abrir mão da substituição de importações, no sentido de reduzir sua vulnerabilidade em termos de segurança alimentar. Isto vale para frangos, suínos e produtos alimentares em geral.
Uma segunda conclusão é que a UE vai ter muitas dificuldades em reduzir ou acabar com seus subsídios agrícolas, pois sua agricultura é amplamente não competitiva e, sem os subsídios, a UE corre o risco de virar importador líquido de alimentos e abrir mais esse flanco em matéria de segurança.Por fim, no setor de defesa, onde o Brasil é vulnerável, não aplicamos raciocínio semelhante? Podem ver que toda compra militar brasileira, sobretudo se for de grande monta, tende a ser casada com transferência de tecnologia e investimento em produção local. E, embora não estejamos muito ativos nisso agora, a ideia de subsidiar a indústria de defesa no Brasil é ideologicamente aceita por quase todo o espectro político.
Wednesday, March 18, 2009
Rússia e narcotráfico
Tuesday, January 06, 2009
Russia's next flash point

Tuesday, January 6, 2009
Russia's coercion of its neighbors is a looming flash point for Europe and the United States, and President-elect Barack Obama. Autocratic Russia is bent on exploiting weak neighbors and reversing perceived humiliations since the breakup of the Soviet Union.
The tragic war with Georgia last August showed that Russia is ready to use military power. International criticism and a plunging economy have apparently not swayed it.
On Dec. 24 President Dmitri Medvedev declared that his nation's "interests must be secured by all means available." Earlier he warned that Russia may deploy nuclear missiles against Poland, and has "privileged interests" in surrounding countries.
On Dec. 31 Prime Minister Vladimir Putin upped the ante. Ukrainian interference with Russian gas exports to Europe would lead to "serious consequences for the transit country."
Moscow is signaling a readiness to use hard power against smaller neighbors. Which ones might be next?
Since August, Russia has doubled its forces in Georgia's separatist regions of Abkhazia and South Ossetia. Troops are only two dozen miles from Tbilisi and hover near Caspian energy pipelines and railways. Russian forces could take them at will.
If Kiev does not satisfy Moscow, Russia's military could move in to "protect" Ukraine's pipeline to Europe. Moreover, Russia is questioning Crimea's legal status, distributing passports to ethnic Russians there, and demanding retention of its naval base at Sevastopol, after the lease expires in 2017. Moscow seems to be developing pretenses for intervention.
Other potential flash points cannot be overlooked. Millions of Russians live in Kazakhstan, which has exceptional natural resources wealth. The country's leaders try hard not to displease Moscow, but they annoy the Kremlin by exporting some energy via the South Caucasus. Azerbaijan and Turkmenistan also have vast energy wealth but regimes that might be ineffective against a Russian challenge. Ominously, Russia recently announced formation of a new "international" military force for Central Asia.
Dependent on Russian markets and subsidized energy, Belarus seeks more aid from Moscow but may have to cede further autonomy. Moscow would intervene if another "color revolution" swept aside Aleksandr Lukashenko, the country's authoritarian ruler, and might annex Belarus, ending years of inconclusive discussions on union.
Russian use of force could threaten important U.S. and European interests. Gaining control over Caspian energy would jeopardize tens of billions of dollars of Western investment and heighten Europe's energy dependence on Russia. U.S. and European forces in Afghanistan will increasingly depend on ground-based logistics through Central Asia and the South Caucasus.
The West needs a two-part hedging strategy: a dialogue to encourage Russia to channel ambitions in less threatening ways, and steps to enhance the security of Russia's neighbors.
An economic dialogue should assist Russia to: mitigate the damage from economic crisis and facilitate recovery, enhance productive trade and investment, and seek fair energy relationships with others. In this context, Europe and the U.S. should encourage Georgia and Russia to negotiate restoration of transport and economic links, which would also benefit Armenia.
A security dialogue should address: full compliance with the armistice in Georgia, how Russia can protect its security while reassuring neighbors, and regional cooperation to counter transnational threats, such as nuclear terrorism and pandemic disease. This dialogue would complement U.S.-Russian strategic arms talks and the NATO-Russia Council.
Second, the U.S. and Europe should help Russia's neighbors develop defenses and protect critical infrastructure. Assistance should be conditioned on commitments not to invade separatist regions or project force abroad.
More frequent U.S. and NATO defense presence will also be critical. This may not require permanent basing, but should include more joint field exercises, secure and interoperable command and control, intelligence sharing, and pre-positioning of matériel. Neighbors alone cannot stop the Russian military. Moscow must come to fear all of the costs and doubt the success of any contemplated aggression.
Dialogue with Russia and better defenses in neighboring countries will help avert another war - and a flash point with the West.
Denis Corboy is director of the Caucasus Policy Institute at King's College London and a former European Commission ambassador to Georgia. William Courtney was U.S. ambassador to Kazakhstan and Georgia. Kenneth Yalowitz was U.S. ambassador to Belarus and Georgia.
http://www.iht.com/articles/2009/01/06/opinion/edcourtney.php
Monday, January 05, 2009
Putin corta
Europe faces energy crisis as Vladimir Putin cuts Russian gas supply
By Miriam Elder in Moscow and Bruno Waterfield in Brussels

Russian Prime Minister Vladimir Putin at the opening ceremony of the Gas Exporting Countries Forum in Moscow. Photo: EPA
As temperatures dropped below zero across much of Europe, the Russian prime minister instructed the head of Gazprom: "Cut it - starting today."
The cut was ordered to punish neighbouring Ukraine, which Russia accuses of topping up its own gas supply by siphoning off energy meant for European consumers and sent through its pipelines.
But Naftogaz, Ukraine's state-run gas company, said that it was European Union countries, including Britain, that would feel the effects of an increasingly bitter East-West energy row.
"Gazprom has in fact cut volumes of transit gas to European customers. The Russian company has therefore placed under threat the delivery of gas to European countries," Naftogaz said in a statement.
The EU meanwhile dispatched an emergency fact-finding mission to Ukraine after eight European countries reported a disruption of gas supplies following a smaller Russian cut last week.
The taskforce of senior officials from the European Commission and the Czech Republic, which has just taken over the EU's rotating presidency, will also hold crisis talks with Gazprom on Tuesday.
EU foreign ministers, meeting in Prague on Thursday, will then assess levels of gas supply disruption and discuss possible action to prevent energy shortages amid sub-zero temperatures in most European capitals.
EU countries are dependent for one quarter of their gas supplies on Russia, of which 80 per cent comes via pipelines that cross the Ukraine.
Some, such as Poland, depend on Gazprom for over three quarters of their gas supply. Britain receives up to 15 per cent of its supply from Russian sources, mainly channelled through French pipelines.
The Czech Republic, Poland, Greece, Romania, Bulgaria, Slovakia, Croatia and Hungary have already reported problems with their supply.
The Commission has insisted that "there is no immediate danger of disruption for European citizens". But officials are worried that the latest wave of freezing weather, in one of the coldest winters for years, will push the EU into a full blown energy crisis by fuelling demand for Russian gas as people seek to heat their homes across Europe.
"The situation is changing. We are seeing a cold week ahead," said the Commission
spokesman."Cold weather has an immediate effect on demand.
The supply of gas has to be higher or complemented with more use of storage."
At a meeting at Mr Putin's luxury dacha, he backed demands by Alexei Miller, the CEO of Gazprom, for a daily reduction to Ukraine's pipeline gas flow of 65.3 million cubic metres, energy that Russia claims that the Kiev has stolen during a price dispute.
Gazprom first started to cut gas supplies to Ukraine on New Year's Day, after talks over a supply contract broke down amid accusations that Kiev had failed to pay its full bill for 2008. Naftogaz denies allegations it has siphoned off gas without paying Russia.
Saturday, January 03, 2009
Paralelismos: Rússia e Iraque
Mesmo tipo de argumento que Saddam Hussein se utilizou para invadir o Kuwait na década de 90...
