interceptor

Novas mensagens, análises etc. irão se concentrar a partir de agora em interceptor.
O presente blog, Geografia Conservadora servirá mais como arquivo e registro de rascunhos.
a.h

Friday, September 19, 2008

China e Rússia - 2


Khabarovsk Bridge across the Amur used to be the longest in Imperial Russia and Eurasia.)





Derretendo o permafrost*


Na fronteira sino-russa, o clima predominante parece amalgamar as relações políticas.

Para Pequim, a Rússia sempre foi um aventureiro recém-chegado querendo pleitear o território a leste dos Urais com alguns séculos de atraso. Os esforços russos naqueles confins vêm desde sua reivindicação de territórios no Pacífico durante o início do século XVIII. Enquanto os chineses se opunham ao colonialismo europeu, os russos avançavam sobre porções chinesas no nordeste. Este oportunismo permitiu a anexação da atual província de Amur da China Qing em 1858, cuja fronteira foi estabelecida pelo Tratado de Aigun.

Tratados como este, enfraqueceram a soberania chinesa. A Rússia teve como trunfo a construção da ferrovia Transiberiana no início do século XX, cujo objetivo era a contenção das aspirações coloniais japonesas. O relacionamento entre os dois países melhorou logo após o final da II Guerra Mundial devido à consolidação de Mao Tse-Tung. Stalin, no entanto, tentou forçar a invasão da Coréia do Sul a partir do norte, mas não enviou tropas, apenas armas para a China e quando terminou a guerra, os russos ainda cobraram a fatura de Pequim por seus serviços prestados.

Depois disto, as relações sino-soviéticas se deterioraram. Como estratégia da Guerra Fria, a Rússia se aliou a Índia e o Vietnã do Norte, rivais de longa data dos chineses. A partir de então, o oportunismo foi dos americanos ao se aproximarem da China, o que ajudou ainda mais em seu distanciamento em relação à Moscou. EUA e China apoiaram o Paquistão nas guerras indo-paquistanesas (o que levou a aproximação da Índia à URSS). Cerca de 60.000 uigures – uma minoria muçulmana que os chineses ainda temem por suas aspirações separatistas – escaparam pela fronteira soviética em 1962. Em 1965, o setor energético chinês amadureceu ao ponto de dispensar o petróleo soviético. E Washington fez vistas grossas aos horrores do comunismo chinês ou do Khmer Vermelho no Camboja (aliado chinês e opositor dos insurgentes vietcongs apoiados pelos soviéticos). No cômputo geral, apesar da vitória de Moscou sobre Washington na questão do Vietnã, a Rússia também ganhara um inimigo tão implacável no leste quanto o que já tinha no oeste.

Mas, o evento seminal se deu na separação sino-soviética em uma série de conflitos militares no verão de 1969 na província de Amur. Hoje, China e Rússia são qualquer coisa, exceto sócios naturais. Quando seus interesses econômicos parecem ser complementares, a geografia revela suas fragilidades. Sem mercado consumidor na fronteira, tampouco infra-estrutura significativa, os papéis de produtor e consumidor de recursos têm papel análogo a OPEP com os EUA – de permanente desconfiança que isto sugere.

Estrategicamente, os dois tendem a nadar em raias separadas, em formar associações distintas, ainda que compartilhem regiões limítrofes. Tais regiões, nas quais um estado tende a avançar sobre o outro são zonas de tensão permanentes, cujas posições mudam e fluem com “marés geopolíticas”. O que historicamente se decide facilmente quando um dos estados é forte e o outro fraco não ocorre no caso: ambos os estados são fortes. Atualmente, China e Rússia estão se tornando, mutuamente, fortes com grandes chances de virem a se confrontar em regiões nas quais suas hegemonias se sobrepõem.

À diferença com os EUA é que este país não enfrenta um desafiante similar em seu continente. O Canadá é, de fato, integrado aos EUA. Bases da Otan se encontram no Ártico. A fronteira com o México é formada por um deserto e o 2º estado mais rico da união – o Texas. E o Texas? Ora, ninguém mexe com o Texas! Isto favorece aos EUA se concentrarem em projetos externos. A geografia favorece seu expansionismo... Para que se sintam ameaçados, uma aliança continental equivalente em poderio militar precisaria ser capaz de oferecer oposição à altura. Mantida a tendência histórica da oposição entre China e Rússia, os EUA não têm muito que se esforçar para manter seu atual status.

21 de julho passado, o Ministro das Relações Exteriores Sergei Lavrov russo assinou a retirada russa de cerca de 108 km2 do território de Amur. Apesar das dificuldades encontradas na partilha de terras fronteiriças, a primeira coisa a fazer entre estados que buscam uma aliança é parar de se tratar como inimigos. Neste quesito, a Rússia agiu bem cedendo o território tomado da China.

Mas, há muitas razões para duvidar da sustentabilidade desse desenvolvimento. Algumas áreas em litígio podem ser consideradas estrategicamente irrelevantes e sua rendição não ser suficiente para inspirar confiança. A integração econômica regional ainda é difícil por razões diversas, entre as quais as de ordem infra-estrutural. A desigualdade demográfica inspira um senso paranóico entre os russos. Há sete chineses para cada russo e a desigualdade econômica entre os ‘sócios’ é de três para um. Isto é difícil de contornar se não se quiser se admitir haver um líder regional em uma provável união. Mas, o mais importante é que não há nenhum substituto a altura para a China como o mercado americano. Por outro lado, compartilhar a Ásia Central é virtualmente impossível por que não há como dividir os recursos que são importantes para ambos, bem como seus alvos estratégicos.

É difícil crer que o sacrifício de seu território pelos russos irá superar em atração os vínculos que formam a China moderna. Se a Rússia pretende mesmo alguma aliança terá que ir muito além.




* Adaptação de China and Russia’s Geographic Divide. By Peter Zeihan, www.stratfor.com, July 22, 2008. Leia também China e Rússia – 1.

Monday, September 15, 2008

Lenda Urbana


Anselmo Heidrich[*]

Em Inchaço da Capital[1], Oswaldo Furlan fala em nome dos moradores da Bacia do Itacorubi, importante bairro de Florianópolis. Sua indignação tem razões legítimas. Argumenta que o caos urbano está relacionado à saturação viária, escassez hídrica e energética e déficit sanitário. No entanto, sua análise é equivocada.

A culpa pela atual conjuntura, no seu modo de ver, não poderia deixar de ser outra. Atribui aos “especuladores imobiliários” a responsabilidade última por tudo que acontece. Mas, uma dúvida me ocorre... Quem faz o bairro crescer sem planejamento e controle?

Com uma população de 45.000 habitantes e outros 45.000 cidadãos que, diariamente, circulam no bairro[2], o Itacorubi tem intensa utilização de seu ambiente para as necessidades urbanas. A construção civil e os serviços imobiliários correspondem a uma parcela dos agentes que o incrementam. Portanto, descontextualizar a análise serve se não para fins políticos, para qualquer coisa que não a correta descrição do que realmente ocorre neste espaço particular.

Na rede hidrográfica da microbacia do Rio Itacorubi se encontram afluentes assoreados e poluídos que resulta de uma ocupação sem rede de esgotos, mas com fossas sépticas. Quem constrói fossas e não se preocupa em conectar seus esgotos domésticos a rede de esgotamento sanitário quando existente?

No Itacorubi, mais de 62% das quadras são localizadas em áreas irregulares e 32% estão em declividade acima de 16%, quase 30% em áreas a menos de 30 metros dos leitos fluviais etc. Por fim, apenas 37% estão situados em áreas adequadas do ponto de vista urbano.

O que isto significa? Que cabe a ocupação irregular do solo, a maior parcela de adensamento e ocupação urbana neste espaço em particular.

Portanto, se devemos “suspender” algum tipo de causa de degeneração ambiental, não deve ser justamente contra quem já tem todas as medidas jurídicas previamente tomadas antes da construção. Se a lei atualmente em vigor é insuficiente ou defasada, ela deve ser objeto de retificação via Câmara de Vereadores e não, por lobbistas da “participação popular” que, sob a desculpa de representarem a “sociedade civil” falam em nome da imensa maioria da população que depende da economia de serviços e seu mercado.

Aplicar multas às construções irregulares, sim. Lei para todos significa regularizar a propriedade, mas não punir aqueles que procuram se adequar e se esforçam para pagar todos seus tributos e ônus que lhe são, constantemente, infligidos.

No meu dicionário, responsabilizar um setor e, justamente, aquele que trabalha legalmente por todo um processo acumulativo de irregularidades é, no mínimo, desinformação, mito ou mais uma “lenda urbana” que de nada serve à construção da cidadania.


[1] Artigo publicado no Diário Catarinense de 05 de julho de 2008.

[2] PINTO; STEFFENS; OLIVEIRA. Análise Físico-Ambiental Urbana da
Microbacia do Rio Itacorubi, Florianópolis – SC, visando o uso de Software SIG
.
UFSC/UDESC: Anais XIII Simpósio Brasileiro de Sensoriamento Remoto, Florianópolis, Brasil, 21-26 abril 2007, INPE, p. 3011-3018.
<http://marte.dpi.inpe.br/col/dpi.inpe.br/sbsr@80/2006/11.14.14.29/doc/3011-3018.pdf>, acessado em 15 de setembro de 2008.


[*] Professor de Geografia e mestrando em Geografia Humana pela Universidade de São Paulo.

Thursday, September 11, 2008

Entorpecimento Global



Quando um atleta supera mais obstáculos, maior é seu crédito. Analogamente, o mesmo se dá com uma teoria que resiste a diversas tentativas de refutá-la.



Adapto aqui um excelente artigo do The Register, Is the earth getting warmer, or cooler?

Pesquisadores do Instituto Leibniz de Ciências Marinhas desenvolveram um modelo de ciclos de temperatura oceânica, cujos resultados diferem do atual ‘consenso’.

Portanto, quando se ‘prova’ que a Terra está esquentando (ou esfriando) depende, tão somente, das fontes utilizadas. Esta é a ‘prova’ que se tem.

