interceptor

Novas mensagens, análises etc. irão se concentrar a partir de agora em interceptor.
O presente blog, Geografia Conservadora servirá mais como arquivo e registro de rascunhos.
a.h

Sunday, August 10, 2008

Caos no Cáucaso - 4


O recado russo*



Qual é a mensagem russa?

Com a fragmentação soviética, as forças militares russas passaram a ser tratadas como de 3ª categoria e os governos de Putin tentaram mostrar ao mundo que quem pensasse assim estava redondamente equivocado.

No episódio em curso na Ossétia do Sul está a prova. Em uma demonstração de habilidade do ataque aéreo, as forças russas se fixaram no ponto estratégico do túnel de Roki que conecta a região à vizinha russa Ossétia do Norte. Em menos de 12 horas, quando as forças georgianas ensaiaram uma reação, uma coluna de blindados e artilharia russa surgiu no lado sul do túnel em direção à capital, Tskhinvali. Os veículos contavam com logística apropriada para sua manutenção com unidades do 58º exército e a 19ª divisão motorizada nos subúrbios da cidade. Prontos para uma guerra urbana de longa duração. A coordenação das forças terrestres com o poder de fogo dos helicópteros Mi-24 na retaguarda sustentou o bombardeio noite adentro. Os russos removeram os recursos georgianos baseados no porto de Poti onde se localizava sua marinha e a base aérea de Marneuli. Os combatentes georgianos de Su-25, que poderiam ter alguma reação foram eliminados do jogo. Na água, a frota russa do Mar Negro integrada pela Moskva de 11.000 toneladas obstruiu a possibilidade de qualquer apoio. Um cerco definitivo.

No assalto, rápido, bruto e eficaz, a Rússia provou que emergiu fortalecida e ampliada como potência do cenário dos anos 90. Desde o colapso soviético, não havia tal imposição a sua periferia como se viu.

Do Báltico à Ásia Central, passando pela Ucrânia se fará, no mínimo, uma reconsideração estratégica do que significa ter fronteiras com a Rússia.

* Adaptado de Russia: The Military Message of South Ossetia.

Saturday, August 09, 2008

Caos no Cáucaso - 3

No mapa ao lado figuram duas regiões separatistas da Geórgia. A Abkhazia, onde os russos financiaram guerrilheiros chechenos como 'pacificadores' e a Ossétia do Sul, enclave russo desde os tempos de (sempre ele...) Stálin.




A questão está relacionada ao petróleo do Cáspio, cujo duto, se bem sucedido disponibilizará uma alternativa de combustíveis fósseis à Europa colocando uma pá de cal sobre o tacão do Kremlin. Obviamente sua construção do Azerbaidjão à Turquia tem financiamento americano.



Friday, August 08, 2008

Europa onde?

Após chegar aos 730 milhões de habitantes, o continente europeu apresenta uma curva descendente com declínio estimado em 2 milhões por ano. No atual rumo, em 2050, a Europa diminuirá em 10% e, mundialmente, passará de 11% para 7%.

Alguns países, principalmente na porção ocidental e rica registrarão acréscimo, mas devido à imigração e os (relativamente) mais pobres, na Europa Oriental, declínio, pois é justamente daí que parte uma substancial porção deste influxo migratório.

Com exceção da rural Albânia, todas nações européias têm baixos índices de fecundidade, de um até dois filhos por mulher, que corresponde meramente a taxa de reposição populacional. E o quadro não parece mudar nem com a ajuda governamental (licenças paternidade e maternidade, creches etc). Com o aumento da expectativa de vida – a população européia é a mais velha do mundo – se projeta um declínio de 20% da populaçao ativa entre 25 e 49 anos para 2050. Mais imigrantes pelas bordas, óbvio. E eles são, majoritariamente, muçulmanos. Bem vindos à “Eurábia”. Países como a Rússia vêem a questão como ameaça a sua “sobrevivencia nacional”.

Portanto, não faz o menor sentido Lula dizer que há “preconceito contra o imigrante”.