02-01-2009 Política
Rusia acusa a Ucrania de robar gas a
Europa
Según la rusa Gazprom, se trataría de volúmenes pequeños. Sin embargo, Moscú no toleraría que se repitieran las interrupciones de suministro a la UE ocurridas en 2006.
por Reuters
Moscú/Kiev. Rusia acusó el viernes a Ucrania de robar gas destinado al resto de Europa, un día después de que Moscú cortó el suministro a su vecino por una disputa sobre contratos de abastecimiento.
Los volúmenes que Ucrania está desviando son pequeños, según el monopolio ruso Gazprom, pero la acusación sugiere que Moscú no está dispuesto a que se repita la disputa del 2006 que provocó interrupciones de suministro a la Unión Europea (UE).
Gazprom dijo que estaba respondiendo a las acciones de Ucrania aumentando las exportaciones a través de rutas alternativas como Bielorrusia. Firmas de energía europeas dijeron que no habían observado bajas en el suministro.
"La parte ucraniana admite abiertamente que está robando gas y no está avergonzada de eso", dijo el portavoz de Gazprom, Sergei Kupriyanov.
(...)
Mais em
Tuesday, September 23, 2008
EUA e Rússia: a nova militância
Durante a Guerra Fria, a justificativa soviética para o apoio a forças revolucionárias era condizente com a teoria marxista de que a classe operária necessitava expandir-se para além fronteiras. Fossem em movimentos no México, Porto Rico ou Filipinas – ao que os EUA apoiavam anti-marxistas em Angola ou Nicarágua -, os soviéticos chegaram a influenciar os movimentos anti-guerra como o caso do Vietnã.
Além de Cuba e Alemanha Oriental, também havia campos de treinamento de guerrilha e terrorismo urbano para os insurgentes no Iêmen do Sul, Vale do Beka no Líbano, Iraque, Síria e Líbia. Mas, o maior motivador disto não era a ideologia. Esta era apenas tolerada em troca de armamento e treinamento russo.
Qual a ligação de membros do Exército Vermelho Japonês treinando em frente popular para libertação de acampamentos palestinos no Líbano? Ou de membros do IRA ensinando alemães-orientais? Italianos ministrando explosivos em acampamentos líbios ou sul-iemenitas?
Os cubanos eram muito ativos na África, América do Sul e Caribe, mas o que mais lhes interessavam não era a “teoria da revolução permanente” ou outras bobagens correlatas e sim, o dinheiro russo comprando açúcar subsidiado ou este açúcar enviado ao Vietnã via Comecon. Em contrapartida, mão-de-obra mercenária vietcong foi enviada a América Latina. Muitos ataques (dos 70 aos 90) foram feitos contra alvos americanos e seus aliados latino-americanos, graças às granadas e foguetes abandonados no Vietnã capturados e devidamente aproveitados pelos vietcongs.
O que vocês esperavam que os EUA fizessem? Ficassem de braços cruzados?
Ambiente atual
Retornando a 2008, já não temos uma república soviética com seus estados-vassalos na periferia amorfa. Tecnicamente, a Federação Russa é uma democracia constitucional com um sistema econômico semi-capitalista. Só o fato de ter se libertado de suas amarras marxistas já é um grande feito, mas os imperativos geopolíticos que conduziram ao embate na corrida armamentista entre EUA e URSS ainda permanecem. Isto é óbvio para quem procura entender a lógica de funcionamento dos estados. O que não se pode dizer daqueles que, toscamente, ainda crêem que ideologias movem as ações de estado.
Em sua estratégia, os contatos da Rússia com velhos radicais – al-Bana de Ahmed Jibril e de Sabri – estão inoperantes e outros, dos anos 70 e 80, como Carlos o Chacal e outros do Exército Vermelho Japonês ao grupo grego Novembro 17. Outros se encontram na “ala geriátrica”. Não resta, portanto, outra alternativa se não assediar os novos movimentos terceiro-mundistas. E desses há aos borbotões...
O colapso da insânia soviética foi um duro baque para o financiamento da militância terrorista que ficou a ver navios. Suas alternativas passaram ao rapto, narcotráfico e extorsão pura e simples. Nada de mais para quem já vivia no mundo do crime... Grupos guerrilheiros/terroristas na Colômbia (FARC), Filipinas (NPA) se adaptaram muito bem a esta “nova ordem”. E fizeram de um meio para atingir seus fins em um fim em si mesmo.
Nicarágua, Venezuela e Bolívia são alguns estados que substituíram o antigo papel destinado a Cuba para a Rússia colocar suas patas na região. Há movimentos nesse sentido também no México... Na América do Norte, simpatizantes no Canadá (quebecois) e a esquerda americana (Nancy Pelosi, Noam Chomsky etc.) passam as mãos na cabeça desses meliantes.
No Oriente Médio, o alvo de recente atividade russa é o Líbano e a Turquia. Nesta, a KGB tinha grande envolvimento durante a Guerra Fria sustentando o PKK (Partido dos Trabalhadores do Curdistão). Engana-se quem vê, toscamente, nisto uma luta pela “revolução proletária”, se trata de uma histórica rivalidade geopolítica entre estados. E a comunidade esquerdista turca agradece pelo apoio/exploração russa.
As penínsulas são lugares, histórica e espacialmente, frágeis. Provavelmente, os incentivos russos irão se dirigir para a Grécia e Itália. Na Ásia, as operações de contra-insurgência americanas contra o NPA indicam uma possível participação russa.
A retórica nacionalista do período Putin na Rússia abrangeu o apoio aos movimentos ‘bolivarianista’ na Venezuela, Bolívia e Equador. Bulgária e Sérvia também têm seus movimentos ultranacionalistas bem organizados que namoram a política externa russa, inclusive com a existência de partidos políticos.
Nesta “Nova Ordem”, a mudança ideológica russa tornou o país mais pragmático não indagando sobre a matriz ideológica do alvo, desde que seja anti-ocidental. O atual Kremlin tem se mostrado mais eficaz neste sentido do que fora a KGB. Não há mais o “divisor de águas marxista” para concessão de apoio externo.
Por exemplo, a Ku Klux Klan é bem conhecida e admirada por muitos nacionalistas russos. Uma verdadeira epidemia. Contatos europeus com grupos neonazistas ajudam a sedimentar skinheads russos. Claro que não se tratam de itens da política oficial (nem poderiam, explicitamente), mas dão idéia da cultura geral que se gesta no país. Esta rede transnacional abarca elementos de extrema-direita nos EUA, Ucrânia, países bálticos e Alemanha.
As possibilidades de capitalização russas são imensas ao pensarmos que, além do relacionamento com as Farc, existe a possibilidade de diálogo com elementos mais radicais do narcotráfico, como os violentos cartéis mexicanos. Por isto mesmo Álvaro Uribe é uma peça-chave para os EUA combaterem este dano. Political shortsightedness é o mínimo que se pode dizer de quem vê uma “luta proletária” ou ideológica neste front.
Na passagem entre a Venezuela/Colômbia e México, não podemos nos esquecer de grupos completamente mercenários como Los Kaibiles na América Central. Com sua bolsa para ataques específicos, estas “máquinas de matar” dariam aos intermediários da máfia russa e ao Kremlin uma grande vantagem comparativa nesta “economia de açougue para covardes”. O esquema de redes pode ser muito mais lucrativo (pois, tem custos bem mais baixos) do que ações diretas entre estados ou financiamento de guerrilha convencional.
Nova estrutura de esconderijos, assessores militares em exercício, ligações potenciais entre a periferia capitalista e a Rússia, acampamentos de treino da militância são alguns itens que o serviço de inteligência americano deverá focalizar. Urge ir além do paradigma de combate ao ‘jihadismo’ nos sete anos que passaram. Há muito mais por vir:
Friday, September 19, 2008
Faça o que eu digo, não faça o que eu faço
MOSCOU (AFP) — A Rússia qualificou nesta quarta-feira de "inaceitável" qualquer tentativa de "ingerência externa" no conflito na Bolívia, e afirmou que a integridade territorial do país andino tem que ser protegida.
