"É claro e bem sabido que a única fonte da guerra é a política... A guerra é simplesmente uma continuação da política com a adição de outros meios". (Carl von Clausewitz)
A questão maior, entretanto, pode ser analisada de forma mais ampla e profunda do que a atualidade do problema aponta. Ela é marcada, principalmente, pelo sentimento de evitar um eventual dano físico e ao patrimônio de excluídos sociais e econômicos. Tais indivíduos, por força da própria configuração do "teatro de operações" do conflito, estão mesclados demograficamente e, por vezes, compulsoriamente (-fazer o que?), com criminosos que desafiam as instituições do país. Confunde-se e reafirma-se, assim, a própria estratégia posicional de existência do crime, com a razão de não reprimi-lo. As "balas perdidas" do Rio de janeiro, jocosamente referidas por alguns, mais seriamente são chamadas de "dano colateral" por analistas da situação.
Já é lugar comum, há vários anos, a referência à situação do Rio de Janeiro como sendo de "guerra civil". A sensibilidade a esse tipo de "conhecimento", ou a origem de um senso comum generalizado em relação ao uso de tal expressão, talvez resida no fato de que as gangues ou facções de narcotraficantes do Rio de Janeiro, hoje em situação de enfrentamento direto ao Estado, utilizem: (i) armas e munições de emprego militar (inclusive artefatos explosivos e "armas pesadas" contrabandeadas ou desviadas das Forças Armadas); (ii) táticas de "guerrilha urbana" (incluindo o emprego oportunista, em relação ao ordenamento jurídico, de "soldados crianças e adolescentes"; bem como, as "balas achadas", técnica utilizada pelas facções criminosas durante os enfrentamentos, quando civis são alvejados propositalmente, como forma de agravar a pressão pela manutenção do "status quo"; (iii) ações de controle territorial que afetam a própria rotina da população, já sendo comum a determinação, pelo crime organizado, do fechamento de estabelecimentos comerciais e escolares locais.
O combate urbano, particularmente no Rio de Janeiro, em termos operacionais e táticos, é complicado e muito diferente do combate em outras áreas. Os fatores de complicação são devidos essencialmente à presença de civis e de edificações de toda sorte. Alguns civis são difíceis de distinguir dos combatentes, entre eles os membros de milícias e gangues, particularmente se tais civis estiverem tentando proteger suas residências. As formulações táticas passam a ser complicadas em um ambiente tridimensional, com uma limitação dos "campos de tiro" e de visão, ampliação das cobertas e abrigos para os bandidos (sob a infra-estrutura acima do solo) e, por último, mas não de menor importância, pela facilidade de posicionamento de armadilhas e de "franco-atiradores.".
Por outro lado, há que considerar, também, o ônus de uma estratégia defensiva instrumentada por vidas civis. Na verdade, os bandos (facções) de organizações criminosas do Rio de Janeiro utilizam tradicionalmente os civis locais, fisicamente, como peças de "blindagem política", fazendo deles "escudos virtuais" para a manutenção da incolumidade de suas instalações e garantia da prática impune dos seus respectivos crimes. Isto claramente é uma violação das "Leis da Guerra", elaboradas, entre outras razões, para proteção da população civil.
A questão que se apresenta, em tal circunstância, é o cotejo moral da estratégia ofensiva, aguda e eventual, dos agentes do Estado, com a estratégia defensiva, crônica e habitual dos agentes do crime. Talvez a solução do impasse moral apresentado, em uma "situação de guerra", possa ser o recurso ao conceito de "Guerra Justa". Ele remete a questão de "fazer a guerra", ou não, para os seguintes argumentos:
Luciano Phaelante Casales é Professor Doutor (General de Exército da Reserva do Exército Brasileiro), Coordenador para Assuntos de Defesa do Núcleo de Estudos em Defesa, Segurança e Ordem Pública (NEDOP) do Centro Universitário do Distrito Federal (UniDF) de Brasília. George Felipe de Lima Dantas é Professor Doutor, Coordenador para Assuntos de Segurança Pública do NEDOP/UniDF. Luiz Carlos Magalhães é Professor Especialista (MBA em Gestão da Segurança Pública e da Defesa Social), Pesquisador Associado do NEDOP/UniDF.
Atualizado em ( 02/07/2007 )
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