
Gosto muito do Roberto DaMatta. Neste texto, o autor fala de um tema raro em suas análises: o meio ambiente. Confesso que deixou a desejar, principalmente no que tange ao ambiente mesmo. Há um certo tom catastrofista que considero mais sensacionalista que, verdadeiramente, científico ou filosófico (de qualidade). No entanto, há excelentes insights, principalmente no que toca às ideologias que se disseminaram a partir do século XIX e suas influências no século XX e atual. Vale a leitura, claro.
a.h
O Desastre Ecológico e a Ideologia Moderna
Não sendo um conhecedor de matéria ecológica, canalizei a minha fala naquilo que eu vejo como a implicação cultural, moral, ideológica ou social mais significativa do desastre ecológico mais que anunciado, para a modernidade. Mais precisamente, para os valores que se enfeixam naquilo que podemos chamar de “ideologia moderna” e, num sentido mais preciso, para essa ideologia no limiar de um novo século e milênio, pois pela primeira vez essa ideologia cujo centro é o individualismo como doutrina e valor, vê-se obrigada a enfrentar o seu contrario: os seus limites, as fronteiras diante das quais ela agora vislumbra (a contra-gosto) o final de um mundo infinito.
De fato, vejam o contraste. O século XVIII foi o momentoso tempo das Luzes. Das iluminações que aclararam a consciência humana, consolidando a perspectiva cientifica do mundo quando descobriu as “leis imutáveis” da natureza e, por meio delas, as previsões que foram tão básicas na fabricação dessas máquinas que ampliaram e prolongaram os nossos sentidos e o nosso corpo. O século do Iluminismo foi também a ocasião na qual a escuridão da magia e da superstição teriam sido desbancadas pela luminosa aplicação da ciência natural aos costumes e valores sociais. Esse foi o momento onde a nova postura diante do mundo tomou um impulso inusitado graças a postulação da idéia de uma natureza humana duplamente independente. De um lado, de Deus; do outro, e de uma natureza inteiramente diferenciada da sociedade. Domínio inesgotável, a ser infinitamente explorado pelas novas técnicas que eram o fruto concreto das idéias científicas e que foram responsáveis por um conjunto de extraordinárias transformações materiais e morais no seio da sociedade. Agora existia natureza e sociedade e, na sociedade, religião e política como esferas separadas. Um dos resultados do Iluminismo foi a idéia de que o Paraíso poderia ser construído neste mundo e não mais encontrado após a morte num outro mundo. Foi essa idéia fundamental que, como demonstrou Weber, fez com que fossem liberadas todas as energias sociais com o advento e a hegemonia do Calvinismo como responsável pelo quadro de valores do capitalismo e do mundo por ele criado. O século XIX e o XX foram deram seguimento, aprofundando e consolidando essas novas perspectivas no plano político e social.
Não preciso lembrar que foi esse período que consolidou e tornou popular, senão trivial, a idéia de modernidade e, com ela, a de que os indivíduos poderiam romper com o todo (a sociedade) de modo a fazer valer os seus interesses, obter justiça ou alcançar a felicidade, essa base da noção ocidental de revolução. Este foi o momento em que aplicou-se a sociedade aquilo que se havia descoberto pelo estudo da natureza. O resultado acumulado, apesar de todos os seus desastres e tragédias (autoritarismo, comunismo, fascismo, racismo e holocausto, provas de que planejamento racional do futuro seria possível e conseqüências da racionalidade da qual resultava esse planejamento), persistia. Havia um elo de continuidade dentro do quadro de valores do Ocidente iluminado pelo Iluminismo que atravessou todos os experimentos sociais e políticos tanto do século XIX quanto do século passado.
MAS há em toda essa nossa trajetória um conjunto de inegáveis conquistas que justificam um otimismo, um progresso, os quais, num sentido profundo, nos davam a certeza de sermos os senhores do universo; os patrões absolutos do planeta. O HOMEM (homem mesmo, entidade masculina, branca, falante de inglês, francês ou alemão; que engloba a mulher, a criança, o “primitivo” e o velho), é mesmo o ser para o qual tudo, seja pela vontade divina ou pela força do materialismo cientifico, dialético e certamente transcendental, convergiu.