"Consideramos inaceitáveis as tentativas de ameaçar a integridade territorial da Bolívia, assim como qualquer forma de ingerência externa nos assuntos deste país latino-americano soberano", declarou o ministério russo das Relações Exteriores em comunicado.
"Condenamos as ações levando à desestabilização da ordem constitucional e à divisão da sociedade boliviana, que afetam a unidade e a integridade do país", prosseguiu a chancelaria neste comunicado.
Pelo menos 18 pessoas morreram e cerca de cem ficaram feridas quinta-feira passada em confrontos entre partidários do presidente boliviano Evo Morales e militantes da oposição no departamento de Pando (norte), na fronteira com o Brasil.
A Rússia reforçou sua cooperação militar com a Venezuela, aliada da Bolívia. O presidente venezuelano, Hugo Chávez, disse no dia 11 de setembro que apoiará grupos armados na Bolívia se seu amigo Evo Morales "for assassinado ou derrubado" por um golpe de Estado.
http://afp.google.com/article/ALeqM5g6ppMRPNzFkNqrx564bsaDYDRN0A
...
Eh eh eh, o embaixador americano não pode externar apoio aos separatistas bolivianos, mas as FFAA russas podem apoiar os separatistas russos em território georgiano e matar 1.400 georgianos num só dia!
China e Rússia - 2

Na fronteira sino-russa, o clima predominante parece amalgamar as relações políticas.
Para Pequim, a Rússia sempre foi um aventureiro recém-chegado querendo pleitear o território
a leste dos Urais com alguns séculos de atraso. Os esforços russos naqueles confins vêm desde sua reivindicação de territórios no Pacífico durante o início do século XVIII. Enquanto os chineses se opunham ao colonialismo europeu, os russos avançavam sobre porções chinesas no nordeste. Este oportunismo permitiu a anexação da atual província de Amur da China Qing em 1858, cuja fronteira foi estabelecida pelo Tratado de Aigun.Tratados como este, enfraqueceram a soberania chinesa. A Rússia teve como trunfo a construção da ferrovia Transiberiana no início do século XX, cujo objetivo era a contenção das aspirações coloniais japonesas. O relacionamento entre os dois países melhorou logo após o final da II Guerra Mundial devido à consolidação de Mao Tse-Tung. Stalin, no entanto, tentou forçar a invasão da Coréia do Sul a partir do norte, mas não enviou tropas, apenas armas para a China e quando terminou a guerra, os russos ainda cobraram a fatura de Pequim por seus serviços prestados.
Depois disto, as relações sino-soviéticas se deterioraram. Como estratégia da Guerra Fria, a Rússia se aliou a Índia e o Vietnã do Norte, rivais de longa data dos chineses. A partir de então, o oportunismo foi dos americanos ao se aproximarem da China, o que ajudou ainda mais em seu distanciamento em relação à Moscou. EUA e China apoiaram o Paquistão nas guerras indo-paquistanesas (o que levou a aproximação da Índia à URSS). Cerca de 60.000 uigures – uma minoria muçulmana que os chineses ainda temem por suas aspirações separatistas – escaparam pela fronteira soviética em 1962. Em 1965, o setor energético chinês amadureceu ao ponto de dispensar o petróleo soviético. E Washington fez vistas grossas aos horrores do comunismo chinês ou do Khmer Vermelho no Camboja (aliado chinês e opositor dos insurgentes vietcongs apoiados pelos soviéticos). No cômputo geral, apesar da vitória de Moscou sobre Washington na questão do Vietnã, a Rússia também ganhara um inimigo tão implacável no leste quanto o que já tinha no oeste.
Mas, o evento seminal se deu na separação sino-soviética em uma série de conflitos militares no verão de 1969 na província de Amur. Hoje, China e Rússia são qualquer coisa, exceto sócios naturais. Quando seus interesses econômicos parecem ser complementares, a geografia revela suas fragilidades. Sem mercado consumidor na fronteira, tampouco infra-estrutura significativa, os papéis de produtor e consumidor de recursos têm papel análogo a OPEP com os EUA – de permanente desconfiança que isto sugere.
Estrategicamente, os dois tendem a nadar em raias separadas, em formar associações distintas, ainda que compartilhem regiões limítrofes. Tais regiões, nas quais um estado tende a avançar sobre o outro são zonas de tensão permanentes, cujas posições mudam e fluem com “marés geopolíticas”. O que historicamente se decide facilmente quando um dos estados é forte e o outro fraco não ocorre no caso: ambos os estados são fortes. Atualmente, China e Rússia estão se tornando, mutuamente, fortes com grandes chances de virem a se confrontar em regiões nas quais suas hegemonias se sobrepõem.
À diferença com os EUA é que este país não enfrenta um desafiante similar em seu continente. O Canadá é, de fato, integrado aos EUA. Bases da Otan se encontram no Ártico. A fronteira com o México é formada por um deserto e o 2º estado mais rico da união – o Texas. E o Texas? Ora, ninguém mexe com o Texas! Isto favorece aos EUA se concentrarem em projetos externos. A geografia favorece seu expansionismo... Para que se sintam ameaçados, uma aliança continental equivalente em poderio militar precisaria ser capaz de oferecer oposição à altura. Mantida a tendência histórica da oposição entre China e Rússia, os EUA não têm muito que se esforçar para manter seu atual status.
21 de julho passado, o Ministro das Relações Exteriores Sergei Lavrov russo assinou a retirada russa de cerca de 108 km2 do território de Amur. Apesar das dificuldades encontradas na partilha de terras fronteiriças, a primeira coisa a fazer entre estados que buscam uma aliança é parar de se tratar como inimigos. Neste quesito, a Rússia agiu bem cedendo o território tomado da China.
Mas, há muitas razões para duvidar da sustentabilidade desse desenvolvimento. Algumas áreas em litígio podem ser consideradas estrategicamente irrelevantes e sua rendição não ser suficiente para inspirar confiança. A integração econômica regional ainda é difícil por razões diversas, entre as quais as de ordem infra-estrutural. A desigualdade demográfica inspira um senso paranóico entre os russos. Há sete chineses para cada russo e a desigualdade econômica entre os ‘sócios’ é de três para um. Isto é difícil de contornar se não se quiser se admitir haver um líder regional em uma provável união. Mas, o mais importante é que não há nenhum substituto a altura para a China como o mercado americano. Por outro lado, compartilhar a Ásia Central é virtualmente impossível por que não há como dividir os recursos que são importantes para ambos, bem como seus alvos estratégicos.
É difícil crer que o sacrifício de seu território pelos russos irá superar em atração os vínculos que formam a China moderna. Se a Rússia pretende mesmo alguma aliança terá que ir muito além.
Saturday, August 30, 2008
A Verdadeira Nova Ordem Mundial
As guerras são ganhas por alianças, de preferência pelas maiores. A questão que propõe Friedman é que os EUA atualmente descartam as alianças, pois são uma força sem desafio a altura. Mas, ao jogar em tantos tabuleiros, ela se dissipa. O que podem agora que estão presos à questão do Iraque fazer sobre a Geórgia? A política adotada pela Otan em relação ao Kosovo foi a gota d’água e o ataque da Geórgia a Ossétia do Sul, o pretexto (?) para o revide russo. Por outro lado, os americanos esperam o apoio russo na questão do Irã ou, pelo menos, que não seja feito nenhum acordo envolvendo armas entre eles.
Bem vindos à verdadeira Nova Ordem Mundial que se parece muito com a Velha...
http://www.stratfor.com/weekly/real_world_order
Wednesday, August 27, 2008
A balança de poder russa
A invasão russa da Geórgia ainda não mudou, substancialmente, a balança de poder na Eurásia. A ação americana no Iraque ou no Afeganistão, bem como a instabilidade no Paquistão permanecem as mesmas. Os americanos não auferiram nenhum poder a mais para influenciar no território da ex-União Soviética ou manter forças reservas terrestres para interferir no Cáucaso. De um ponto de vista exclusivo a partir de Washington, os americanos não ganharam muito no Cáucaso, mas podem perder.