Por exemplo, em duas fontes pesquisadas, se concorda com a tendência da temperatura global até 1998, mas se diverge sobre a mesma a partir desta data. O centro meteorológico britânico de Hadley afirma, no entanto, que as temperaturas estão em declínio.

Compare os gráficos de Hadley e da NASA:


O que isto revela? Ou, ao menos, sugere? Se a variação climática não é, claramente, ascendente ou descendente, temos um “efeito elástico”. Isto pode nos indicar um padrão, mesmo como imagem metafórica, de que o clima varia ora subindo, ora descendo suas temperaturas médias. A questão, portanto, é observar o que ocorrerá no longo prazo. E, ainda, o quão longo deverá ser este prazo...

Os dados da NASA, por sua vez, mostram temperaturas ascendentes mais ‘firmes’. Já, outras fontes, como os satélites UAH e RSS revelam redução da média térmica na última década. E as temperaturas atuais ficam pouco acima da média das três últimas décadas.

Observe os gráficos seguintes:



Qual a origem de toda esta divergência? Os cientistas são incapazes de entrar em consenso ou se tratam de premissas ideológicas por trás de tudo poluindo a ciência?

Uma dica do que acontece pode estar na mera apresentação visual do fenômeno. Comparando dois gráficos da própria NASA, um de 1999 e outro de 2007 se observa que no segundo, a imagem está mais ‘apertada’ dando a impressão de que o contraste entre baixas e altas temperaturas é maior do que de fato. Como o dado mais recente revela alta da média térmica tem-se a impressão de que o fenômeno do aquecimento está mais acirrado.

Se intencional ou não, não podemos dizer com propriedade. Mas, talvez seja só um “recurso estilístico”...

Segundo o autor, as tendências pré-1970 foram ajustadas para baixo e as posteriores para cima. Em certos anos, o ‘ajuste’ foi de 0,5 graus. Se isto, em termos globais não significa muito, em termos locais corresponde a vários graus de diferença.

Como os termômetros poderiam estar errados em 1999 e serem, corretamente, ajustados em 2007?

A NASA reeditou dados de 1930 a 1999. Só que a probabilidade de subir ou descer é de 50/50. Segundo o autor da matéria, se priorizou o aumento. Por quê? É a questão.

NASA staff have done some recent bookkeeping and refined the data from 1930-1999. The issues has been discussed extensively at science blog Climate Audit. So what is the probability of this effort consistently increasing recent temperatures and decreasing older temperatures? From a statistical viewpoint, data ecalculation should cause each year to have a 50/50 probability of going either up or down - thus the odds of all 70 adjusted years working in concert to increase the slope of the graph (as seen in the combined version) are an astronomical 2 raised to the power of 70. That is one-thousand-billion-billion to one. This isn't an exact representation of the odds because for some of the years (less than 15) the revisions went against the trend - but even a 55/15 split is about as likely as a room full of chimpanzees eventually typing Hamlet. That would be equivalent to flipping a penny 70 times and having it come up heads 55 times. It will never happen - one trillion to one odds (2 raised to the power 40.)

(…)

Particularly troubling are the years from 1986-1998. In the 2007 version of the graph, the 1986 data was adjusted upwards by 0.4 degrees relative to the 1999 graph. In fact, every year except one from 1986-1998 was adjusted upwards, by an average of 0.2 degrees. If someone wanted to present a case for a lot of recent warming, adjusting data upwards would be an excellent way to do it.


No site da NASA, observamos que o divulgador dos dados é o proeminente Dr. James Hansen – conselheiro científico do advogado mundial do aquecimento global, Al Gore.

Mas, é mais fácil apontar influências econômicas e políticas somente por parte das petroleiras contrárias a teoria aquecimentista...

A maior parte dos dados da NASA é obtida de termômetros. Muitos dos quais ‘contaminados’ pelo aquecimento urbano (“ilhas de calor”). E há uma concentração desproporcional destes instrumentos em cidades.

A NASA também tem um número reduzido de estações no Ártico e ainda menos na África e América do Sul. Nos últimos anos, os dados foram, sistematicamente, ajustados para cima. Observe no gráfico a seguir a diferença entre os dados relatados e os originais da USHCN/NASA:


Por que os dados dos satélites UAH e RSS são mais confiáveis? Por que cobrem quase toda a Terra, exceto pequenas porções próximas aos pólos Norte e Sul.

Sua metodologia também não sofre mudanças. Permanece a mesma todos os anos. E apresentam consenso pouco variando entre si.

Em março de 2008, os dados da NASA indicaram o terceiro mais quente da história. Mas, os dados dos satélites RSS e UAH evidenciaram-no como o mais frio do hemisfério sul e, um pouco acima da média mundial.



No mesmo mês, a Ásia mostrou-se mais quente do que a América do Norte, o que elevou a média do hemisfério norte. Em abril, os dois continentes resfriaram (mesmo avançando ao verão boreal). Aliás, foi um mês excepcionalmente fresco para a maioria do globo.

Os satélites têm demonstrado médias térmicas se comportando abaixo das estimativas do IPCC, próximas ou até mesmo abaixo da média dos últimos 30 anos. A exceção da NASA, cujos prognósticos caminham para o Apocalipse...

E sempre é bom lembrar que mesmo que se acabe com a ‘conveniência’ de ajustar dados, o déficit de estações meteorológicas no globo, da cobertura espacial dos satélites da NASA, ou a superestimação dos centros de pesquisas submetidos às “ilhas de calor” urbanas não inspiram confiança.

Lembremos que interesses sempre existem. Tanto “para cima” como “para baixo” das médias térmicas:

The Arctic ocean is warming up, icebergs are growing scarcer and in some places the seals are finding the water too hot, according to a report to the Commerce Department yesterday from Consul Ifft, at Bergen, Norway. Reports from fishermen, seal hunters and explorers, he declared, all point to a radical change in climate conditions and hitherto unheard-of temperatures in the Arctic zone. Exploration expeditions report that scarcely any ice has been met with as far north as 81 degrees 29 minutes. Soundings to a depth of 3,100 meters showed the gulf stream still very warm. Great masses of ice have been replaced by moraines of earth and stones, the report continued, while at many points well known glaciers have entirely disappeared. Very few seals and no white fish are found in the eastern Arctic, while vast shoals of herring and smelts, which have never before ventured so far north, are being encountered in the old seal fishing grounds.
Fonte… Um blog “RealClimate”? Não, apenas US Weather Bureau em 1922.

Em 1924 tivemos um susto do resfriamento global, em 1933, um susto do aquecimento global. Em 1970, outro susto por um novo resfriamento e hoje, mais um susto aquecimentista. O que, realmente vivemos é o entorpecimento global.

Wednesday, September 10, 2008

Reinício do debate


O tema do “aquecimento global” está sofrendo uma revisão por pesquisadores alemães:

http://www.theherald.co.uk/news/news/display.var.2238317.0.Doubt_is_cast_over_global_warming.php


As temperaturas globais podem não subir na próxima década devido a variações naturais, contradizendo previsões anteriores.

O ciclo de aquecimento, no Mar do Norte não seria permanente, mas sofreria variações de 70 a 80 anos.

Já as temperaturas da superfície do Pacífico Tropical se manteriam estáveis de acordo com o Instituto Leibniz de Ciências Marinhas.

Writing in Nature, they said: "Our results suggest that global surface temperature may not increase over the next decade, as natural climate variations in the North Atlantic and tropical Pacific temporarily offset the projected anthropogenic warming."

O que se sugere, no entanto, é um resfriamento no Atlântico Norte.

Curso de Sensoriamento Remoto - INPE - 2

http://www.dpi.inpe.br/cursos/sere/sr_geral_arquivos/frame.htm

Curso de Sensoriamento Remoto - INPE

http://mtc-m15.sid.inpe.br/col/sid.inpe.br/iris%401915/2005/11.08.13.16/doc/08_Sensoriamento_remoto.pdf

Tuesday, September 09, 2008

Brrr... A-a-a-que-que-quecimento?



Midsummer polar ice increase 2007-2008,
http://arctic.atmos.uiuc.edu/cryosphere/



A figura ao lado mostra a expansão da calota de gelo ártico. Em pleno verão!

Matéria do http://www.newsweekly.com.au/ aponta correlações entre a atividade solar e a temperatura terrestre. E não são apenas mudanças pontuais recentes, mas mudanças históricas nos últimos 1100 anos. Entre 1645-1715, p.ex., ocorreu um período extremamente frio que correspondeu a uma baixa atividade solar. Bem antes, o Período Quente Medieval (950-1300) propiciou a colonização da Groenlândia pelos navegadores vikings que hoje está coberta por uma grossa camada de gelo.

Poluição atmosférica


Cada problema resolvido tem como resolução a criação de outro problema. Este é o caso da poluição atmosférica em Londres que até 1930 ceifava a vida de mais de 64.000 pessoas por ano. A solução para o problema foi ‘deslocada’. No caso, os britânicos construíram chaminés altíssimas por onde a poluição era emitida e dispersa por centenas de quilômetros. O smog (smoke + fog) ia parar na Escandinávia ocasionando a famigerada chuva ácida.

O que se vê é que a solução inicial se torna um problema posterior. Mas, a questão não termina aí... Como este impacto ambiental se dava além fronteiras se tornou um problema de estado. Urgia, portanto, uma solução ao novo problema. Se não definitiva, ao menos mais eficaz, o que foi alcançado com a colocação de filtros nas chaminés.

O subproduto destas é a pasta de enxofre, que quando removida constitui grave ameaça à saúde. Visto isso ficamos com a sensação ruim e pesarosa de que o gênero humano não tem jeito mesmo. Mas, o que faltou dizer, é que a proporção de mortes entre um tipo de impacto e outro: enquanto que mais de 64.000 morriam todos os anos com chaminés sem filtros no Reino Unido, depois de sua adoção, as mortes por câncer causadas pelos depósitos de pasta de enxofre eram uma a cada meio século.

Isto mesmo, a tão letal pasta de enxofre, o resíduo da poluição é pouco incidente por que não é jogada ao deus dará na natureza, mas acondicionada em local apropriado. Esta é a questão: estamos melhorando muito em relação ao meio ambiente, embora não tenhamos atingido a perfeição.


Baseado em Lomborg, 2002, pp. 13-14.