Conferir:

Caos no Cáucaso - 2

Tropas russas invadem a Geórgia para tentar conter avanço sobre a região da Ossétia do Sul; líder rebelde fala em mais de mil mortos
Das agências internacionais


Tanques russos entram em região rebelde da Geórgia
Entenda o conflito envolvendo Rússia e Geórgia na Ossétia do Sul
Entenda as tensões entre Rússia e Geórgia
Da BBC Brasil


Georgia: Update on South Ossetia
South Ossetia: Chechens Ready for Deployment
Georgia, Russia: Hostilities Erupt in South Ossetia
South Ossetia: How Firm Will Russia's Message Be?
Close-Up of the Caucasus
Russia: Moscow's Four Options in South Ossetia
Red Alert Intelligence Guidance: The Conflict in South Ossetia
South Ossetia: Moving Russian Forces In
Georgia: Russia Bombs Vaziani Base
Da Stratfor

Tuesday, August 05, 2008

Como pensa o brasileiro


Esta canalização de córrego no sul do município de Florianópolis foi construída sem licitação alguma. E funciona muito bem. Hoje, "evoluímos", pois são necessárias diversas etapas antes de, voluntariamente, construir algo do tipo: estudos de impacto ambiental, relatórios, estudos de impacto de vizinhança, licitações etc. A diferença é que além de demorar muito, alguns dos instrumentos urbanísticos ou etapas administrativas não ocorrem e as crianças ficam brincando na beira de algum riacho fétido que serve de esgoto à céu aberto. Entre o passado sem planejamento e o atual planejamento sem execução temos alguns quilos de papéis com projetos de lei, aprovações, decretos e emendas. Como se tudo isto bastasse...
Foto: Anselmo Heidrich

Claro que este título tem o claro intuito de chamar atenção para leitura do texto. Ninguém que trate seriamente do tema – cultura política – se contentará com uma generalização assim, tão grosseira. Outros ainda dirão que deve ser levada em conta características regionais e locais, não se dando conta que o simplismo se mantém. O princípio da generalização nacional é o mesmo para a generalização regional ou local com mera mudança de escala.

Minha provocação vai no sentido de confrontar outras generalizações, piores, que teimam em dividir o mundo, dentre outras formas, em “direita” e “esquerda”. Veja bem, acho perfeitamente plausível que se divida assim em determinados contextos ou até mesmo, a título de didática, num tom coloquial em que os interlocutores sabem do que e de quem estão falando. Mas, tal dicotomia não resolve nem proporciona elementos de análise quando a questão tem temas comuns: o desenvolvimento social, urbano e ambiental. Todos, “direitistas” ou “esquerdistas” se dizem ser a favor destas premissas e o problema não pode prescindir da avaliação técnica em nome de uma ou outra cosmovisão em filosofia política.

Três casos ilustram o que tenho em mente.

Vivo em um bairro periférico em Florianópolis, com taxa de crescimento demográfico que figura entre as maiores do município. E a cidade passa por um processo de formação de seu plano diretor que, após a promulgação do Estatuto da Cidade – Lei nº 10.257/2001 – tem a premissa da “participação popular” como item obrigatório (artigos 43, 44 e 45 da referida lei). Acho desnecessário entrar em pormenores sobre como se processa a dita “participação”, na qual o típico aparelhamento político-ideológico feito nestes fóruns não é exceção à regra.[1]

Meu bairro está sobre um aqüífero que conta com um delicado ecossistema exigindo um particular tratamento no desenvolvimento urbano. E o plano diretor precisa orientá-lo buscando compatibilizar a preservação tanto quanto possível com regulamentações que permitam o crescimento do bairro e outros bairros vizinhos de modo que não engessem a economia local. Como a maioria das pessoas não tem noção clara do que entende por “meio ambiente” ou “economia”, o normal é que se produzam orientações díspares, não raro conflitantes entre si. Isto sem falar que os planos diretores anteriores (o último data de 1997), recentes mesmo, não são cumpridos a risca por deficiência na fiscalização. Quando não é devido à corrupção, se dá por peculiaridades administrativas do setor público, nas quais o funcionário não atua de modo ostensivo ou sua administração saca a eterna desculpa de “falta de pessoal”. Como a coisa é feita para não funcionar, o desenvolvimento do jeito que é segue como um impávido colosso de arruamentos caóticos.