Retomemos os eventos: dia 7 de agosto, forças georgianas fizeram incursão sobre a região separatista da Ossétia do Sul, que mantinha um status autônomo desde o fim da URSS. Sua capital, Tskhinvali foi ocupada. Na manhã seguinte,
blindados e infantaria motorizada russas apoiadas pela força aérea invadiram o território georgiano na Ossétia do Sul. Informalmente, esta região se alinhou a Rússia que operou para anular sua incorporação à Geórgia. Dada a velocidade da operação que, em questão de poucas horas, levou a reação russa, está claro que os russos já sabiam das intenções de Tbilisi. O contra-ataque, cuidadosamente planejado que forçou a retirada georgiana levou apenas dois dias. No domingo, dia 10, os russos já logravam consolidar sua posição de ocupação na Ossétia do Sul (veja o mapa ao lado). No dia seguinte, os russos atacaram forças georgianas como se fossem dois machados. Um deles em direção a cidade georgiana de Gori ao sul, o outro em direção a Abkhazia, região separatista da Geórgia alinhada com os russos. O objetivo foi cortar a ligação da capital georgiana, Tbilisi com os portos do país. A partir daí, os russos bombardearam as bases aéreas de Marneuli e Vaziani. Seu posicionamento, a cerca de 60 quilômetros da capital georgiana tornou, praticamente impossível seu reabastecimento de Tbilisi.O porquê da invasão georgiana
O ponto de partida de nossa indagação é qual o objetivo da invasão da Ossétia do Sul pela Geórgia na noite de quinta-feira? Após três noites precedentes de vigília osseta em vilas georgianas houve a troca da artilharia. Os georgianos, como é seu caráter, lutaram e resistiram, sob o claro intento de levar a ação da Geórgia para frente. Os EUA são os aliados mais próximos do país. Cerca de 130 conselheiros militares americanos e mais outros civis assessoravam o governo georgiano e empresários com os quais negociavam. Desta forma, torna-se inconcebível que os EUA não soubessem dos planos de Tbilisi. A inteligência americana, seus satélites e aviões espiões teleguiados também deveriam estar monitorando a movimentação de tropas russas. Estamos falando de milhares de soldados russos se deslocando em direção ao sul. Os russos sabiam claramente que os georgianos iriam contra-atacar. Como então, os americanos não poderiam saber igualmente dos russos? Da mesma forma, os americanos deveriam saber que a ação georgiana era o pretexto ideal para Moscou invadir e expulsar as forças da Geórgia. Se os georgianos se apoiavam nos americanos (e confiavam neles), não poderiam meter os pés pelas mãos e traçar uma estratégia que prejudicasse suas negociações regionais indo contra seus próprios interesses. Uma hipótese é que houve uma avaria na inteligência americana ou um péssimo calculo do poder de contra-ataque russo. Difícil crer que sua análise se baseasse no histórico da década de 90 quando o exército russo estava uma verdadeira bagunça e seu governo paralisado. Com a insuflação do separatismo nas regiões georgianos, os russos prepararam uma arapuca na qual os patos georgianos caíram direitinho.
Outro episódio em que os russos tomaram a dianteira foi na movimentação em território afegão nos anos 70 e 80, quando os EUA se viram forçados a buscar reforços e apoio nos guerrilheiros muhajedin de base ideológica talebã. E isto que os russos evitaram estes movimentos por anos... Ao contrário dos EUA, a Rússia não viu nenhum obstáculo militar. Economicamente, Moscou sabe muito bem de sua importância da exportação de seu gás para a Europa. Politicamente, os americanos necessitam dos russos, mais do que os russos necessitam dos americanos. O momento era ideal e o golpe, preciso.
O cerco ocidental a Rússia
Há alguns precedentes que explicam a motivação russa. Do ponto de vista ocidental e, americano em particular, a Revolução Laranja na Ucrânia (novembro de 2004), que levou um líder pró-ocidental ao poder, Viktor Yushenko, representou uma vitória da democracia. Para os russos, por sua vez, esta “revolução” era uma intrusão apoiada pela CIA para trazer a Ucrânia a esfera de influência ocidental e americana, leia-se Otan. O pai de George W. Bush – George H. W. Bush – e Bill Clinton prometeram que a Otan não se expandiria para os limites do ex-território soviético. A promessa fora quebrada em 1998 com a incorporação da Polônia, República Tcheca e Hungria ao seu sistema de defesa. Novamente, em 2004, não se contentando com a Europa Central, a Otan incorporou outras três ex-repúblicas soviéticas no Báltico, Lituânia, Letônia e Estônia. Os russos toleraram tudo isto até que chegou a vez da Ucrânia, cuja entrada no “guarda-chuvas” da Otan representou uma ameaça a sua segurança nacional. Se consumada sua entrada na Otan, a Federação Russa ficaria desestabilizada e indefensável. Quando, por fim, tentaram incorporar a Geórgia, a influência russa no Cáucaso seria, por fim, extirpada. A conclusão óbvia era que os EUA iriam partir a Federação Russa em diversos movimentos separatistas, descosendo-a como se rasgassem um velho cobertor cheio de remendos. Lembremos ainda que, pouco antes, Europa e EUA apoiaram a independência do Kosovo em relação a Sérvia. Os sérvios, antigos aliados dos russos não eram o problema, mas para Moscou desde o fim da II Guerra era condição de estabilidade que as áreas de influência não fossem alteradas. Com este princípio violado, outras regiões, dentro da própria Rússia poderiam seguir o exemplo. Os russos solicitaram que este status não fosse alterado, mesmo porque o Kosovo já tinha uma autonomia informal que equivalia, na prática, a esta nova independência formal. A Rússia foi simplesmente ignorada.
Desde o ocorrido na Ucrânia, os russos já concluíam que os EUA estavam cercando-os ostensivamente e estrangulando seu país em pontos estratégicos. Mesmo em episódios de menor importância estratégica – como foi o caso do Kosovo –, EUA e Europa não levaram a Rússia em consideração uma só vez. Chegara o limite para a ruptura. Se mesmo em um caso de pequeno significado regional (política e economicamente falando), a Rússia não tinha qualquer peso, para Moscou, o Ocidente já lhe declarara guerra. Para os russos não se tratava mais de entender o porquê disto tudo, mas sim em como responder a isto tudo. Se o Kosovo podia ser declarado como independente sob patrocínio ocidental, a Abkhazia e Ossétia do Sul também poderiam ter suas independências patrocinadas pela Rússia. Tratava-se apenas de jogar com as cartas que se dispunha. E os russos jogaram com quase todas.
Para os russos foi uma vitória moral: ao protestarem, EUA e Europa se revelariam hipócritas,
pois negavam à Abkhazia e Ossétia do Sul, o mesmo que defenderam para o Kosovo. Por razões políticas internas a Rússia, o fato era importantíssimo. Se para o ministro Putin, a queda da URSS fora um desastre, isto não significava que quisesse retomá-la nos mesmos moldes de antigamente, mas que a segurança nacional estava, a partir de então, em uma rota perigosamente descendente. Uma rota de insegurança patrocinada pelo Ocidente. Urgia, para ele, retomar a influência russa nos territórios da extinta União Soviética.Consideremos o seguinte: durante a Guerra Fria, São Petersburgo estava 1.930 km distante de qualquer país da Otan. Hoje está apenas 96,5 km distante da Estônia, um membro desta organização militar. A desintegração soviética deixou a Rússia cercada por países hostis ao seu antigo domínio e influenciados por americanos, europeus e, em alguns casos, pela China.[1]
A ressurreição da esfera russa
Putin não quis restabelecer a URSS, mas quis restabelecer a hegemonia russa dentro do ex-território soviético. Para tanto, ele teve que implementar as seguintes tarefas:
1) Reconstruir o exército russo e restabelecer seu crédito como força de peso regional.