Sunday, September 07, 2008

Dilema - 1

O Irã vive tensões internas entre a teocracia e o governo civil. Há um desejo paradoxal de modernização sem a ameaça de perda com seu vínculo religioso. Neste sentido, é que é possível entender o apoio interno a Ahmadinejad. É não é de duvidar que os aiatolás o vejam como um inconveniente necessário.

E
Os produtores de petróleo, como A. Saudita, Kuwait, EAU etc. se sentem ameaçados pelo Irã. O problema é que, se por um lado o Irã os ameaça, por outro, esta instabilidade diplomática joga o preço do barril de petróleo para cima (tal qual 1972). E os EUA estão na ambígua posição de defender aliados, mas ser contra interesses imediatos destes.
Este é o dilema. Ahmadinejad é só uma pedra daquelas que ficam no meio do caminho. Chutá-la é fácil, difícil é saber para onde jogá-la.

Colapso mental


Jared Diamond... Mais um embusteiro?



Pois é... Jared Diamond escreveu um livrão que aponta a decadência de uma das ilhas do Pacífico por sua suposta hiper-exploração de recursos naturais.

Engraçado como o mesmo não aconteceu com outras centenas de ilhas daquele oceano. Estranho criar uma regra a partir da exceção...

Jared Diamond e Thor Heyerdahl criaram o mito do colapso ambiental na Ilha de Páscoa.

A tese é de que a super-exploração ao desmatar a ilha os impediu de obter matéria-prima para suas canoas e pesca. Consequentemente, a fome levou a guerra civil e ao canibalismo.

Na verdade, a coisa é bem mais simples do que tudo isto...

Quando os europeus descobriram a ilha em 1722, com seus navios baleeiros em busca de água e alimento, também procuravam mulheres. As DSTs se disseminaram.

Mais tarde, em 1805, a escuna americana Nancy raptou escravos; em 1862, foi a vez do Peru. Após protestos internacionais, 100 sobreviventes foram repatriados e com eles, vieram a varíola e a maioria dos nativos morreu.

Em 1870, europeus forçaram os nativos a entrar nos navios queimando suas plantações.

O Chile colocou os poucos nativos remanescentes num campo de concentração em 1888, após a anexação da ilha.

Quando os holandeses aportaram por ali, em 1722, as choças nativas estavam cobertas com folhas de palmeira. Como, se não havia mais árvores no século XV, segundo Diamond?

Embora Diamond diga que havia trimoras (árvores locais) no século XV, para construção de pequenas canoas, as estátuas ainda eram transportadas no século XIX.

Neste mesmo século houve epidemia de sarampo, o que não impedia os ilhéus de cultivarem bananas, batatas e cana-de-açúcar. A ilha ainda tinha lagos com solos ricos nas margens que nunca foram cultivados.

Ah... Mas, não tinham canoas para a pesca! O oficial da marinha americana W. S. Thomson que viveu por lá em 1890 relatou que as lagoas eram repletas de lagostas e caranguejos. Nas praias havia tartarugas marinhas, ou seja, ovos e carne. Entre os artefatos dos locais havia anzóis de pedra e osso, redes de pesca de amoreiras... Adotavam as temporadas de pesca para evitar a pesca predatória.

Nunca foi provada a existência de 3.000 ilhéus, como diz Diamond. E as guerras eram rotina, com ou sem fome.

A única “prova” de canibalismo foi dada pelos missionários que precisavam arranjar uma boa justificativa para “salva-los da degradação”.

O “eco-colapso” de Diamond é história pra boi dormir quando sabemos que, de concreto, houve escravidão, sífilis, varíola, campos de concentração todos documentados.

O problema da ilha nunca foi ecológico, mas puramente econômico.

Réstia de racionalidade




O ministro extraordinário de assuntos estratégicos, Roberto Mangabeira Unger finalmente disse o óbvio, que não há como desenvolver a Amazônia, tampouco preservá-la sem um plano de regularização fundiária, isto é, definir a propriedade privada na vasta região.


“Sem tirar a Amazônia da situação de insegurança jurídica em que se encontra – ninguém sabe quem tem o quê – não avançaremos em nada mais”, avaliou.
Regularização fundiária é o principal problema da Amazônia, Ministério das Cidades.

Finalmente por que se admite a segurança jurídica do proprietário como passo inicial para discriminar, positivamente, quem é proprietário de quem é invasor. A questão primordial é que não dá para investir, sequer defender o que não se conhece com precisão. Admitir que um país com as dimensões do Brasil necessita de simplificação jurídica para sanar o problema da posse e propriedade fundiária é, sem dúvida, um primeiro, necessário e correto passo.

Em um território que corresponde a 59% do país, menos de 4% da propriedade privada têm sua situação fundiária regular. O resto, vocês podem imaginar, é literalmente “terra de ninguém”, na qual tudo pode acontecer, toda sorte de irregularidades e crimes.

O grande problema amazônico de hoje em dia, não é a ocupação ou exploração estrangeiras, mas o mau uso dos próprios nacionais.

“Enquanto a Amazônia continuar a ser um caldeirão de insegurança jurídica, e toda a sua população se sentir como se sente hoje, chantageada, nós não conseguiremos resolver nenhum dos problemas da Amazônia, não conseguiremos transformar a Amazônia na grande vanguarda brasileira, na fronteira da imaginação brasileira que ela pode ser”, disse o ministro.
Novo órgão servirá para simplificar regularização fundiária da Amazônia, A Tarde On Line.


Porém, se a criação de um novo órgão que substitua as atribuições do Incra é necessária, a questão que se põe é o que diferenciará deste no quesito eficiência?

Saturday, September 06, 2008

Commodities e meio ambiente



Lester Brown do Worldwatch Institute (WWI), sofismou ao concluir a queda da produção agrícola entre 1990 e 1993 como conseqüência do limite ao desenvolvimento fisiológico das espécies cultivadas. No período analisado ocorreu a desintegração da URSS que teve reflexos na desestruturação de sua economia.

Fez o mesmo com as exportações de mercadorias entre 1980 e 1983, sem avaliar as exportações de serviços que cresceram no mesmo período. As razões da queda não são ecológicas, devido a um esgotamento natural dos recursos, mas sim políticas devido a 2ª alta do preço do barril de petróleo.


Adaptado de Bjørn Lomborg, O Ambientalista Cético. Rio de Janeiro: Campus, 2002, pp. 9-10.

Saturday, August 30, 2008

A Verdadeira Nova Ordem Mundial



As guerras são ganhas por alianças, de preferência pelas maiores. A questão que propõe Friedman é que os EUA atualmente descartam as alianças, pois são uma força sem desafio a altura. Mas, ao jogar em tantos tabuleiros, ela se dissipa. O que podem agora que estão presos à questão do Iraque fazer sobre a Geórgia? A política adotada pela Otan em relação ao Kosovo foi a gota d’água e o ataque da Geórgia a Ossétia do Sul, o pretexto (?) para o revide russo. Por outro lado, os americanos esperam o apoio russo na questão do Irã ou, pelo menos, que não seja feito nenhum acordo envolvendo armas entre eles.

Bem vindos à verdadeira Nova Ordem Mundial que se parece muito com a Velha...

http://www.stratfor.com/weekly/real_world_order

Friday, August 29, 2008

Geopolitics - Dr. George Friedman

Our founder and CEO, Dr. George Friedman, explains the meaning of geopolitics and how "viewing world events through a geopolitical prism" is at the very heart of the intelligence and insight only Stratfor provides.

http://www.stratfor.com/

Wednesday, August 27, 2008

A balança de poder russa

...

A invasão russa da Geórgia ainda não mudou, substancialmente, a balança de poder na Eurásia. A ação americana no Iraque ou no Afeganistão, bem como a instabilidade no Paquistão permanecem as mesmas. Os americanos não auferiram nenhum poder a mais para influenciar no território da ex-União Soviética ou manter forças reservas terrestres para interferir no Cáucaso. De um ponto de vista exclusivo a partir de Washington, os americanos não ganharam muito no Cáucaso, mas podem perder.

Retomemos os eventos: dia 7 de agosto, forças georgianas fizeram incursão sobre a região separatista da Ossétia do Sul, que mantinha um status autônomo desde o fim da URSS. Sua capital, Tskhinvali foi ocupada. Na manhã seguinte, blindados e infantaria motorizada russas apoiadas pela força aérea invadiram o território georgiano na Ossétia do Sul. Informalmente, esta região se alinhou a Rússia que operou para anular sua incorporação à Geórgia. Dada a velocidade da operação que, em questão de poucas horas, levou a reação russa, está claro que os russos já sabiam das intenções de Tbilisi. O contra-ataque, cuidadosamente planejado que forçou a retirada georgiana levou apenas dois dias. No domingo, dia 10, os russos já logravam consolidar sua posição de ocupação na Ossétia do Sul (veja o mapa ao lado). No dia seguinte, os russos atacaram forças georgianas como se fossem dois machados. Um deles em direção a cidade georgiana de Gori ao sul, o outro em direção a Abkhazia, região separatista da Geórgia alinhada com os russos. O objetivo foi cortar a ligação da capital georgiana, Tbilisi com os portos do país. A partir daí, os russos bombardearam as bases aéreas de Marneuli e Vaziani. Seu posicionamento, a cerca de 60 quilômetros da capital georgiana tornou, praticamente impossível seu reabastecimento de Tbilisi.



