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O presente blog, Geografia Conservadora servirá mais como arquivo e registro de rascunhos.
a.h

Sunday, March 23, 2008

DMB - 1



Nations equipped with ballistic missiles in 1972.








Nations equipped with ballistic missiles as of 2004.
Thanks to the Missile Defense Agency for the data.
Os russos propagandeiam que seu sistema de mísseis balísticos é capaz de alvejar os sítios da Otan instalados na Polônia ou República Tcheca. Uma nova Guerra Fria? Nem tanto. Algo mudou... Nos anos 80, quando Reagan impulsionou uma nova corrida armamentista, a estratégia tinha um claro objetivo político, com os EUA gastando apenas 6% de seu PIB no sistema de defesa e os soviéticos sendo obrigados a empenhar mais de 1/4 de seu orçamento para acompanhá-los. A corrida deflagrada por Reagan forçou a Rússia a uma espécie de rendição ao obrigá-la a assinar os acordos de desarmamento pondo fim assim à Guerra Fria. Mas, o fim do Mutually Assured Destruction (MAD) também pôs fim à décadas de relações politicamente estáveis baseadas na "paz armada" das grandes potências nucleares.

Hoje, a realidade tecnológica é diferente e assim, a visão estratégica americana também não poderia permanecer a mesma. Um amplo e disseminado sistema de Defesa de Mísseis Balísticos (DMB) americano pelo mundo é o que pode fazer frente aos intentos militares ascendentes do Irã e da Coréia do Norte. E, nunca é demais lembrar, quando se pensa na reconstrução de alguma base destruída, os custos de um sistema de defesa são bem menores quando feitos preventivamente.

Por outro lado, há um legado da Guerra Fria: a estratégia americana também visa empurrar para longe de sua heartland, as ameaças diretas aos EUA. Não ser ameaçado implica em poder ameaçar os inimigos de perto e controlar seu avanço marítimo através de um novo "cordão sanitário" euroasiático. Mas, se no século XX, o poder naval americano foi decisivo nestas questões, a "democratização tecnológica" dos mísseis balísticos de hoje em dia não tem na Marinha, a mesma garantia defensiva de outrora. Dominar o sistema de DMB hoje não é apenas luxo para manter-se na dianteira de uma nova corrida armamentista: faz parte de uma inefável lógica de defesa. O sistema DMB está no cerne da estratégia de defesa americana atual, mais do que a simples posse de armamento nuclear, que já se mostra como uma realidade incontornável.

Para Washington, não se trata de fazer pouco caso ou provocar Moscou, mas sim uma corrida contra o tempo, antes que o sistema de mísseis balísticos mundial por outros países se desenvolva mais. Não se trata, tampouco, de negar a hegemonia americana no setor, mesmo sobre a Rússia, mas que este país não faz parte da área de influência e alianças a ser defendida pelos EUA. Trata-se de um possível competidor e, portanto, ainda um potencial inimigo. Aos planos americanos, não se trata apenas de ter a primazia tecnológica, mas de como aplicá-la. Neste sentido, o estabelecimento de uma rede de DMBs se faz fundamental. A partir destas, os sistemas propostos pelos EUA incluem três estágios quando utilizados: alvejar as plantas de mísseis ou suas áreas próximas; alvejar os mísseis em seu percurso; e contra-atacar com sistemas anti-mísseis.

As bases de DBM na Polônia e no Alaska formam uma rede que pretende anular a origem de seus principais inimigos no momento, Irã e Coréia do Norte. A primeira com uma base de radar na República Tcheca para detectar ataques provenientes do Irã e a segunda do leste asiático, com mísseis americanos voando sobre o Pólo Norte fora do espaço russo. No primeiro caso, os mísseis americanos teriam que viajar sobre a Europa Central, região que os EUA mantêm acordos para, novamente, evitar a Rússia. Por isto, a influência sobre sua periferia é fundamental para Washington. Diferentemente do período em que o MAD servia para evitar uma futura guerra, o sistema de DMB está sendo visto como a preparação para uma futura guerra.

Não são apenas Polônia e República Tcheca que pretendem lucrar com este esquema. Vários países têm respondido calorosamente (ou até "se convidado") a participar dos planos de Washington e permanecer sob seu guarda-chuva defensivo. Facilidades como crédito econômico pesam, obviamente, além do eterno temor dos russos pela Europa Central. Por sua vez, a Europa Ocidental na periferia mais distante da Rússia tem se sentido excluída, lêia-se desprotegida. O Reino Unido pleiteia sua inclusão no sistema e a Alemanha também sugere que o sistema DMB seja incorporado à OTAN.


(Continua...)



Traduzido e adaptado de: Ballistic Missile Defense: New Scenarios

3 comments:

Augusto said...

Vai começar tudo de novo. Que tal a idéia do Mccain, da Rússia fora do G-8? Entrando o Brasil (jogada esperta do mister John, presumo)e um outro que não me lembro.

a.h said...

Eu não acho que dê para levar o que os políticos em campanha dizem à sério. O que um membro de um clube restrito ganha incorporando mais gente? Populares ao seu clubinho privativo e poderoso? E chutar o vizinho forte e poderoso que pode armar para cima de ti? Nem pensar. Mesmo querendo, os americanos não podem ignorar a Rússsia.

Em um primeiro momento pensei que McCain quisesse agradar algo como o eleitor latino. Mas, não faz sentido, dado que a participação brasileira é muito pequena. Acho que a idéia tenha menos a ver com o Brasil do que com a Rússia: prometendo chutar Putin e seus asseclas do G-8, McCain agrada e atrai um eleitorado relutante, a ala ultra-conservadora, os mais radicais dos Republicanos, que ainda não engolem um candidato (a la Bush) que quer aumentar impostos e legalizar cerca de 20.000.000 de imigrantes.

Quanto a Guerra Fria, não sei se um dia ela parou, de fato...

Augusto said...

Boa análise. Agradeço a resposta.Um abraço.

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