2) Anular a influência da Otan no contexto regional da periferia russa.
O que Putin também revelou era o sabido de todos, mas não demonstrado empiricamente: como os EUA se acham atrelados a suas ações no Oriente Médio não poderiam oferecer muitas garantias no Cáucaso, ou em qualquer outra parte do globo.
No cômputo da operação até o momento, uma lição para ucranianos, georgianos, bálticos, europeus e centro-asiáticos digerirem, serviu como bônus. Especialmente, para a Polônia e República Tcheca.
Para o Kremlin, a defesa de mísseis balísticos que os EUA querem introduzir nestes países é uma ameaça clara a Rússia. Com o ataque a Geórgia, Putin e Medvedev querem demonstrar que as promessas e garantias dos americanos são vazias. Para os EUA, o Oriente Médio e, particularmente, o Irã lhe tomam muito mais atenção em detrimento do distante e inóspito Cáucaso. E os americanos querem a aliança russa contra o Irã, particularmente, não lhes vendendo armamento, como o eficaz sistema de defesa aérea S-300. Se os russos quiserem mesmo importunar os EUA, poderão vender armas não somente ao Irã, mas também a Síria.
O dilema americano consiste em priorizar o Cáucaso agora e deixar o Oriente Médio (o que parece fora de questão) ou limitar sua ação na Geórgia para evitar uma aliança russo-iraniana. Apesar dos interesses russos confluírem aos dos EUA na questão iraniana – o sistema de armas iraniano é mais ameaçador para a Rússia do que para os EUA considerando seu território mais próximo... O mesmo podendo se dizer sobre o Afeganistão, um acirramento do conflito no Cáucaso com maior ingerência americana pode alterar a situação para um quadro diametralmente oposto: uma aliança russa com o Irã e rebeldes afegãos contra os EUA.
Os ventos atuais são, aparentemente, favoráveis a Moscou. Seus coringas estão no fato de que:
1) Os russos apóiam os americanos (por enquanto...) em regiões críticas como o Afeganistão e Irã (próximos de suas fronteiras).
2) Os europeus dependem de seu fornecimento de gás e padecem com o déficit de forças expedicionárias.
Apesar de não ser uma potência mundial como os EUA, a Rússia é uma inegável força regional com reservas de armas nucleares e uma economia em ascensão, embora muito dependente de seus recursos naturais. Estes simples fatos compelem seus vizinhos a reavaliarem seus posicionamentos políticos em relação a Moscou.
No caso da Geórgia, provavelmente os russos exigirão a renúncia do presidente, Mikhail Saakashvili. Isto é o que querem e para isto estão se movimentando. Em uma escala mais ampla, a Rússia tem dado demonstrações de requerer o retorno ao status de grande potência. Em uma favorável combinação de fatores e eventos de médio prazo: o retorno do investimento e organização militares sob os governos de Vladimir Putin e, os gastos e envolvimento americanos no Oriente Médio ajudaram a consolidar o crescimento do poder russo. Uma “janela de oportunidade” se abriu para Moscou e o Kremlin a atravessou. Enquanto os americanos estiverem atrelados a sua geopolítica no Oriente Médio, a Rússia tenderá a crescer regionalmente. A guerra na Geórgia não foi uma surpresa, foi preparada por meses. Se as fundações geopolíticas que datam de 1992 fossem suficientes para deter o curso histórico de séculos em que a Rússia se sedimentou como poder imperial, não teríamos este conflito. Talvez, os últimos 15 anos tenham sido uma “aberração histórica” para o leste europeu. Se a retificação para um “eterno retorno” do Império Russo devesse ocorrer, ela está ocorrendo justamente agora.
Tuesday, August 26, 2008
O poder dos "lagos"
Sexta-feira passada, dia 22, o destróier americano USS McFaul e a fragata polonesa General Kazimierz Pulaski cruzaram o Estreito de Dardanelos controlado pela Turquia (aliada da Otan) em direção ao porto de Batumi na Geórgia. Um dia depois foi a vez das fragatas espanhola, Adm. Don Juan de Bourbon e alemã, FGS Luebeck deixarem o Bósforo em direção ao Mar Negro.Enquanto o cruzador russo, Moskva deixou o porto ucraniano de Sevastopol em direção ao Mar Negro para um teste de armas e comunicações, a fragata USS Taylor atravessava Dardanelos. Monitorando seus movimentos, o USS Mount Whitney e o US Coast Guard Dallas trocavam informações.
Os antigos gregos definiam o Mar Negro como ‘inóspito’ ou o contrário de acordo com seu nível de controle sobre o mesmo. A última campanha militar significativa no mesmo data de 1916. Antes disso, na Guerra da Criméia, o czar Alexander II amargou uma derrota dramática. Quase um século de calmaria em suas águas, já estava passando da hora de suas ondas se levantarem novamente...
Trata-se de uma área rica em recursos (minérios, terras férteis, plantas industriais, passagens estratégicas), mas também de gritante fragilidade, especialmente para a Rússia que nunca dominou apropriadamente os mares. O foco do conflito não se dará nas montanhas (onde os russos têm vantagem), mas nele mesmo, o Mar Negro. E isto que ainda não temos a presença de nenhum porta-aviões. Uma questão de tempo...
A presença russa na Península da Criméia tem significado estratégico, mas é controlada pela Ucrânia (ao norte do referido mar) e a borda meridional deste mar tem controle turco. Isto, para não falar do gargalo representado pelos estreitos de Bósforo e Dardanelos que conectam o Negro ao Mediterrâneo. Desnecessário também complementar que a força russa neste é pouco mais que zero.
A Rússia é um poder terrestre, sempre foi, num mundo formado majoritariamente por água. Fronteiriça de países fracos como a Geórgia a leste ou próxima de outros igualmente frágeis como Moldávia, Romênia e Bulgária a oeste, em ambos os casos seus movimentos são limitados, respectivamente, pelas montanhas do Cáucaso e dos Cárpatos. Se isto limita os russos, também os protege. Portanto, qualquer ameaça real ao âmago do poder russo passa pelo Mar Negro. E é aí que se dirigem as forças ocidentais. Arrisco-me a dizer que é conveniente, pois servirá (também como pretexto) para um maior aprisionamento do Irã e do Iraque. Depois dessa, talvez sem perceber, os russos acabaram por ajudar os americanos...
Se futuramente Ahmadinejad reclamar em algum fórum da ONU da ameaça vinda a noroeste irão lhe dizer para se queixar com a dupla dinâmica, Medvedev e Putin. Triste ironia... Para ele, feliz para mim.
O trajeto liso e sem obstáculos naturais tentado por tiranos como Napoleão ou Hitler não deu certo. Por que agora, as forças democráticas do livre-comércio deveriam insistir no erro? Ataque pelo baixo ventre. Se o tórax é protegido, chute no saco.
Lembremos também de um detalhe: justo ao sul, se concentra as regiões produtoras de petróleo da Rússia européia, Tatarstan e Bashkorostan. Em último caso, sob pressão, um bombardeio nelas traria a glória para aliados de ocasião, como o Irã, cujas reservas aumentariam proporcionalmente de peso na oferta global de combustíveis.