O porquê da invasão georgiana

O ponto de partida de nossa indagação é qual o objetivo da invasão da Ossétia do Sul pela Geórgia na noite de quinta-feira? Após três noites precedentes de vigília osseta em vilas georgianas houve a troca da artilharia. Os georgianos, como é seu caráter, lutaram e resistiram, sob o claro intento de levar a ação da Geórgia para frente. Os EUA são os aliados mais próximos do país. Cerca de 130 conselheiros militares americanos e mais outros civis assessoravam o governo georgiano e empresários com os quais negociavam. Desta forma, torna-se inconcebível que os EUA não soubessem dos planos de Tbilisi. A inteligência americana, seus satélites e aviões espiões teleguiados também deveriam estar monitorando a movimentação de tropas russas. Estamos falando de milhares de soldados russos se deslocando em direção ao sul. Os russos sabiam claramente que os georgianos iriam contra-atacar. Como então, os americanos não poderiam saber igualmente dos russos? Da mesma forma, os americanos deveriam saber que a ação georgiana era o pretexto ideal para Moscou invadir e expulsar as forças da Geórgia. Se os georgianos se apoiavam nos americanos (e confiavam neles), não poderiam meter os pés pelas mãos e traçar uma estratégia que prejudicasse suas negociações regionais indo contra seus próprios interesses. Uma hipótese é que houve uma avaria na inteligência americana ou um péssimo calculo do poder de contra-ataque russo. Difícil crer que sua análise se baseasse no histórico da década de 90 quando o exército russo estava uma verdadeira bagunça e seu governo paralisado. Com a insuflação do separatismo nas regiões georgianos, os russos prepararam uma arapuca na qual os patos georgianos caíram direitinho.

Outro episódio em que os russos tomaram a dianteira foi na movimentação em território afegão nos anos 70 e 80, quando os EUA se viram forçados a buscar reforços e apoio nos guerrilheiros muhajedin de base ideológica talebã. E isto que os russos evitaram estes movimentos por anos... Ao contrário dos EUA, a Rússia não viu nenhum obstáculo militar. Economicamente, Moscou sabe muito bem de sua importância da exportação de seu gás para a Europa. Politicamente, os americanos necessitam dos russos, mais do que os russos necessitam dos americanos. O momento era ideal e o golpe, preciso.



O cerco ocidental a Rússia

Há alguns precedentes que explicam a motivação russa. Do ponto de vista ocidental e, americano em particular, a Revolução Laranja na Ucrânia (novembro de 2004), que levou um líder pró-ocidental ao poder, Viktor Yushenko, representou uma vitória da democracia. Para os russos, por sua vez, esta “revolução” era uma intrusão apoiada pela CIA para trazer a Ucrânia a esfera de influência ocidental e americana, leia-se Otan. O pai de George W. Bush – George H. W. Bush – e Bill Clinton prometeram que a Otan não se expandiria para os limites do ex-território soviético. A promessa fora quebrada em 1998 com a incorporação da Polônia, República Tcheca e Hungria ao seu sistema de defesa. Novamente, em 2004, não se contentando com a Europa Central, a Otan incorporou outras três ex-repúblicas soviéticas no Báltico, Lituânia, Letônia e Estônia. Os russos toleraram tudo isto até que chegou a vez da Ucrânia, cuja entrada no “guarda-chuvas” da Otan representou uma ameaça a sua segurança nacional. Se consumada sua entrada na Otan, a Federação Russa ficaria desestabilizada e indefensável. Quando, por fim, tentaram incorporar a Geórgia, a influência russa no Cáucaso seria, por fim, extirpada. A conclusão óbvia era que os EUA iriam partir a Federação Russa em diversos movimentos separatistas, descosendo-a como se rasgassem um velho cobertor cheio de remendos. Lembremos ainda que, pouco antes, Europa e EUA apoiaram a independência do Kosovo em relação a Sérvia. Os sérvios, antigos aliados dos russos não eram o problema, mas para Moscou desde o fim da II Guerra era condição de estabilidade que as áreas de influência não fossem alteradas. Com este princípio violado, outras regiões, dentro da própria Rússia poderiam seguir o exemplo. Os russos solicitaram que este status não fosse alterado, mesmo porque o Kosovo já tinha uma autonomia informal que equivalia, na prática, a esta nova independência formal. A Rússia foi simplesmente ignorada.

Desde o ocorrido na Ucrânia, os russos já concluíam que os EUA estavam cercando-os ostensivamente e estrangulando seu país em pontos estratégicos. Mesmo em episódios de menor importância estratégica – como foi o caso do Kosovo –, EUA e Europa não levaram a Rússia em consideração uma só vez. Chegara o limite para a ruptura. Se mesmo em um caso de pequeno significado regional (política e economicamente falando), a Rússia não tinha qualquer peso, para Moscou, o Ocidente já lhe declarara guerra. Para os russos não se tratava mais de entender o porquê disto tudo, mas sim em como responder a isto tudo. Se o Kosovo podia ser declarado como independente sob patrocínio ocidental, a Abkhazia e Ossétia do Sul também poderiam ter suas independências patrocinadas pela Rússia. Tratava-se apenas de jogar com as cartas que se dispunha. E os russos jogaram com quase todas.

Para os russos foi uma vitória moral: ao protestarem, EUA e Europa se revelariam hipócritas, pois negavam à Abkhazia e Ossétia do Sul, o mesmo que defenderam para o Kosovo. Por razões políticas internas a Rússia, o fato era importantíssimo. Se para o ministro Putin, a queda da URSS fora um desastre, isto não significava que quisesse retomá-la nos mesmos moldes de antigamente, mas que a segurança nacional estava, a partir de então, em uma rota perigosamente descendente. Uma rota de insegurança patrocinada pelo Ocidente. Urgia, para ele, retomar a influência russa nos territórios da extinta União Soviética.

Consideremos o seguinte: durante a Guerra Fria, São Petersburgo estava 1.930 km distante de qualquer país da Otan. Hoje está apenas 96,5 km distante da Estônia, um membro desta organização militar. A desintegração soviética deixou a Rússia cercada por países hostis ao seu antigo domínio e influenciados por americanos, europeus e, em alguns casos, pela China.[1]



A ressurreição da esfera russa

Putin não quis restabelecer a URSS, mas quis restabelecer a hegemonia russa dentro do ex-território soviético. Para tanto, ele teve que implementar as seguintes tarefas:
1) Reconstruir o exército russo e restabelecer seu crédito como força de peso regional.

2) Anular a influência da Otan no contexto regional da periferia russa.
Sua intenção não era o confronto direto com a Otan (mesmo porque, provavelmente, perderia), mas ter o poder de derrotar ou dissuadir qualquer país alinhado com a organização em sua periferia. Cabia a ele anular qualquer intento de ativar o Dispositivo Automático de Entrada (D.A.E.) que permite aos EUA avançar sobre território de outro país a partir de seus aliados regionais. Como demonstração de força neste sentido, a Geórgia foi a escolha perfeita para sua demonstração de força e coragem. “Coragem”, não contra a Geórgia, pois daí já seria covardia, mas em desafio a Otan mesmo, o que fez de modo competente.

O que Putin também revelou era o sabido de todos, mas não demonstrado empiricamente: como os EUA se acham atrelados a suas ações no Oriente Médio não poderiam oferecer muitas garantias no Cáucaso, ou em qualquer outra parte do globo.

No cômputo da operação até o momento, uma lição para ucranianos, georgianos, bálticos, europeus e centro-asiáticos digerirem, serviu como bônus. Especialmente, para a Polônia e República Tcheca.

Para o Kremlin, a defesa de mísseis balísticos que os EUA querem introduzir nestes países é uma ameaça clara a Rússia. Com o ataque a Geórgia, Putin e Medvedev querem demonstrar que as promessas e garantias dos americanos são vazias. Para os EUA, o Oriente Médio e, particularmente, o Irã lhe tomam muito mais atenção em detrimento do distante e inóspito Cáucaso. E os americanos querem a aliança russa contra o Irã, particularmente, não lhes vendendo armamento, como o eficaz sistema de defesa aérea S-300. Se os russos quiserem mesmo importunar os EUA, poderão vender armas não somente ao Irã, mas também a Síria.

O dilema americano consiste em priorizar o Cáucaso agora e deixar o Oriente Médio (o que parece fora de questão) ou limitar sua ação na Geórgia para evitar uma aliança russo-iraniana. Apesar dos interesses russos confluírem aos dos EUA na questão iraniana – o sistema de armas iraniano é mais ameaçador para a Rússia do que para os EUA considerando seu território mais próximo... O mesmo podendo se dizer sobre o Afeganistão, um acirramento do conflito no Cáucaso com maior ingerência americana pode alterar a situação para um quadro diametralmente oposto: uma aliança russa com o Irã e rebeldes afegãos contra os EUA.

Os ventos atuais são, aparentemente, favoráveis a Moscou. Seus coringas estão no fato de que:
1) Os russos apóiam os americanos (por enquanto...) em regiões críticas como o Afeganistão e Irã (próximos de suas fronteiras).

2) Os europeus dependem de seu fornecimento de gás e padecem com o déficit de forças expedicionárias.

Apesar de não ser uma potência mundial como os EUA, a Rússia é uma inegável força regional com reservas de armas nucleares e uma economia em ascensão, embora muito dependente de seus recursos naturais. Estes simples fatos compelem seus vizinhos a reavaliarem seus posicionamentos políticos em relação a Moscou.

No caso da Geórgia, provavelmente os russos exigirão a renúncia do presidente, Mikhail Saakashvili. Isto é o que querem e para isto estão se movimentando. Em uma escala mais ampla, a Rússia tem dado demonstrações de requerer o retorno ao status de grande potência. Em uma favorável combinação de fatores e eventos de médio prazo: o retorno do investimento e organização militares sob os governos de Vladimir Putin e, os gastos e envolvimento americanos no Oriente Médio ajudaram a consolidar o crescimento do poder russo. Uma “janela de oportunidade” se abriu para Moscou e o Kremlin a atravessou. Enquanto os americanos estiverem atrelados a sua geopolítica no Oriente Médio, a Rússia tenderá a crescer regionalmente. A guerra na Geórgia não foi uma surpresa, foi preparada por meses. Se as fundações geopolíticas que datam de 1992 fossem suficientes para deter o curso histórico de séculos em que a Rússia se sedimentou como poder imperial, não teríamos este conflito. Talvez, os últimos 15 anos tenham sido uma “aberração histórica” para o leste europeu. Se a retificação para um “eterno retorno” do Império Russo devesse ocorrer, ela está ocorrendo justamente agora.



[1] Mesmo que alguns insistam em acreditar numa suposta (e paranóica), aliança sino-russa...