Para quem, como eu, nasceu nos anos 30 e foi um leitor embalado pelo otimismo progressista e pela engenhosidade utilitária mágica de Julio Verne, o século 21 era o futuro. Tudo o que li e me foi prometido, iria ocorrer neste famoso milênio recém-inaugurado. Daí, talvez, o medo do terrível do velho aforismo admoestatório: “de mil passarás, mas a dois mil não chegarás!”, que uma vez ouvi de uma professora religiosa e severa, moto que, no seu pessimismo milenarista, esvaziava as grandes promessas do novo século.
Mas o século passou e as crises anunciadas, como a de uma Terceira Guerra Mundial se desfizeram. Desapareceu o Dr. Strangelove e, com ele, as promessas de uma inevitável conversão ao socialismo totalitário. Realmente, em vez do triunfo de uma sociedade finalmente administrada pela racionalidade do princípio segundo o qual, cada homem de acordo com suas necessidades, o que testemunhamos foi um tremendo desmascaramento orweliano. Desmanchou-se a União Soviética; descobrimos os horrores do Stalinismo e do Maoísmo; e, pior que isso, emergiram como potências nações orientais que na imaginação Iluminista jamais seriam capazes de dominar a racionalidade necessária ao comando da indústria e da comunicação em larga escala. Os perdedores da segunda guerra mundial, o Japão e a Alemanha, foram os grandes vencedores. Em seguida, o socialismo burocrático e da nomenclatura, caiu com o Muro de Berlim.
Tal consciência nos leva (e esse é um tema básico para reflexão do Planeta Sustentável) a uma imediata e necessária reformulação não só das agressões aos recursos naturais como objetos passivos e inermes, mas da velha e fundamental dualidade entre natureza e cultura; entre animais e homens para que se possa efetivamente salvar o planeta e, com ele (isso ninguém diz), salvar a humanidade! Ou seja, a ideologia individualista que nos controla debaixo do epíteto chamado “ideologia moderna” tem hoje que se haver com os efeitos de suas postulações. Com as conseqüências inesperadas e, como dizia Weber, não previstas de seus atos que, sempre implicam como sabemos mas não gostamos de aquilatar, outras pessoas, grupos, sociedades, bem como os seus próprios limites. No mercado, o preço e o lucro (ou o prejuízo) são os limites; na vida social, o limite é a consciência da interdependência entre sistemas, é o resultado irracional que transforma a razão utilitária (obter lucro, ganhar competitividade, ser o melhor, etc...) e máquinas de destruição.
Em outras palavras, devemos voltar a escutar, como faziam nossos antepassados e como fazem os nossos índios e os “primitivos” em geral, os animais. Devemos voltar a pensar a sociedade não contra a natureza, mas com ela; e a natureza como sendo, ela mesma, um sujeito dotado de humanidade. Talvez depois de termos incessantemente naturalizado a sociedade através da crença na superioridade inata (natural e biológica) de certos grupos sobre outros, de termos justificado certas leis, práticas e costumes como sendo mais adequados porque seriam mais próximos da essência do DNA humano, tenha chegado o momento de pensar igualmente na humanização da sociedade. Numa visada pela qual se possa ultrapassar os limites da grande divisão entre natureza e cultura para que se possa ter um planeta capaz de sustentação. Essa sustentabilidade que obriga ouvir os animais, as plantas e, sobretudo aqueles que, melhor que ninguém, vivem esse equilíbrio entre seus valores e os da natureza porque, entre eles, a natureza integrada na sociedade (ou antropomorfizada) não é uma inimiga, mas faz parte de seus códigos e linguagens.