Para os europeus, o Mar Negro nunca foi uma rota privilegiada, mas sim um limite para seus
exercícios terrestres. Do outro lado, foi o que se deu com os Otomanos que marcharam até Viena pelos Bálcãs e não fizeram do Mar Negro seu meio de travessia naval. Mesmo seu domínio sob a Península da Criméia (1441-1783) nunca foi de todo efetivo. Durante a Guerra Fria, o Mar Negro padeceu comercialmente, pois o Danúbio, sob domínio soviético, atravessava e desaguava em sua área de influência. Hoje é diferente e aquela área interessa aos europeus.O Muro de Berlim caiu e as hostilidades cessaram no território ex-Iugoslavo. Agora, a economia do gigante alemão dá as cartas. Em termos de logística, é muito mais barato escoar a produção da Europa Central pelo Mar Negro do que por terra e pelo Mar Báltico. Se isto for fechado, a Europa sentirá. Desta forma, os americanos já estão se posicionando para garantir sua passagem e permanente abertura. Para a Ucrânia nem se fala... Única nação ex-soviética com rios permanentemente navegáveis, o Dnieper e o Dniester. Os rios russos, por sua vez, congelam boa parte do ano e desembocam em pleno Ártico. Nesta situação, servem mais como escorregador para foca que transporte de carga.

Se o Mar Negro é uma benção econômica para a Ucrânia, também é uma praga geopolítica. Há uma população crimeneana etnicamente russa e pró-russa, especialmente no porto de Sevastopol. Aí está um dos pontos nevrálgicos do conflito.
Se para a Rússia, a importância deste mar está na posição estratégica de controle sobre os recursos provenientes do Cáspio, para a Geórgia e demais caucasianos é fundamental, aliás, a única passagem.
Há dois focos de povos russos no Mar Negro: na costa georgiana e na Criméia. Já, ao longo do Cáspio, ela é reduzida. Convém agora a Otan se enamorar dos azeris. Ofertas deverão ocorrer...
Se uma operação naval projetar-se ao Rio Don entre Rostov-on-Don e Volvogrado (ex-Stalingrado), Moscou será eliminada da rota caucasiana e das imensas fontes de energia da região. Afortunados serão os ucranianos que poderão barganhar com Washington e Moscou.
Corpos expedicionários britânicos e franceses tentaram-no durante a Guerra da Criméia invadindo Sevastopol através do Mar de Azov. Isto é inadmissível na Era Nuclear. Mas, no caso extremo, este será o corredor para um vetor decisivo do conflito: Criméia-Don-Volvogrado.
A Turquia se acha populacionalmente concentrada nos estreitos. Suas costas setentrionais (sul do Mar Negro) são de um relativo anecúmeno. Suas ásperas montanhas setentrionais servem de bloqueio às rotas comerciais e estas se localizam, preferencialmente, no Mediterrâneo.
Exceto por rotas alternativas (e mais onerosas), o controle do Mar Negro e, subsequentemente, da Europa Central e da Rússia neste cenário se encontra em mãos de Ankara. Historicamente, o Mar Negro foi uma área de hegemonia turca. Seus rivais eram os fracos países centro-europeus e a Rússia. Já no Mediterrâneo havia os venezianos, genoveses, depois italianos, franceses e ingleses como rivais a altura.
Mas, seu controle sobre o mar, particularmente a Península da Criméia nunca foi vital ao Império Otomano como foram os Bálcãs. No entanto, seja nas guerras russo-turcas do século XIX, seja na I Guerra Mundial, a Rússia nunca conseguiu eliminar a resistência turca no Mar Negro. Sua posição funcionou como um verdadeiro forte a expansão russa no Mediterrâneo. Consequentemente, hoje em dia, o Mar Negro é um verdadeiro “lago da Otan”. E o gargalo formado pelos estreitos de Bósforo e Dardanelos, tirante os acordos internacionais sobre seu uso, está sob controle turco. Da Turquia como membro da Otan. Mais ao sul, temos o Mar Egeu, também controlado pela Otan. Se, por um milagre, a Rússia furasse o bloqueio de Dardanelos não escaparia do labirinto no Egeu. Seria como um carneirinho solto na alcatéia. E somadas as marinhas e força aérea com apoio terrestre e naval, o Mediterrâneo inteiro é outro “lago da Otan”.
A Rússia, em que pese seu enorme poder terrestre, está ilhada, circundada por mares hostis. Por onde, em última análise teria que enviar suas forças para anular o contínuo abastecimento de forças opostas.
Na economia da guerra, o avanço pelo norte plano ou pelos íngremes Cárpatos contra a Rússia teria um custo imensamente maior. Se eu fosse teísta, diria que o bom deus agraciou os ocidentais com o Mar Negro, esta ponte ameaçadora que permite projetar um ataque visceral contra um senhor Calcanhar de Aquiles de Moscou.
Nem se precisaria invadir o território russo para obliterar seus movimentos. A imensa e inexpugnável marinha americana pode estacionar nos estreitos turcos e tomar a base-porto russa na Criméia com o apoio ucraniano (quem já se indispôs com Moscou). Só isto já seria mais do que suficiente para lançar ameaças permanentes contra a rota de suprimentos energéticos russos e seu envio de combustíveis a Europa. Com a Europa ao lado dos EUA, para quem os russos escoariam sua mono-produção de país periférico do capitalismo mundial?
Obviamente que se trata de uma tática ofensiva. Soa como total disparate comparar isto com a estratégia defensiva da Inglaterra na II Guerra Mundial.
Detalhe: estamos na época de porta-aviões e naus com lançadores de mísseis teleguiados quando
lá, no Mar Negro, encontra-se a frota mais frágil da marinha russa. Sua maior força concentrada no Báltico, não conseguiria entrar no Mediterrâneo, no Egeu e no Negro, estes “lagos da Otan”.A força aérea americana, por sua vez, está presente na base aérea turca de Incirlik. Analogamente, aeroportos na Grécia, Bulgária e Romênia também podem sediar forças americanas e demais países da Otan devastando o poder naval russo se necessário.
Além da bem-equipada força aérea, os turcos têm mísseis de cruzeiro submarinos que podem atingir o território russo. E estamos concentrados no Mar Negro. É possível ainda adicionar o posicionamento americano no Mar de Barents, no Báltico, no Mediterrâneo e no Egeu. Como garfos, seus projéteis facilmente transformariam a Mãe-Rússia num queijo suíço.
A única chance de vitória para a Rússia consistiria em poder neutralizar a Turquia.
Sem isto, nem com reza brava em Igreja Ortodoxa.
A geografia russa sempre foi um fator a neutralizar o desenvolvimento naval russo. A Ucrânia serviu, convenientemente, como estado-tampão a Moscou por séculos. Chegou a hora de Kiev dar um basta a isto.
Embora tenha tentado por mais de um século ultrapassar este obstáculo ao seu desenvolvimento como potência militar, a Rússia não logrou êxito. Sua derrota contra o Japão, no início do século XX foi uma guerra em que a logística falou mais alto que a estratégia. Os russos mal conseguem controlar seu próprio território, quiçá dominar mundialmente ou, mais modestamente, uma porção continental.
Senhores e Senhoras,
O que estamos assistindo é a inspiração do epitáfio da Mãe Rússia. Este é apenas o prelúdio de uma época vindoura de desagregação exponencial de seu território. Gerações futuras de russófilos amaldiçoaram os nomes de Medvedev e Putin.
Com tudo que conseguiu no auge dos tempos soviéticos, a Rússia nunca se fixou como potência no Mar Negro. Isto é fato. E seu amortecedor ucraniano hoje, acabou de virar uma imensa incógnita negra emanada sobre o tchernozion.
Hoje, mais do que ontem, a Turquia é a torneira que permite que a energia de uma barragem represada se irrompa sobre as planícies ucranianas. É o árbitro absoluto deste jogo. Sua aliança é chave para a Otan, uma realidade tão inexorável quanto uma lei física.