Tuesday, August 26, 2008

O poder dos "lagos"



Sexta-feira passada, dia 22, o destróier americano USS McFaul e a fragata polonesa General Kazimierz Pulaski cruzaram o Estreito de Dardanelos controlado pela Turquia (aliada da Otan) em direção ao porto de Batumi na Geórgia. Um dia depois foi a vez das fragatas espanhola, Adm. Don Juan de Bourbon e alemã, FGS Luebeck deixarem o Bósforo em direção ao Mar Negro.

Enquanto o cruzador russo, Moskva deixou o porto ucraniano de Sevastopol em direção ao Mar Negro para um teste de armas e comunicações, a fragata USS Taylor atravessava Dardanelos. Monitorando seus movimentos, o USS Mount Whitney e o US Coast Guard Dallas trocavam informações.

Os antigos gregos definiam o Mar Negro como ‘inóspito’ ou o contrário de acordo com seu nível de controle sobre o mesmo. A última campanha militar significativa no mesmo data de 1916. Antes disso, na Guerra da Criméia, o czar Alexander II amargou uma derrota dramática. Quase um século de calmaria em suas águas, já estava passando da hora de suas ondas se levantarem novamente...

Trata-se de uma área rica em recursos (minérios, terras férteis, plantas industriais, passagens estratégicas), mas também de gritante fragilidade, especialmente para a Rússia que nunca dominou apropriadamente os mares. O foco do conflito não se dará nas montanhas (onde os russos têm vantagem), mas nele mesmo, o Mar Negro. E isto que ainda não temos a presença de nenhum porta-aviões. Uma questão de tempo...

A presença russa na Península da Criméia tem significado estratégico, mas é controlada pela Ucrânia (ao norte do referido mar) e a borda meridional deste mar tem controle turco. Isto, para não falar do gargalo representado pelos estreitos de Bósforo e Dardanelos que conectam o Negro ao Mediterrâneo. Desnecessário também complementar que a força russa neste é pouco mais que zero.

A Rússia é um poder terrestre, sempre foi, num mundo formado majoritariamente por água. Fronteiriça de países fracos como a Geórgia a leste ou próxima de outros igualmente frágeis como Moldávia, Romênia e Bulgária a oeste, em ambos os casos seus movimentos são limitados, respectivamente, pelas montanhas do Cáucaso e dos Cárpatos. Se isto limita os russos, também os protege. Portanto, qualquer ameaça real ao âmago do poder russo passa pelo Mar Negro. E é aí que se dirigem as forças ocidentais. Arrisco-me a dizer que é conveniente, pois servirá (também como pretexto) para um maior aprisionamento do Irã e do Iraque. Depois dessa, talvez sem perceber, os russos acabaram por ajudar os americanos...

Se futuramente Ahmadinejad reclamar em algum fórum da ONU da ameaça vinda a noroeste irão lhe dizer para se queixar com a dupla dinâmica, Medvedev e Putin. Triste ironia... Para ele, feliz para mim.

O trajeto liso e sem obstáculos naturais tentado por tiranos como Napoleão ou Hitler não deu certo. Por que agora, as forças democráticas do livre-comércio deveriam insistir no erro? Ataque pelo baixo ventre. Se o tórax é protegido, chute no saco.

Lembremos também de um detalhe: justo ao sul, se concentra as regiões produtoras de petróleo da Rússia européia, Tatarstan e Bashkorostan. Em último caso, sob pressão, um bombardeio nelas traria a glória para aliados de ocasião, como o Irã, cujas reservas aumentariam proporcionalmente de peso na oferta global de combustíveis.

Para os europeus, o Mar Negro nunca foi uma rota privilegiada, mas sim um limite para seus exercícios terrestres. Do outro lado, foi o que se deu com os Otomanos que marcharam até Viena pelos Bálcãs e não fizeram do Mar Negro seu meio de travessia naval. Mesmo seu domínio sob a Península da Criméia (1441-1783) nunca foi de todo efetivo. Durante a Guerra Fria, o Mar Negro padeceu comercialmente, pois o Danúbio, sob domínio soviético, atravessava e desaguava em sua área de influência. Hoje é diferente e aquela área interessa aos europeus.

O Muro de Berlim caiu e as hostilidades cessaram no território ex-Iugoslavo. Agora, a economia do gigante alemão dá as cartas. Em termos de logística, é muito mais barato escoar a produção da Europa Central pelo Mar Negro do que por terra e pelo Mar Báltico. Se isto for fechado, a Europa sentirá. Desta forma, os americanos já estão se posicionando para garantir sua passagem e permanente abertura. Para a Ucrânia nem se fala... Única nação ex-soviética com rios permanentemente navegáveis, o Dnieper e o Dniester. Os rios russos, por sua vez, congelam boa parte do ano e desembocam em pleno Ártico. Nesta situação, servem mais como escorregador para foca que transporte de carga.

Se o Mar Negro é uma benção econômica para a Ucrânia, também é uma praga geopolítica. Há uma população crimeneana etnicamente russa e pró-russa, especialmente no porto de Sevastopol. Aí está um dos pontos nevrálgicos do conflito.

Se para a Rússia, a importância deste mar está na posição estratégica de controle sobre os recursos provenientes do Cáspio, para a Geórgia e demais caucasianos é fundamental, aliás, a única passagem.

Há dois focos de povos russos no Mar Negro: na costa georgiana e na Criméia. Já, ao longo do Cáspio, ela é reduzida. Convém agora a Otan se enamorar dos azeris. Ofertas deverão ocorrer...

Se uma operação naval projetar-se ao Rio Don entre Rostov-on-Don e Volvogrado (ex-Stalingrado), Moscou será eliminada da rota caucasiana e das imensas fontes de energia da região. Afortunados serão os ucranianos que poderão barganhar com Washington e Moscou.

Corpos expedicionários britânicos e franceses tentaram-no durante a Guerra da Criméia invadindo Sevastopol através do Mar de Azov. Isto é inadmissível na Era Nuclear. Mas, no caso extremo, este será o corredor para um vetor decisivo do conflito: Criméia-Don-Volvogrado.

A Turquia se acha populacionalmente concentrada nos estreitos. Suas costas setentrionais (sul do Mar Negro) são de um relativo anecúmeno. Suas ásperas montanhas setentrionais servem de bloqueio às rotas comerciais e estas se localizam, preferencialmente, no Mediterrâneo.

Exceto por rotas alternativas (e mais onerosas), o controle do Mar Negro e, subsequentemente, da Europa Central e da Rússia neste cenário se encontra em mãos de Ankara. Historicamente, o Mar Negro foi uma área de hegemonia turca. Seus rivais eram os fracos países centro-europeus e a Rússia. Já no Mediterrâneo havia os venezianos, genoveses, depois italianos, franceses e ingleses como rivais a altura.

Mas, seu controle sobre o mar, particularmente a Península da Criméia nunca foi vital ao Império Otomano como foram os Bálcãs. No entanto, seja nas guerras russo-turcas do século XIX, seja na I Guerra Mundial, a Rússia nunca conseguiu eliminar a resistência turca no Mar Negro. Sua posição funcionou como um verdadeiro forte a expansão russa no Mediterrâneo. Consequentemente, hoje em dia, o Mar Negro é um verdadeiro “lago da Otan”. E o gargalo formado pelos estreitos de Bósforo e Dardanelos, tirante os acordos internacionais sobre seu uso, está sob controle turco. Da Turquia como membro da Otan. Mais ao sul, temos o Mar Egeu, também controlado pela Otan. Se, por um milagre, a Rússia furasse o bloqueio de Dardanelos não escaparia do labirinto no Egeu. Seria como um carneirinho solto na alcatéia. E somadas as marinhas e força aérea com apoio terrestre e naval, o Mediterrâneo inteiro é outro “lago da Otan”.

A Rússia, em que pese seu enorme poder terrestre, está ilhada, circundada por mares hostis. Por onde, em última análise teria que enviar suas forças para anular o contínuo abastecimento de forças opostas.

Na economia da guerra, o avanço pelo norte plano ou pelos íngremes Cárpatos contra a Rússia teria um custo imensamente maior. Se eu fosse teísta, diria que o bom deus agraciou os ocidentais com o Mar Negro, esta ponte ameaçadora que permite projetar um ataque visceral contra um senhor Calcanhar de Aquiles de Moscou.

Nem se precisaria invadir o território russo para obliterar seus movimentos. A imensa e inexpugnável marinha americana pode estacionar nos estreitos turcos e tomar a base-porto russa na Criméia com o apoio ucraniano (quem já se indispôs com Moscou). Só isto já seria mais do que suficiente para lançar ameaças permanentes contra a rota de suprimentos energéticos russos e seu envio de combustíveis a Europa. Com a Europa ao lado dos EUA, para quem os russos escoariam sua mono-produção de país periférico do capitalismo mundial?

Obviamente que se trata de uma tática ofensiva. Soa como total disparate comparar isto com a estratégia defensiva da Inglaterra na II Guerra Mundial.

Detalhe: estamos na época de porta-aviões e naus com lançadores de mísseis teleguiados quando lá, no Mar Negro, encontra-se a frota mais frágil da marinha russa. Sua maior força concentrada no Báltico, não conseguiria entrar no Mediterrâneo, no Egeu e no Negro, estes “lagos da Otan”.

A força aérea americana, por sua vez, está presente na base aérea turca de Incirlik. Analogamente, aeroportos na Grécia, Bulgária e Romênia também podem sediar forças americanas e demais países da Otan devastando o poder naval russo se necessário.

Além da bem-equipada força aérea, os turcos têm mísseis de cruzeiro submarinos que podem atingir o território russo. E estamos concentrados no Mar Negro. É possível ainda adicionar o posicionamento americano no Mar de Barents, no Báltico, no Mediterrâneo e no Egeu. Como garfos, seus projéteis facilmente transformariam a Mãe-Rússia num queijo suíço.

A única chance de vitória para a Rússia consistiria em poder neutralizar a Turquia.

Sem isto, nem com reza brava em Igreja Ortodoxa.

A geografia russa sempre foi um fator a neutralizar o desenvolvimento naval russo. A Ucrânia serviu, convenientemente, como estado-tampão a Moscou por séculos. Chegou a hora de Kiev dar um basta a isto.