Dias atrás conversava com uma equipe de profissionais da área como arquitetos, urbanistas e geógrafos e demais interessados como professores, jornalistas e profissionais liberais. Eles, em sua associação civil, deliberaram que determinada região do distrito em análise tinha que manter certas características rurais (no que concordo) para permitir a infiltração das águas pluviais que realimentam o lençol freático. O lote mínimo requerido para essas áreas seria de 1.000 m2 (no que não concordo). Embora, eu more num assim, o problema é que a maioria não. E não creiam que daqui para frente será tudo diferente que não será não. Não funciona assim, a gente escreve o bonito e o ideal, vai para a Câmara aprovar e se der certo vira lei com todos acatando a nova normativa. Contemporizei que seria melhor adotarmos uma perspectiva realista de acordo com o maior adensamento populacional que ocorre, mas com princípios a serem adotados ao alcance de todos, como arborização e ajardinamento em percentual tal que permitisse a percolação da drenagem nos solos e calçamento correspondente que não o asfalto. Com exceção desta, a primeira sugestão fora terminantemente rejeitada, pois segundo meus colegas era melhor criar uma lei dura para que todos a temessem, criando assim um fator de dissuasão do urbanismo predatório. Insisti dizendo que não funciona e se vamos ajudar na elaboração de leis, que estas não tornem o plano, um mero instrumento figurativo e natimorto. Melhor partir das condições existentes (nem citei mercado para não ser objetado a priori) para ter maior chance de sucesso. Não adiantou.

Todo mês chegam novos moradores que se alojam em terrenos abaixo do mínimo estipulado em loteamentos irregulares que não são sequer de conhecimento do poder público. Mas, cujos fiscais da prefeitura podem levar alguma vantagem para fazer vistas grossas... É assim que funciona porque nosso pensamento é de bacharel. Basta criar algo escrito que o mundo irá ler e se adaptar. Quando perguntei à urbanista sobre os flagrantes casos que não se adaptam e o fato do plano diretor, caso passasse a normativa, me respondeu “daí aplica um TAC”, ou seja, um Termo de Compromisso de Ajustamento de Conduta, que endosse medidas reparadoras ou mitigatórias. Mas, se elas vão ou não funcionar, é outra questão...

Alguns dias depois assisti a uma exposição sobre a criação de uma Unidade de Conservação, na qual se diferencia de uma Área de Preservação Permanente porque não cabe só ao estado sua administração e manutenção. Esta pode contar com a ajuda e co-participação de agências financiadoras, inclusive estrangeiras. Faz o que o estado não faz e... Dá dinheiro. Perguntei a moça que explicava como seria o que tinham em mente, qual a participação do banco alemão KfW, cujo logo aparecia sutilmente no canto do slide? “Só na pesquisa...” Fiquei com coceirinha na língua para saber valores, mas deixei para outra ocasião quando eu já tiver uma informação para contestar, caso a resposta não me satisfaça.[2] A verdade vem por vias indiretas... Dizia ela que há um número de moradores em situação de subsistência que vive em regime de posse no parque praticando atividades ilegais como a caça e a pecuária. Mas, que o faziam porque não tinham alternativas. Ainda reforçou que nas imediações não havia condomínios ou loteamentos, que quando ocorressem trariam um adensamento com as conseqüências e depredação que conhecemos. Objetei que se pensava em criar tais alternativas, elas poderiam se dar graças a estes loteamentos que demandariam serviços fazendo com que as práticas tradicionais fossem gradativamente abandonadas, em favor de uma nascente economia local de serviços. Senti-me um terráqueo pedindo a alienígenas que me levassem a seu líder. O idioma era outro. Sua solução imaginária se dava na pura e simples implantação de um novo conjunto de normativas legais e transferência de recursos estatais para manutenção de “neo-párias territoriais” que um dia sonharam ser cidadãos. Isto era o melhor que conseguiam criar, uma “bolsa-lote”, uma paródia de reforma agrária em zona urbana, só isto e nada mais. Sua perspectiva do que seja socialmente aceitável era de reassentamentos para posseiros e desapropriações, caso tivessem algum registro imóvel. Apesar da retórica politicamente correta previam o conflito. Ainda considerei que com o plano diretor, vários instrumentos de melhorias urbanas poderiam ser adotados propiciando assentamento adequado ao tipo de ambiente e, mais importante, mantendo os antigos moradores em suas casas. Silêncio foi o que recebi como resposta e passamos para outra pauta.

O que “salva” o Brasil de um socialismo autoritário com uma cúpula dirigente e despótica é o crescente socialismo na esfera legal. Por outro lado, como também existe uma descentralização da condução destas demandas, muitas delas se contradizem ou ainda se anulam. No entanto, uma das características socialistas efetivamente se impõe, pois é exclusiva do estado: a criação de novos impostos.