Monday, August 25, 2008
A maré poderá ser negra
Para Dmitri Medvedev, o Ocidente precisa da Rússia, mas a Rússia não precisa do Ocidente. Se o presidente russo desdenha da ameaça de rompimento com a cooperação militar com a Otan, o premiê Vladimir Putin afirma que a Rússia não tem interesse na OMC. Como se não bastasse o apoio de Moscou a independência das regiões separatistas da Geórgia, o vizinho Azerbaidjão enviou 200.000 barris de óleo cru ao Irã. Não se trata, contudo, de uma operação econômica ordinária, o país é a porta de entrada para o petróleo do Cáspio, cujo oleoduto Baku-Tbilisi-Ceyhan serve de rota alternativa a infra-estrutura meridional da Rússia. Uma explosão
no oleoduto forçou o envio de petróleo ao Irã, comprometendo a intenção americana de isolar Teerã. Se o conflito começou por causa do Kosovo e chegou ao Cáucaso, agora ele se estende claramente ao Golfo Pérsico.Como a Otan pouco pode fazer contra a Rússia no Cáucaso, os russos estão crescendo em suas operações regionais nesta queda de braço. Mas, em que pese sua até então bem sucedida estratégia, a Rússia não é invencível, especialmente no Mar Negro, uma imensa área critica a seu sistema defensivo. Se a Otan não tem como avançar muito em terra, no mar ela pode ameaçar os russos forçando sua pausa. A logística ocidental, tal qual a “ajuda humanitária” russa na Geórgia inclui nove navios de guerra. E não se trata de forças exclusivamente americanas, há navios espanhóis, turcos, poloneses, búlgaros e romenos para legitimar este jogo. A simples presença ascendente dos americanos nesta massa líquida exigiria dos russos uma pronta resposta. Muitíssimo mais importante do que a Geórgia, há a ligação direta com outra ex-república soviética, a Ucrânia. Realmente, não parece um bom negócio ganhar uma Geórgia para perder uma Ucrânia... Suas férteis planícies são o solo perfeito para um desembarque a partir deste “amortecedor” que é o Mar Negro. Isto seria a última coisa que os russos desejariam. O bem sucedido avanço russo num primeiro estágio poderá se configurar numa flagrante derrota mais a longo prazo. E a presença da nau capitânia Moskva é o pretexto perfeito para os EUA aumentarem e ameaçarem a implantação logística de domínio caucasiano. Tudo que o Kremlin não quer é um verdadeiro “mar negro” em seu desprotegido baixo ventre.
Thursday, August 21, 2008
Monday, August 18, 2008
Por trás da micro-análise do Caucáso, um exercício de sofismas
Em Por trás da miniguerra no Cáucaso, o xadrez geopolítico de Immanuel Wallerstein, uma série de meias-verdades e um verdadeiro “contorcionismo teórico” camuflado como “didática” serão analisados agora, nas notas de rodapé que se seguem:
...
Parece que os Estados Unidos se enganaram redondamente quando imaginaram ter alguma espécie de privilégio de superpotência em sua partida contra a Rússia[1]
O mundo testemunhou nesta semana uma miniguerra no Cáucaso, e a retórica tem sido intensa, embora em grande medida irrelevante. A geopolítica é uma série de gigantescas partidas de xadrez disputadas entre dois jogadores, nas quais estes buscam posições de vantagem. Nessas partidas, é crucial conhecer as regras vigentes que regem os lances. Os cavalos não podem andar na diagonal. Entre 1945 e 1989, a partida principal de xadrez era disputada entre os Estados Unidos e a União Soviética. Ela se chamava a Guerra Fria, e as regras básicas do jogo eram conhecidas metaforicamente como "Yalta". A regra mais importante dizia respeito a uma linha que dividia a Europa em duas zonas de influência. Essa linha foi chamada por Winston Churchill de "Cortina de Ferro" e se estendia de Stettin a Trieste. A regra dizia que, não importasse quanta turbulência fosse instigada na Europa pelos peões, não haveria guerra de fato entre os Estados Unidos e a União Soviética. Ao final de cada instância de turbulência, as peças voltariam a suas posições originais. Essa regra foi respeitada cuidadosamente até a queda dos comunismos, em 1989, marcada mais notadamente pela destruição do Muro de Berlim. É inteiramente verdade, como todos observaram na época, que as regras de Yalta foram anuladas em 1989 e que a partida disputada entre os Estados Unidos e (desde 1991) a Rússia mudou de maneira radical. O maior problema desde então é que os Estados Unidos não compreenderam direito as novas regras do jogo. Eles se proclamaram, e foram proclamados por muitos outros, a única superpotência mundial. Em termos de regras de xadrez, isso foi interpretado como significando que os Estados Unidos tinham liberdade para movimentar-se pelo tabuleiro de xadrez como bem entendessem e, especialmente, para transferir antigos peões soviéticos para sua esfera de influência. Sob Clinton, e mais notadamente ainda sob George W. Bush, os Estados Unidos passaram a jogar a partida dessa maneira. Só havia um problema nisso: os Estados Unidos não eram a única superpotência mundial -nem sequer eram uma superpotência.[2]
Mais jogadores
O fim da Guerra Fria significou que os Estados Unidos foram rebaixados. De uma das duas superpotências, passaram a ser um Estado forte em meio a uma distribuição realmente multilateral do poder real em um sistema inter-Estados. Muitos países grandes passaram a poder disputar suas próprias partidas de xadrez sem precisarem informar as duas antigas superpotências de seus lances. E começaram a fazê-lo. Duas decisões geopolíticas de importância maior foram tomadas nos anos Clinton. Primeiro, os Estados Unidos fizeram pressão grande e mais ou menos bem-sucedida para que os antigos satélites soviéticos ingressassem na Otan [a aliança militar ocidental]. Esses países estavam ansiosos por entrar, apesar de os países-chave da Europa Ocidental -Alemanha e França- relutarem um pouco em seguir esse caminho. Eles viam a manobra dos EUA como tendo o objetivo, em parte, de limitar sua recém-adquirida liberdade de ação geopolítica. A segunda decisão-chave dos Estados Unidos foi tornar-se jogador ativo nos realinhamentos de fronteiras dentro da antiga República Federal da Iugoslávia. Isso culminou na decisão de autorizar a secessão de facto de Kosovo da Sérvia e implementá-la com suas tropas. A Rússia, mesmo sob Boris Ieltsin, ficou bastante insatisfeita com essas duas ações dos Estados Unidos. Mas a desorganização política e econômica da Rússia durante os anos Ieltsin era tão grande que o máximo que ela pôde fazer foi queixar-se, em voz bastante fraca, é mister acrescentar. A chegada ao poder de George W. Bush e Vladimir Putin foi mais ou menos simultânea. Bush decidiu levar a tática da superpotência única (ou seja, os Estados Unidos podem movimentar suas peças da maneira como decidem por conta própria) muito mais longe do que fizera Clinton.[3]Regras próprias
Para começar, em 2001 Bush retirou o país do Tratado de Mísseis Antibalísticos firmado por EUA e União Soviética em 1972. Em seguida, anunciou que os Estados Unidos não ratificariam dois tratados novos assinados durante o governo Clinton: o Tratado de Proibição Total de Testes, de 1996, e as modificações acordadas no tratado de desarmamento nuclear SALT 2. Então Bush anunciou que os Estados Unidos iriam adiante com seu Sistema Nacional de Defesa Antimísseis. E, em 2003, Bush invadiu o Iraque. Como parte dessa iniciativa, os Estados Unidos buscaram e obtiveram o direito de construir bases militares e o direito de sobrevoar repúblicas centro-asiáticas que antes faziam parte da União Soviética. Além disso, os EUA promoveram a construção de dutos para o escoamento do petróleo e gás natural da Ásia Central e do Cáucaso, passando ao largo da Rússia. E, finalmente, os Estados Unidos fecharam um acordo com a Polônia e a República Tcheca para instalar uma defesa antimísseis, ostensivamente para proteção contra mísseis iranianos. A Rússia, porém, viu essas instalações como sendo voltadas contra ela. Putin decidiu reagir com muito mais eficácia que Ieltsin. Sendo um jogador prudente, porém, ele primeiro se movimentou para fortalecer sua base doméstica, restaurando a força da autoridade central e revigorando as Forças Armadas russas. Nesse momento, as marés da economia mundial mudaram, e, de uma hora para outra, a Rússia tornou-se a rica e poderosa controladora não apenas da produção petrolífera, mas também do gás natural tão necessário aos países da Europa Ocidental.[4]Adversário fortalecido