Embora tenha tentado por mais de um século ultrapassar este obstáculo ao seu desenvolvimento como potência militar, a Rússia não logrou êxito. Sua derrota contra o Japão, no início do século XX foi uma guerra em que a logística falou mais alto que a estratégia. Os russos mal conseguem controlar seu próprio território, quiçá dominar mundialmente ou, mais modestamente, uma porção continental.

Senhores e Senhoras,

O que estamos assistindo é a inspiração do epitáfio da Mãe Rússia. Este é apenas o prelúdio de uma época vindoura de desagregação exponencial de seu território. Gerações futuras de russófilos amaldiçoaram os nomes de Medvedev e Putin.

Com tudo que conseguiu no auge dos tempos soviéticos, a Rússia nunca se fixou como potência no Mar Negro. Isto é fato. E seu amortecedor ucraniano hoje, acabou de virar uma imensa incógnita negra emanada sobre o tchernozion.

Hoje, mais do que ontem, a Turquia é a torneira que permite que a energia de uma barragem represada se irrompa sobre as planícies ucranianas. É o árbitro absoluto deste jogo. Sua aliança é chave para a Otan, uma realidade tão inexorável quanto uma lei física.

Monday, August 25, 2008

A maré poderá ser negra


Para Dmitri Medvedev, o Ocidente precisa da Rússia, mas a Rússia não precisa do Ocidente. Se o presidente russo desdenha da ameaça de rompimento com a cooperação militar com a Otan, o premiê Vladimir Putin afirma que a Rússia não tem interesse na OMC. Como se não bastasse o apoio de Moscou a independência das regiões separatistas da Geórgia, o vizinho Azerbaidjão enviou 200.000 barris de óleo cru ao Irã. Não se trata, contudo, de uma operação econômica ordinária, o país é a porta de entrada para o petróleo do Cáspio, cujo oleoduto Baku-Tbilisi-Ceyhan serve de rota alternativa a infra-estrutura meridional da Rússia. Uma explosão no oleoduto forçou o envio de petróleo ao Irã, comprometendo a intenção americana de isolar Teerã. Se o conflito começou por causa do Kosovo e chegou ao Cáucaso, agora ele se estende claramente ao Golfo Pérsico.

Como a Otan pouco pode fazer contra a Rússia no Cáucaso, os russos estão crescendo em suas operações regionais nesta queda de braço. Mas, em que pese sua até então bem sucedida estratégia, a Rússia não é invencível, especialmente no Mar Negro, uma imensa área critica a seu sistema defensivo. Se a Otan não tem como avançar muito em terra, no mar ela pode ameaçar os russos forçando sua pausa. A logística ocidental, tal qual a “ajuda humanitária” russa na Geórgia inclui nove navios de guerra. E não se trata de forças exclusivamente americanas, há navios espanhóis, turcos, poloneses, búlgaros e romenos para legitimar este jogo. A simples presença ascendente dos americanos nesta massa líquida exigiria dos russos uma pronta resposta. Muitíssimo mais importante do que a Geórgia, há a ligação direta com outra ex-república soviética, a Ucrânia. Realmente, não parece um bom negócio ganhar uma Geórgia para perder uma Ucrânia... Suas férteis planícies são o solo perfeito para um desembarque a partir deste “amortecedor” que é o Mar Negro. Isto seria a última coisa que os russos desejariam. O bem sucedido avanço russo num primeiro estágio poderá se configurar numa flagrante derrota mais a longo prazo. E a presença da nau capitânia Moskva é o pretexto perfeito para os EUA aumentarem e ameaçarem a implantação logística de domínio caucasiano. Tudo que o Kremlin não quer é um verdadeiro “mar negro” em seu desprotegido baixo ventre.

Tuesday, August 19, 2008

¿Por qué no te callas, Wallerstein?

A al-Qaeda perde força após os ataques de 11 de setembro e os EUA intensificam suas ações na fronteira entre o Afeganistão e o Paquistão. Com isto, as ameaças terroristas nos EUA diminuem. A liderança dos EUA entre os estados sunitas continua, não apenas devido à pressão ao Irã.

Mas, como dizem não existe almoço grátis...

As diversas operações militares americanas no Oriente Médio têm tido um enorme custo para o Pentágono. Claro que o tipo de análise tendenciosa a la Immanuel Wallerstein de que “os EUA não são uma superpotência” ou “estão em rota de decadência” (ignorando de que se não são uma ‘superpotência’ não tem ‘o que decair’...) não corresponde a uma correta avaliação estratégica: quanto mais operações se distribuem no globo, menor o estoque e capacidade logística para outras tantas operações.

...

Números

As Brigadas-Time de Combate (BCT, na sigla em inglês) americanas variam entre as 2.500 a 4.500 soldados, incluindo sua estrutura de apoio (tanques, humvees etc). Isto pode variar de acordo com o terreno. Enquanto que no Iraque bastam infantaria e tanques, no Afeganistão dada a irregularidade do relevo, os helicópteros são essenciais. As unidades atuais têm prazo de vigência para mais de quatro anos. São unidades leves capazes de se deslocar rapidamente para missões de paz ou contra-insurgência. Estas forças modulares são preparadas para a luta auto-suficiente frente ao oponente com armamento convencional. Esta padronização avança rapidamente no Iraque.

Em 2004 havia 33 brigadas convencionais e hoje, 42 do tipo modular descrito (BCT). A idéia é substituir completamente as tropas no Iraque até 2010, para um total de 547.000 soldados. Sim, vocês leram direito, mais de meio milhão de soldados no Iraque. Provavelmente, o desemprego nos EUA irá reduzir... Serão 48 BCTs, mais 28 de reserva.

As tropas atuais estão voltando de um ano de atividade (pouco mais de 15 meses se contabilizarmos seu treino a partir de janeiro de 2007). O Pentágono disponibilizará, gradativamente, uma BCT de reserva a cada cinco anos. Enquanto isto, as “unidades pesadas” ainda continuarão a ser utilizadas.

Já os marines têm atuação diferenciada, estão habilitados para combates pesados, centrados na atuação de regimentos de infantaria. Como não são pensados para atuar isoladamente, precisam de elementos de apoio para equivaler funcionalmente a uma BCT. Normalmente, marines trabalham com oito regimentos e mais três de reserva. Sua expansão, apoiada por estrutura de apoio, está prevista para 2011.

Não se incluem nesta consideração, as forças especiais. Atualmente, o Comando de Operações Especiais (SOC, na sigla em inglês) são os mais ocupados. Apesar de extremamente versáteis, sua substituição é bastante complicada, dada sua natureza de elite.

Hoje, Washington dispõe de 50 BCTs ativos e 31 de reserva. Mas, como as reservas não são automaticamente incorporadas, convém considerar que cada cinco BCTs (em preparo) equivalem a uma realmente disponível. Na prática, são 56 BCTs de pronta disposição.

O custo de adaptação envolve três brigadas convencionais para cada BCT. Isto representa um custo imenso. E estas brigadas modificadas passarão de 15 para 45 no Iraque.

Para se ter uma idéia da importância do cenário iraquiano, esta reestruturação não se aplicará à Coréia do Sul; na Alemanha há duas BCTs permanentemente instaladas, cujo retorno está previsto para 2012 a 2013; na Bósnia e Kosovo há menos de uma estacionada; no Japão, os batalhões de marines podem variar de um para dois; devido ao contexto regional, leia-se Coréia do Norte, as tropas deverão aumentar de Okinawa a Guam.

Resumindo, 45 BCTs para o Iraque, 7,5 para o Afeganistão e umas seis para o resto (exclusive, a Alemanha). Qualquer anúncio de redução de tropas no Iraque não parece corresponder à realidade, mas sim um rearranjo global. Cabe lembrar que forças mais pesadas já são disponibilizadas pela Otan, que não entrou nesta avaliação. Falamos apenas das forças, exclusivamente, americanas.

A dinâmica das operações no Iraque não irá arrefecer. Pelo contrário, tudo indica seu recrudescimento. Exceto, se alguém for tolo suficiente para achar que a Casa Branca joga ao sabor dos ventos da opinião de Wallersteins da vida...

...

A presença mundial americana não será reduzida, apenas passará por rearranjos.

Lembre-se, uma águia não tem somente garras poderosas. Sua visão é seu maior trunfo.

Gritem “festa” na janela do tempo...*

Monday, August 18, 2008

Por trás da micro-análise do Caucáso, um exercício de sofismas



Em Por trás da miniguerra no Cáucaso, o xadrez geopolítico de Immanuel Wallerstein, uma série de meias-verdades e um verdadeiro “contorcionismo teórico” camuflado como “didática” serão analisados agora, nas notas de rodapé que se seguem:

...



Parece que os Estados Unidos se enganaram redondamente quando imaginaram ter alguma espécie de privilégio de superpotência em sua partida contra a Rússia[1]

O mundo testemunhou nesta semana uma miniguerra no Cáucaso, e a retórica tem sido intensa, embora em grande medida irrelevante. A geopolítica é uma série de gigantescas partidas de xadrez disputadas entre dois jogadores, nas quais estes buscam posições de vantagem. Nessas partidas, é crucial conhecer as regras vigentes que regem os lances. Os cavalos não podem andar na diagonal. Entre 1945 e 1989, a partida principal de xadrez era disputada entre os Estados Unidos e a União Soviética. Ela se chamava a Guerra Fria, e as regras básicas do jogo eram conhecidas metaforicamente como "Yalta". A regra mais importante dizia respeito a uma linha que dividia a Europa em duas zonas de influência. Essa linha foi chamada por Winston Churchill de "Cortina de Ferro" e se estendia de Stettin a Trieste. A regra dizia que, não importasse quanta turbulência fosse instigada na Europa pelos peões, não haveria guerra de fato entre os Estados Unidos e a União Soviética. Ao final de cada instância de turbulência, as peças voltariam a suas posições originais. Essa regra foi respeitada cuidadosamente até a queda dos comunismos, em 1989, marcada mais notadamente pela destruição do Muro de Berlim. É inteiramente verdade, como todos observaram na época, que as regras de Yalta foram anuladas em 1989 e que a partida disputada entre os Estados Unidos e (desde 1991) a Rússia mudou de maneira radical. O maior problema desde então é que os Estados Unidos não compreenderam direito as novas regras do jogo. Eles se proclamaram, e foram proclamados por muitos outros, a única superpotência mundial. Em termos de regras de xadrez, isso foi interpretado como significando que os Estados Unidos tinham liberdade para movimentar-se pelo tabuleiro de xadrez como bem entendessem e, especialmente, para transferir antigos peões soviéticos para sua esfera de influência. Sob Clinton, e mais notadamente ainda sob George W. Bush, os Estados Unidos passaram a jogar a partida dessa maneira. Só havia um problema nisso: os Estados Unidos não eram a única superpotência mundial -nem sequer eram uma superpotência.[2]