O desastre ecológico reintroduz no horizonte moderno o limite para a tese que a sociedade é o resultado de um contrato exclusivo entre indivíduos livres e exige repensar a prática da reciprocidade e da mutualidade entre pessoas e grupos e entre convenções e natureza. As brutais conseqüências de um estilo utilitário e comercial de exploração da natureza forçam-nos a reaprender a interdependência entre animais, montanhas, flores, florestas e sociedades. Como os primitivos, a humanidade pós-devastação ecológica (se houver uma), deverá incluir não apenas “homens”, mas também animais e espécies naturais, todos como cidadãos, senão como irmãos, em sua nova cosmologia. Como peças básicas, complementares e interdependentes, naquilo que antigamente se chamava da “grande cadeia dos seres”.
Quem, no século passado, teria sido capaz de prever essa embrulhada brasileira de uma vida urbana afinal cosmopolita majoritária, democraticamente popular, mas sem a menor segurança, limite e civilidade? Quem poderia antever esse nosso mundo inflado de atrações mas, ao mesmo tempo, assolado pela incúria administrativa e pela mendacidade política como valor? Se o séc. 20 acabou com Deus, como é que hoje vivemos tantas guerras religiosas? Como é que a previsão de um século 21 paradisíaco, terminou nessa enorme lista de violência, de conflitos insolúveis e de tanta dor, perda e sofrimento?
Cá estamos diante do sétimo ano do novo século e o que aparece diante de nós é o mais desolador prognostico de destruição. O bicho-homem, a espécie sem especificidade porque destituída de natureza, de programa geral e de instinto; o macaco nu, ornívoro, inventor da roda, da música, da piedade e da bomba atômica, que começou ceifando o mato em torno de suas cabanas e tendo construído a “aldeia global”, tem também liquidado o planeta por meio de uma exploração impiedosa de todos os seus domínios. A terra, antes tomada como mãe generosa pelo pensamento desdenhado como primitivo e mágico, foi finalmente modernizada. Ela é agora a propriedade privada de estados-nacionais (com suas novas magias de soberania nacional) e de companhias multinacionais (com seus índices sagrados de crescimento que rendem extraordinários e igualmente mágicos rendimentos).
Graças ao um consumismo estabelecido como religião, a nave na qual o Homem Iluminado tem navegado pelo infinito do universo, está sucumbindo. E como que para aumentar sua glória e abrilhantar, como uma valsa de Johan Strauss, a sua capacidade destrutiva, o fim do planeta não resulta de um conflito lógico entre blocos representativos do Bem ou do Mal, da Liberdade e da Submissão, ou do “nosso” Deus e do “deles”. Resulta precisamente da hegemonia da parte sobre o todo, dos atores sobre a peça, do padre sobre a missa, da palavra sobre o texto.
Se fui otimista, peço desculpas. Se admoestei, fico feliz porque foi minha intenção dizer que o desastre ecológico nada mais é do que o final de uma peça onde o Autor deseja não somente envolver o público, mas destruir os cenários, o palco, o teatro e a cidade que o abriga. Afinal, o que o desastre ecológico nos lembra é que, se o mundo não tem um texto, como gostam de afirmar os modernos, ele tem sim, como a morte, um limite.
*Antropólogo, escritor, Professor Emérito de Antropologia Social da Universidade de Notre Dame, Indiana, Estados Unidos e Professor de Antropologia da PUC do Rio de Janeiro. Cronista do jornal Estado de São Paulo e do Globo, consultor de empresas, presidente da DaMatta Consultoria. É autor de vários livros dos quais se destacam: Carnavais, Malandros e Heróis, A Casa & a Rua, O que faz o brasil, Brasil?, Conta de Mentiroso, Torre de Babel, (com Elena Soárez, Águias, Burros e Borboletas: um Estudo Antropológico do Jogo do Bicho). Seus últimos livros são: Tocquevilleanas: Notícias da América e A bola corre mais que os homens. Roberto DaMatta é membro da Academia Brasileira de Ciências e da American Academy of Arts and Sciences.
Palestra proferida na Cerimônia de Abertura do Projeto Planeta Sustentável, no dia 19 de abril de 2007, na Editora Abril, em São Paulo.
Data: 21/05/2007
No comments:
Post a Comment