Então Putin começou a agir. Ele criou relacionamentos com a China, selados em tratados. Manteve relações estreitas com o Irã. Começou a expulsar os Estados Unidos de suas bases na Ásia Central. E assumiu uma atitude firme contra a ampliação da Otan para duas zonas-chave: a Ucrânia e a Geórgia. A fragmentação da União Soviética levara ao surgimento de movimentos secessionistas étnicos em muitas antigas repúblicas, incluindo a Geórgia. Quando, em 1990, a Geórgia procurou pôr fim ao status autônomo de suas zonas étnicas não-georgianas, estas imediatamente se declararam Estados independentes. Não foram reconhecidas por nenhum país, mas a Rússia garantiu sua autonomia de fato. Os fatores mais imediatos a incentivar o desencadeamento da miniguerra atual foram dois. Em fevereiro, Kosovo formalmente converteu sua autonomia de fato em independência de direito. Sua iniciativa foi apoiada e reconhecida pelos Estados Unidos e muitos países da Europa ocidental. A Rússia avisou, na época, que a lógica dessa iniciativa se aplicaria igualmente a secessões de fato ocorridas nas antigas repúblicas soviéticas. Na Geórgia, a Rússia imediatamente e pela primeira vez reconheceu a independência de direito da Ossétia do Sul, em resposta direta à de Kosovo. E, na reunião da Otan de abril deste ano, os Estados Unidos propuseram que Geórgia e Ucrânia fossem recebidas num chamado Plano de Ação para Ingresso (na Otan). A Alemanha, a França e o Reino Unido se opuseram, dizendo que isso provocaria a Rússia.[5]Jogada desesperada
O presidente neoliberal e fortemente pró-americano da Geórgia, Mikhail Saakashvili, se desesperou. Ele via a reafirmação da autoridade georgiana na Ossétia do Sul (e também na Abkházia) como perspectiva cada vez mais distante, de maneira permanente. Assim, escolheu um momento de desatenção da Rússia (Putin estava nas Olimpíadas, o presidente Dmitri Medvedev, de férias) para invadir a Ossétia do Sul. As insignificantes forças militares da Ossétia do Sul desabaram completamente, é claro. Saakashvili imaginava que forçaria os Estados Unidos (e também a Alemanha e a França) a sair em seu apoio. Em vez disso, houve uma reação militar russa imediata, superando o pequeno Exército georgiano de forma avassaladora. O que Saakashvili recebeu de George W. Bush foi retórica. Afinal, o que Bush podia fazer? Os Estados Unidos não são uma superpotência. Suas Forças Armadas estão inteiramente tomadas por duas guerras que estão perdendo no Oriente Médio. E, o mais importante de tudo, os Estados Unidos precisam da Rússia muito mais do que a Rússia precisa deles. O chanceler russo, Sergei Lavrov, em artigo no "Financial Times", fez questão de observar que a Rússia é "parceira do Ocidente com relação ao Oriente Médio, Irã e Coréia do Norte". Quanto à Europa ocidental, a Rússia, essencialmente, controla seu suprimento de gás. Não foi por acaso que foi o presidente Nicolas Sarkozy, da França, e não Condoleezza Rice, quem negociou a trégua entre Geórgia e Rússia. A trégua contém duas concessões essenciais da Geórgia. Esta se comprometeu a não mais recorrer à força na Ossétia do Sul. E o acordo não faz referência à integridade territorial georgiana. Assim, a Rússia emergiu muito mais forte que antes. Saakashvili apostou tudo o que tinha e agora esta geopoliticamente falido. E, como nota de rodapé irônica, a Geórgia, uma das últimas aliadas nos EUA na coalizão no Iraque, retirou seus 2.000 soldados desse país. Esses soldados vinham exercendo um papel crucial nas áreas xiitas e agora terão que ser substituídos por soldados dos EUA, que, para isso, terão que ser retirados de outras áreas. Quando se joga xadrez geopolítico, é aconselhável conhecer as regras, para não
ser derrubado pela jogada do rival.[6]
IMMANUEL WALLERSTEIN, pesquisador sênior na Universidade Yale, é autor de "O Declínio do Poder Americano"[7]
[1] Quem pensa assim realmente na cúpula dirigente em Washington? É um engano, tosco, tomar a retórica política por verdade. Se fosse assim não haveria ações de contenção, como ora vemos com a Otan.
[2] “Potência militar” se torna um país quando apresenta notável desproporção de forças superior aos seus oponentes. “Superpotência” é quando sua capacidade de destruição afeta o globo inteiro, o que é, evidentemente, o caso dos EUA. Já, quando há mais de uma superpotência, suas ações têm que levar em conta a mútua capacidade de destruição reduzindo assim, sobremaneira, seus movimentos no “xadrez geopolítico global”.
[3] Interessante a observação das ações unilaterais dos EUA, quando precisamente vários estados ex-socialistas anseiam por entrar em sua esfera de influência através de acordos de defesa. Se fosse assim tão ruim, como então há (porque não se trata do passado), o desejo explícito de vários paises da Europa Oriental e do Oriente Médio (no Cáucaso) em integrar o guarda-chuvas da Otan? A Guerra Fria acabou, justamente, devido a pressão americana na corrida armamentista sob governo de Ronald Reagan. Enquanto que o orçamento militar se restringia a meros 6% de seu PIB, a URSS teve que dispensar cerca de ¼ do seu para mal acompanhá-los. Dizer que os EUA saíram “enfraquecidos” ao final do período do Pós-Guerra é, no mínimo, tolo. Enquanto que a ONU fragorosamente fracassou na Iugoslávia, a Otan sob presidência americana é que, finalmente, pos fim ao conflito.
[4] E, justamente, por isso tenta de todas as formas (como o pretexto de salvaguardar etnias russas na Geórgia) interferir na construção do oleoduto georgiano. O que não passa do mais bruto imperialismo. Os EUA, neste caso específico, não fizeram senão um acordo comercial. E de mais a mais, a riqueza pautada em produtos minerais é que tem base frágil. Assim como “as marés da economia mundial mudaram”, o mesmo pode acontecer novamente tão logo outras regiões venham a se estabilizar na oferta de combustíveis para exportação.
[5] Sim, é verdade que a lógica do apoio ao Kosovo foi utilizada como justificativa pela Rússia.
Nada a objetar. Mas, cabe lembrar que a lógica de dura retaliação aplicada pela própria Rússia à província separatista da Chechenia não foi respeitada quando a Geórgia fez a mesmíssima coisa em seu território reprimindo os movimentos separatistas na Abkhazia e Ossétia do Sul. Claro que para Wallerstein é conveniente lembrar apenas um dos dados do movimento de seu xadrez geopolítico...[6] “Papel crucial” das forças georgianas no Iraque? Ridículo. Só o numero de soldados americanos mortos na guerra supera os 3.000. E mais de 130.000 ainda estão em ação no país. Se o “chanceler russo, Sergei Lavrov (...) fez questão de observar que a Rússia é ‘parceira do Ocidente com relação ao Oriente Médio, Irã e Coréia do Norte’”, como então Putin “criou relacionamentos com a China, selados em tratados. Manteve relações estreitas com o Irã. Começou a expulsar os Estados Unidos de suas bases na Ásia Central”? Parece que o professor esqueceu as próprias palavras proferidas no início do artigo. Não só a mentira tem pernas curtas, como o sofisma também.
[7] O “pesquisador sênior na Universidade Yale” não passa de mais um pobre tolo antiamericanista com pretensões a clone intelectual de 5ª categoria de Noam Chomsky.
Wednesday, August 13, 2008
Caos no Cáucaso - 8
Questões psicológicas, econômicas e políticas motivaram RússiaEntrevista com Marshall Goldman, PhD em estudos da Rússia pela Universidade Harvard, sobre a ofensiva russa na Geórgia.