Mais jogadores

O fim da Guerra Fria significou que os Estados Unidos foram rebaixados. De uma das duas superpotências, passaram a ser um Estado forte em meio a uma distribuição realmente multilateral do poder real em um sistema inter-Estados. Muitos países grandes passaram a poder disputar suas próprias partidas de xadrez sem precisarem informar as duas antigas superpotências de seus lances. E começaram a fazê-lo. Duas decisões geopolíticas de importância maior foram tomadas nos anos Clinton. Primeiro, os Estados Unidos fizeram pressão grande e mais ou menos bem-sucedida para que os antigos satélites soviéticos ingressassem na Otan [a aliança militar ocidental]. Esses países estavam ansiosos por entrar, apesar de os países-chave da Europa Ocidental -Alemanha e França- relutarem um pouco em seguir esse caminho. Eles viam a manobra dos EUA como tendo o objetivo, em parte, de limitar sua recém-adquirida liberdade de ação geopolítica. A segunda decisão-chave dos Estados Unidos foi tornar-se jogador ativo nos realinhamentos de fronteiras dentro da antiga República Federal da Iugoslávia. Isso culminou na decisão de autorizar a secessão de facto de Kosovo da Sérvia e implementá-la com suas tropas. A Rússia, mesmo sob Boris Ieltsin, ficou bastante insatisfeita com essas duas ações dos Estados Unidos. Mas a desorganização política e econômica da Rússia durante os anos Ieltsin era tão grande que o máximo que ela pôde fazer foi queixar-se, em voz bastante fraca, é mister acrescentar. A chegada ao poder de George W. Bush e Vladimir Putin foi mais ou menos simultânea. Bush decidiu levar a tática da superpotência única (ou seja, os Estados Unidos podem movimentar suas peças da maneira como decidem por conta própria) muito mais longe do que fizera Clinton.[3]


Regras próprias

Para começar, em 2001 Bush retirou o país do Tratado de Mísseis Antibalísticos firmado por EUA e União Soviética em 1972. Em seguida, anunciou que os Estados Unidos não ratificariam dois tratados novos assinados durante o governo Clinton: o Tratado de Proibição Total de Testes, de 1996, e as modificações acordadas no tratado de desarmamento nuclear SALT 2. Então Bush anunciou que os Estados Unidos iriam adiante com seu Sistema Nacional de Defesa Antimísseis. E, em 2003, Bush invadiu o Iraque. Como parte dessa iniciativa, os Estados Unidos buscaram e obtiveram o direito de construir bases militares e o direito de sobrevoar repúblicas centro-asiáticas que antes faziam parte da União Soviética. Além disso, os EUA promoveram a construção de dutos para o escoamento do petróleo e gás natural da Ásia Central e do Cáucaso, passando ao largo da Rússia. E, finalmente, os Estados Unidos fecharam um acordo com a Polônia e a República Tcheca para instalar uma defesa antimísseis, ostensivamente para proteção contra mísseis iranianos. A Rússia, porém, viu essas instalações como sendo voltadas contra ela. Putin decidiu reagir com muito mais eficácia que Ieltsin. Sendo um jogador prudente, porém, ele primeiro se movimentou para fortalecer sua base doméstica, restaurando a força da autoridade central e revigorando as Forças Armadas russas. Nesse momento, as marés da economia mundial mudaram, e, de uma hora para outra, a Rússia tornou-se a rica e poderosa controladora não apenas da produção petrolífera, mas também do gás natural tão necessário aos países da Europa Ocidental.[4]


Adversário fortalecido

Então Putin começou a agir. Ele criou relacionamentos com a China, selados em tratados. Manteve relações estreitas com o Irã. Começou a expulsar os Estados Unidos de suas bases na Ásia Central. E assumiu uma atitude firme contra a ampliação da Otan para duas zonas-chave: a Ucrânia e a Geórgia. A fragmentação da União Soviética levara ao surgimento de movimentos secessionistas étnicos em muitas antigas repúblicas, incluindo a Geórgia. Quando, em 1990, a Geórgia procurou pôr fim ao status autônomo de suas zonas étnicas não-georgianas, estas imediatamente se declararam Estados independentes. Não foram reconhecidas por nenhum país, mas a Rússia garantiu sua autonomia de fato. Os fatores mais imediatos a incentivar o desencadeamento da miniguerra atual foram dois. Em fevereiro, Kosovo formalmente converteu sua autonomia de fato em independência de direito. Sua iniciativa foi apoiada e reconhecida pelos Estados Unidos e muitos países da Europa ocidental. A Rússia avisou, na época, que a lógica dessa iniciativa se aplicaria igualmente a secessões de fato ocorridas nas antigas repúblicas soviéticas. Na Geórgia, a Rússia imediatamente e pela primeira vez reconheceu a independência de direito da Ossétia do Sul, em resposta direta à de Kosovo. E, na reunião da Otan de abril deste ano, os Estados Unidos propuseram que Geórgia e Ucrânia fossem recebidas num chamado Plano de Ação para Ingresso (na Otan). A Alemanha, a França e o Reino Unido se opuseram, dizendo que isso provocaria a Rússia.[5]


Jogada desesperada

O presidente neoliberal e fortemente pró-americano da Geórgia, Mikhail Saakashvili, se desesperou. Ele via a reafirmação da autoridade georgiana na Ossétia do Sul (e também na Abkházia) como perspectiva cada vez mais distante, de maneira permanente. Assim, escolheu um momento de desatenção da Rússia (Putin estava nas Olimpíadas, o presidente Dmitri Medvedev, de férias) para invadir a Ossétia do Sul. As insignificantes forças militares da Ossétia do Sul desabaram completamente, é claro. Saakashvili imaginava que forçaria os Estados Unidos (e também a Alemanha e a França) a sair em seu apoio. Em vez disso, houve uma reação militar russa imediata, superando o pequeno Exército georgiano de forma avassaladora. O que Saakashvili recebeu de George W. Bush foi retórica. Afinal, o que Bush podia fazer? Os Estados Unidos não são uma superpotência. Suas Forças Armadas estão inteiramente tomadas por duas guerras que estão perdendo no Oriente Médio. E, o mais importante de tudo, os Estados Unidos precisam da Rússia muito mais do que a Rússia precisa deles. O chanceler russo, Sergei Lavrov, em artigo no "Financial Times", fez questão de observar que a Rússia é "parceira do Ocidente com relação ao Oriente Médio, Irã e Coréia do Norte". Quanto à Europa ocidental, a Rússia, essencialmente, controla seu suprimento de gás. Não foi por acaso que foi o presidente Nicolas Sarkozy, da França, e não Condoleezza Rice, quem negociou a trégua entre Geórgia e Rússia. A trégua contém duas concessões essenciais da Geórgia. Esta se comprometeu a não mais recorrer à força na Ossétia do Sul. E o acordo não faz referência à integridade territorial georgiana. Assim, a Rússia emergiu muito mais forte que antes. Saakashvili apostou tudo o que tinha e agora esta geopoliticamente falido. E, como nota de rodapé irônica, a Geórgia, uma das últimas aliadas nos EUA na coalizão no Iraque, retirou seus 2.000 soldados desse país. Esses soldados vinham exercendo um papel crucial nas áreas xiitas e agora terão que ser substituídos por soldados dos EUA, que, para isso, terão que ser retirados de outras áreas. Quando se joga xadrez geopolítico, é aconselhável conhecer as regras, para não
ser derrubado pela jogada do rival.[6]

IMMANUEL WALLERSTEIN, pesquisador sênior na Universidade Yale, é autor de "O Declínio do Poder Americano"[7]





[1] Quem pensa assim realmente na cúpula dirigente em Washington? É um engano, tosco, tomar a retórica política por verdade. Se fosse assim não haveria ações de contenção, como ora vemos com a Otan.

[2] “Potência militar” se torna um país quando apresenta notável desproporção de forças superior aos seus oponentes. “Superpotência” é quando sua capacidade de destruição afeta o globo inteiro, o que é, evidentemente, o caso dos EUA. Já, quando há mais de uma superpotência, suas ações têm que levar em conta a mútua capacidade de destruição reduzindo assim, sobremaneira, seus movimentos no “xadrez geopolítico global”.

[3] Interessante a observação das ações unilaterais dos EUA, quando precisamente vários estados ex-socialistas anseiam por entrar em sua esfera de influência através de acordos de defesa. Se fosse assim tão ruim, como então há (porque não se trata do passado), o desejo explícito de vários paises da Europa Oriental e do Oriente Médio (no Cáucaso) em integrar o guarda-chuvas da Otan? A Guerra Fria acabou, justamente, devido a pressão americana na corrida armamentista sob governo de Ronald Reagan. Enquanto que o orçamento militar se restringia a meros 6% de seu PIB, a URSS teve que dispensar cerca de ¼ do seu para mal acompanhá-los. Dizer que os EUA saíram “enfraquecidos” ao final do período do Pós-Guerra é, no mínimo, tolo. Enquanto que a ONU fragorosamente fracassou na Iugoslávia, a Otan sob presidência americana é que, finalmente, pos fim ao conflito.

[4] E, justamente, por isso tenta de todas as formas (como o pretexto de salvaguardar etnias russas na Geórgia) interferir na construção do oleoduto georgiano. O que não passa do mais bruto imperialismo. Os EUA, neste caso específico, não fizeram senão um acordo comercial. E de mais a mais, a riqueza pautada em produtos minerais é que tem base frágil. Assim como “as marés da economia mundial mudaram”, o mesmo pode acontecer novamente tão logo outras regiões venham a se estabilizar na oferta de combustíveis para exportação.