Hoje mesmo falava com um amigo, microempresário bem sucedido e representante do plano diretor em bairro vizinho que considerava certas questões sobre a inexistência de áreas públicas que valorizassem os bairros, a desarticulação na criação de loteamentos e condomínios, a inexistência do repasse municipal do orçamento do PAC para obras de saneamento. Que os empresários e poder público estavam matando a galinha dos ovos de ouro do turismo ao não se articularem em prol do desenvolvimento de uma infra-estrutura sanitária, ao mesmo tempo em que vendiam nacionalmente a imagem da cidade como paraíso etc. Boas análises que esbarraram num muro intelectual. Sua proposta de solução não era a mediação desses setores e uma reengenharia do estado por si só, ele queria mais, queria a criação de um novo imposto para sanar os problemas sociais e ambientais. Veja bem, um jovem empresário... Um novo imposto.

Desnecessário dizer aqui tudo o que disse a ele... Mas, uma coisa sim: já temos todos estes impostos direcionados para isto e aquilo que explicitou. O que falta sim é gerência e uma coisa é básica, a obrigatoriedade na aplicação de leis já existentes que se perdem no manancial de tantas outras desnecessárias. Tudo esbarra no estado. Por estas e outras é que não levo a sério liberais que só enfocam suas análises no mercado sem propor uma reforma (local, para começar) da administração pública. Como se o papel e a caneta fossem sagrados, nós brasileiros pensamos que mais leis e impostos resolverão algo enquanto que isto tudo já existe. Como psicanalistas da política deveríamos pensar no que nossos homens públicos não dizem.




[1] Conferir: http://www.ilhacap.com.br/edicao_abril07/especial__pdp.html

[2] Não partilho da visão conspiratória de que toda e qualquer ong estrangeira atuante em território nacional signifique um atentado contra a soberania nacional. Há que diferenciar o joio do trigo. O que contesto, evidentemente, são as condições em que operam e, sobretudo, o papel de seus representantes e parceiros nacionais quando não apresentam declarações sobre o fomento e movimentações financeiras. Em uma palavra: transparência.

Sardenberg está meio certo


Sardenberg, novamente: em Algo saiu muito errado, o jornalista comenta o significado da guinada da diplomacia brasileira, inicialmente apoiada num bloco “Sul-Sul” de países emergentes para depois, se alinhar com EUA, U.E., dentre outros. O que deve ter sido, em grande medida, devido aos encontros e negociações entre Bush e Lula sobre os biocombustíveis.

O jornalista faz uma pergunta retórica sobre qual linha adotada na política externa brasileira seria a correta, uma vez que claramente endossa a atual. Se a do grupo Sul-Sul quando o Brasil protestava contra os subsídios e tarifas adotadas pelos grandes mercados consumidores ou agora, quando adota uma postura liberal querendo abarcar mercados chinês e indiano:


“Resumindo, a diplomacia Sul-Sul não passava de uma bobagem. O mundo econômico não se divide entre pobres (incluindo emergentes) e ricos. Quando se trata de abrir mercados agrícolas da China e da Índia, o Brasil, com seu agronegócio moderno e exportador, está ao lado de EUA e Austrália, por exemplo. Quando se trata de derrubar tarifas e subsídios de americanos e europeus, o Brasil está ao lado da Austrália, de novo, e da Argentina, por exemplo.”


Acima, Sardenberg resume muito bem o que penso sobre o assunto: a tomada de posição não obedece a princípios ideológicos, se trata de estratégia comercial. Para qualquer um mais afeito ao assunto, o que digo é estupidamente óbvio. Mas, o que é certo nem sempre é seguido por uma trilha reta. Como diz, acordos parciais como o da Alca não atraíram a delegação brasileira que preferiu apostar em seu papel de “líder dos emergentes” em negociações pretéritas da OMC em Doha. Agora que os países emergentes como a Índia foram os principais responsáveis pelo retrocesso, ao procurar proteger seus setores agrícolas mais atrasados, o Brasil se viu do outro lado. O que restou, foram os acordos parciais mesmo. E, acho que um acordo geral só sairá futuramente quando a soma dos pequenos acordos o justificar.

Até aí nada a objetar. Concordo com o texto. O problema é que a certa altura conclui Sardenberg que:

"Será que a retórica diplomática era só para fins políticos internos? Só para
se mostrar de esquerda?

Certamente teve esse função, mas durante algum tempo pelo menos o governo acreditou nela. Tanto que causou estragos reais. (...)

De todo modo, a diplomacia brasileira tem que começar de novo, e começar por jogar fora a retórica pobres x ricos. Ao contrário do que sugeriu o presidente Lula, o acordo global, de abertura do comércio, que interessa muitíssimo ao Brasil, fracassou não por causa dos ricos, mas, no essencial, por causa da resistência de países emergentes que insistiram em proteger seus setores ineficientes. E que deram um alívio aos ricos e subsidiados agricultores de EUA e Europa, que estavam se julgando traídos pelos seus governos.