[5] Sim, é verdade que a lógica do apoio ao Kosovo foi utilizada como justificativa pela Rússia. Nada a objetar. Mas, cabe lembrar que a lógica de dura retaliação aplicada pela própria Rússia à província separatista da Chechenia não foi respeitada quando a Geórgia fez a mesmíssima coisa em seu território reprimindo os movimentos separatistas na Abkhazia e Ossétia do Sul. Claro que para Wallerstein é conveniente lembrar apenas um dos dados do movimento de seu xadrez geopolítico...

[6] “Papel crucial” das forças georgianas no Iraque? Ridículo. Só o numero de soldados americanos mortos na guerra supera os 3.000. E mais de 130.000 ainda estão em ação no país. Se o “chanceler russo, Sergei Lavrov (...) fez questão de observar que a Rússia é ‘parceira do Ocidente com relação ao Oriente Médio, Irã e Coréia do Norte’”, como então Putin “criou relacionamentos com a China, selados em tratados. Manteve relações estreitas com o Irã. Começou a expulsar os Estados Unidos de suas bases na Ásia Central”? Parece que o professor esqueceu as próprias palavras proferidas no início do artigo. Não só a mentira tem pernas curtas, como o sofisma também.

[7] O “pesquisador sênior na Universidade Yale” não passa de mais um pobre tolo antiamericanista com pretensões a clone intelectual de 5ª categoria de Noam Chomsky.

Thursday, August 14, 2008

Entre a torcida e o impedimento

Sim, é estúpido torcer contra uma tendência positiva do aumento da classe média apenas porque este governo é do PT. Porém, não é errado questionar o como isto se dá. Se 60% da economia brasileira tem se caracterizado pela informalidade, como podemos inferir o tamanho real de nossa classe média ou de qualquer outra classe social?

Não incorro em academicismo, se trata apenas da busca pela verdade. Assim como a possibilidade de que o "aumento da classe média" possa ser apenas reflexo do achatamento do padrão de vida da classe média que tínhamos antes da contabilização das classes baixas após a distribuição de bolsas-família. Ou seja, o que talvez tenhamos seja uma uniformização das classes com uma redução da renda média geral. Levando-se em consideração apenas o estrato inferior, fica fácil concluir que tudo melhorou. Claro que esta segunda hipótese pode nem ser cogitada, devido a sua inconveniência...

Acho que para estes dados terem maior validação, tinham que vir acompanhados de outros buscando abranger o aumento (ou possível redução, se for o caso) da informalidade. Se esta aumentou, qualquer inferência sobre "aumento da classe média" tem que ser acompanhada de reticências.

De qualquer forma, vale a pena ler o texto abaixo:

É a classe média, estúpido!

Jornal de Uberaba

É isso aí!

O desafio na era pós-Lula é a informalidade

por Ricardo Neves

Wednesday, August 13, 2008

Caos no Cáucaso - 8

Realismo é isso aí:


Questões psicológicas, econômicas e políticas motivaram Rússia

Entrevista com Marshall Goldman, PhD em estudos da Rússia pela Universidade Harvard, sobre a ofensiva russa na Geórgia.

Monday, August 11, 2008

Para que viseiras se tens um mapa?

Observemos o seguinte argumento em itálico:




Um pouco de perspectiva: A guerra maior é uma guerra por recursos energéticos e supremacia. O grupo anglo-americano buscando manter sua supremacia, como sempre, e a Rússia tentando tomá-la.

O novo teatro de guerra é este:


A área circulada com linha tracejada corresponde a regiões de produção e reservas de petróleo e gás. Inclui Irã, Geórgia, Armênia, Chechênia e, claro, a Arábia Saudita. A racionália anglo-americana é "manter o mundo livre". A racionália russa é "construir um mundo multipolar, livre da opressão americana".

A estratégia Russa é construir a Aliança Eurasiana, desde a China até a França. A estratégia americana é isolar a Rússia por meio de um cinturão de países da OTAN em torno da Rússia. A Geórgia faria parte deste cinturão e já aceitou fazer parte da OTAN. A Rússia está se antecipando à estratégia americana e está reagindo.

(Notem também, pelo mapa, a bobagem que é falar em "ameaça iraniana": O Irã está literalmente cercado por aliados americanos: Iraque, Afeganistão, Turquia, Arábia Saudita, etc. Cada aviãozinho daqueles no mapa é uma base aérea americana.)

A Geórgia não apenas faz parte do cinturão de detenção da Rússia, mas é um corredor importante para escoamento da produção de hidrocarbonetos do Azerbaijão, no Mar Cáspio. Planejava-se ali o oleoduto Baku-Tbilisi-Ceyhan (BTC), operado por uma companhia britânica.

Aí entra o imprevsível: Mikhail Saakashvili, homem totalmente pró-Ocidente, mas impetuoso e intuitivo, eleito presidente da Geórgia em 2003, na chamada Revolução da Rosa. O erro de Saakashvili foi o mesmo de vários entusiastas do Ocidente. Sempre e sempre, deslumbrados, achando que os "valores" do Ocidente são idealistas, românticos, acima de qualquer cálculo político frio e também, mais importante, acima dos próprios interesses das nações ocidentais avançadas.

Saakashvili, embalado pelas promessas americanas, pela entrada na OTAN, pelas suas peregrinações a universidades americanas e européias, pelos rapapés e elogios sempre oferecidos pelo Ocidente a seus aliados entusiasmados, achou que estava surfando a onda da História: Por que não invadir a Ossétia e a Abcázia e dar ao russos a lição que eles merecem ?

Certamente, nossos irmãos americanos e a Otan virão em nosso socorro.

Como aconteceu outras vezes, não foram, não. Saakashvili está agora isolado e prestes a ser deposto pelos russos, provavelmente morto. O Ocidente não virá em seu socorro. O Ocidente não entrará em uma guerra contra a Rússia pela Geórgia. Os "valores Ocidentais" são para os românticos como Saakashvili, não para os veteranos do jogo.

Uma bela demonstração deste drama, ao vivo, pelo Youtube, tempos modernos, Saakashvili, pede em vão pela ajuda do Ocidente, em nome dos valores, da liberdade, do empreendedorismo.

E recebe apenas uma resposta fria do repórter, que foi previamente informado pelos chefes: "Mas não foi você quem começou tudo ?". Cruel...

http://br.youtube.com/watch?v=Ai2yeTB1xIQ&feature=related

E assim morrem os românticos...

...

O "romantismo" ficou por conta do comentarista acima, como se tratasse disso... Evidentemente que não é o caso, mas que essa história está mal contada e desviada de foco para, de modo nada original, culpar os americanos em uma situação que não têm qualquer participação direta.

A questão não é o interesse em si na área produtora de petróleo “pelo grupo anglo-americano”, mas como este, efetivamente, se processa. Ao que eu saiba, não há imposição do “grupo anglo-americano” à Geórgia para que sirva de canal de escoamento dos hidrocarbonetos do Cáspio.

Apenas mostrar a disposição destas forças “anglo-americanas” (como se não houvesse a disposição das forças em contrário...) serve como subsídio parcial de análise, mas não como veredicto. Ou se é um ingênuo socialista ao pensar que tais recursos não têm que ser comercializados como qualquer commodity que é ou se é um ingênuo liberal que acha que os mesmos não têm que ser protegidos por forças armadas de países que os detêm ou que querem, simplesmente, comprá-los.

Assim, a “reação russa” é de que forma? Utilizando o pretexto do embate étnico, os russos buscam assegurar seu monopólio no fornecimento de combustíveis à Europa ao pressionar pela obstrução da rota alternativa de petróleo. Isto não é uma reação, qualitativamente, equivalente, mas justamente uma inversão do jogo comercial ora em curso. Se os russos quisessem mesmo manter sua primazia de acordo com as regras comerciais deveriam baratear seu produto. Coisa que, historicamente, são completamente avessos.

Não faço coro com os que acreditam numa aliança incondicional entre Moscou e Teerã, mas se a “ameaça iraniana” não se configura como realidade é, justamente, porque o país está cercado por bases americanas. E a justificativa para tanto existe devido ao currículo histórico dos aiatolás, como quando Khomeini mandou obstruir o Estreito de Ormuz em 1979 com minas submarinas e triplicando o preço do barril de petróleo. A lógica de um país basicamente mono-exportador é esta: a simples redução da oferta. Se há aqueles que discordam, a redução da oferta também pode se dar compulsoriamente, com um "bônus" de 1.400 mortes num só dia.

Mas, se esperar que a mídia brasileira adjetive a campanha russa de "imperialista" (tal qual faz com os americanos no Iraque...) é melhor sentar.

Também dizer que o presidente da Geórgia, Saakashvili “surfou na onda da história” ao invadir a Abkházia e a Ossétia do Sul que fazem parte do território georgiano, como se isto tivesse algo a ver com "liberalismo" e, supostamente, atendesse aos interesses americanos, é contar a história pela metade. É não considerar que houve influência e apoio russa nestes territórios, bem como infiltração de massa de manobra russa com outros povos.

Acho tão legítima a discussão sobre a autodeterminação destes povos (abkhazes o ossetas) quanto o princípio de autonomia econômica georgiano sobre como e para quem escoar o petróleo do Cáspio.

Só para nos refrescar a memória, quem definiu os rumos da secessão chechena se não os russos? Alguém teve moral para divergir disto dentro do quadro das nações?

Se for lícito dizermos que toda secessão é legítima dentro do princípio de autodeterminação dos povos, alguém ainda apóia o separatismo gaúcho? No dos outros é refresco, mas no nosso é pimenta...

Dizer que são “interesses de estado” é chover no molhado. A questão é como eles são geridos. Se Putin lembrou a necessidade da China considerar a questão do Tibet eu pergunto se isto se funda em bases verdadeiras ou só pela criação de mais um estado-tampão do qual a Rússia poderia estabelecer laços e influência? Ou se acredita que só americanos agem de acordo com seus interesses?

Óbvio que surgirão, mais e mais daqueles que darão um jeito de inverter totalmente a questão encontrando alguma "culpa anglo-americana". Se fosse doença seria sintomático como transtorno mental. Como não é, se trata de simples burrice.