O mundo não é simples."


Retórica por retórica, qualquer uma que sirva para atingir seus objetivos serve. Mesmo se for uma fossilizada se esta servir para criticar o protecionismo alheio. Em tempos de globalização, claro que o terceiro-mundismo de Celso Amorim é totalmente anacrônico, mas lembremos que quando os yankees deflagaram a guerra contra os confederados nos EUA, aqueles nortistas travestiram seus interesses de estado contra a ameaça de liberalização comercial do sul – que propunha substituir os manufaturados do norte pelos britânicos, melhores à época – como uma questão de “unidade nacional”. O motivo da Guerra de Secessão não foi somente este, que foi um dos ingredientes de peso.

A contragosto, se a retórica Sul-Sul do Itamaraty surtisse algum efeito positivo contra os subsídios e taxas alfandegárias dos países ricos, detesto admitir, valeria a pena. Algo como um “político bipolar” usando um discurso socialista para atingir resultados liberais, anti-socialistas. Não deu certo, e tudo que restou foi partir para outra. Assim oscilam as retóricas em torno de uma imutável Razão de Estado.

Hoje a conjuntura é favorável à retórica globalizante, mas isto porque na agropecuária o Brasil é competitivo. Seria a mesma coisa se não fossemos desenvolvidos neste setor?

Minha divergência com Sardenberg reside neste pequeno detalhe: o senso de realismo político que pauta as relações entre estados, obrigados que são a agradar a torcida, jogar para a multidão, obriga-os a discursar como se devessem agradar a todos, mesmo que abarquem anseios por vezes conflitantes.

Se for verdade admitir que o mundo é complexo, normas tácitas por vezes se revestem como discursos populistas.

Monday, August 04, 2008

Sardenberg está errado



Em primeiro lugar, me apetecem os artigos de Carlos Sardenberg, bem como sua aposta no livre-comércio como propulsor do desenvolvimento. Nada a objetar neste quesito e outros como sua crítica aos subsídios.[1]

Minha crítica ao seu artigo Qual é o nosso lado?, focaliza no pressuposto sobre fenômenos não econômicos, mas políticos, notadamente o terrorismo global. Diz o comentarista econômico que:

“A Rodada Doha foi lançada em novembro de 2001, na capital do Catar, apenas dois meses depois do ataque terrorista que havia derrubado as torres de Nova York. A reunião ministerial da Organização Mundial do Comércio estava marcada antes do atentado - mas parecia que nem ia se iniciar. Não havia clima para negociações cujo objetivo seria facilitar o comércio internacional e, pois, a globalização.”

“O ataque acabou influenciando na outra direção. Tornou-se amplamente aceita a tese segundo a qual quanto mais crescimento, emprego e renda houvesse nos países emergentes e pobres, menor seria o espaço para o terrorismo. E ainda: quanto mais integrados os países estivessem no comércio global, também menor seria a tentação terrorista, vista como uma
espécie de desespero diante da exclusão.”

“(...) o terrorismo quase se dissipou, não era a ameaça global que parecia ser
(grifos meus).

É comum vermos liberais criticarem marxistas devido aos seus argumentos econômicos ou pseudo-econômicos, mas minha crítica a ambos se refere ao seu reducionismo econômico. Como entender o terrorismo como um mero reflexo de desigualdades econômicas? É como se os países que mantêm as melhores taxas de resolução no combate ao crime se bastassem com políticas meramente preventivas, como se psicopatas assassinos somente precisassem de “instruções sobre civilidade”.[2]

Robert Kaplan em Warrior Politics, analisa isto de modo realista, como é sua marca. Se o século XX foi marcado por regimes totalitários como o nazista, fascista e comunista, o mesmo não se dá no século atual. Porém, os mesmos movimentos populistas que tiveram a luta de classes como combustível estão a todo vapor na era da globalização. Eles não são conseqüência desta, mas se baseiam na mesma, em sites conclamando seus apoiadores a mais atos terroristas; com operações de compras de armas; instruções de fabricação de artefatos bélicos etc.

No início dos anos 90, na Índia, nacionalistas hindus atacam mesquitas,[3] na China dos movimentos separatistas tibetano e uigur, nos ataques às igrejas na Indonésia, nos ataques de assalto na Malásia por terroristas filipinos, nas bombas covardes que dilaceram turistas australianos em Bali, nos repetidos mísseis de fundamentalistas islâmicos contra Israel, ataques curdos na Turquia etc, várias forças emergentes calcadas no nacionalismo xenófobo dão as caras no mundo dos microprocessadores, dos investimentos globais e da informação em “tempo real”.

Crer que a informação trazida pela liberalização comercial seja por si só suficiente para “ilustrar” mentes doentias é o mesmo que manter a fé na recuperação de um Champinha lendo Dostoievski. As tensões advindas do choque cultural são menos guiadas por um fosso imaginário entre classes do que padrões culturais que se avizinham nas próprias urbes. Enquanto que a humanidade se transforma cada vez mais em uma sociedade urbana, a desestruturação das sociedades rurais-tradicionais traz como subproduto massas descontentes, que são o combustível de movimentos messiânicos e oportunistas.

[1] Passagem deveras interessante é a observação sobre os principais responsáveis pela lei agrícola do Congresso americano que assegura US$ 48 bilhões para os subsídios agrícolas como obra dos Democratas que detém maioria na casa. O presidente Bush, acertadamente, vetou a lei propondo limitar os subsídios para os agricultores que auferem até US$ 200 mil anuais. Um de seus maiores entusiastas é Barack Obama e John McCain um opositor.

[2] A Desigualdade Não é Causa e a Reintegração Não é Opção - I e A desigualdade não é causa e a reintegração não é opção - final.

[3] Recentemente, o terrorismo islâmico reage no país: Governo indiano pede calma, após série de atentados.

Saturday, July 26, 2008

Isto que eu chamo de não ter o que fazer

282 - A Cheese Map of Canada - http://strangemaps.wordpress.com/


E eu que pensei que não tenho o que fazer...

O sujeito fez um mapa de queijo do Canadá!

Wednesday, July 23, 2008

China e Rússia – 1



A geografia desmente a aliança sino-russa*




Em China e Rússia criam uma anti-Otan, Gilberto Scofield Jr. (em junho de 2006) comentava a criação de um bloco de ajuda mútua econômica na Ásia, a Organização de Cooperação de Xangai (SCO, na sigla em inglês), cujos membros além de China e Rússia abarcariam vizinhos: Irã, Paquistão, Índia e ex-satélites soviéticos: Casaquistão, Quirguistão, Mongólia, Tadjiquistão e Uzbequistão, bem como possivelmente a Arábia Saudita.

Hu Jintao, presidente chinês, vaticinava diplomaticamente seus objetivos como assegurar a paz e a prosperidade econômica regional. O teor explicitamente antiocidental (antiamericano e antieuropeu) da organização ficou a cargo do presidente iraniano, Mahmoud Ahmadinejad definir:



“Podemos transformar a SCO numa instituição forte e de influência econômica e política tanto em nível regional quanto internacional. E desafiar a ameaça das potências dominantes de usar a força contra outros países ou interferir em seus assuntos.”


Deste blefador já se esperava isto... Vladimir Putin, então presidente russo, é quem tinha o argumento de peso:


“A SCO pode ser um forte jogador global. Temos 3 bilhões de pessoas e isso faz diferença - disse Putin, que pregou a união dos países contra ‘ameaças desconhecidas’(Grifos meus).

Zhang Deguang, secretário-executivo, chinês que representa quem realmente manda na organização obviamente assumiu o tom conciliatório ao afirmar que a SCO "nunca procurou o confronto com nenhum bloco". E nem precisa...

Mas, entre os sintomas imediatos como seus membros pedirem a retirada de tropas americanas de seus territórios e a China e a Rússia fazerem exercícios militares conjuntos, o que mais a organização pode oferecer em termos de eficácia e resolutividade?

Da retórica de um mundo multipolar, com a suspeita de uma aliança de potências crescentes a desafiar o império americano – China e Rússia, a primeira com suas taxas de crescimento cavalares e a segunda com seu papel assegurado no fornecimento de matérias-primas, a realidade beligerante entre os dois países continentais é muito diferente.

Em termos econômicos, não há muito sentido em se falar em união entre China e Rússia. O anecúmeno entre Moscou e Pequim requer uma infra-estrutura de bilhões que não existe para fomentar um comércio mútuo, cujos resultados já são atingidos com maior satisfação a partir dos acordos já existentes entre parceiros chineses – o extremo oriente e o ocidente – e russos – a Europa. Isto sem falar que entre as duas capitais, a distância é maior que entre Londres e Washington.

Tudo é uma questão de custo/benefício, como não poderia deixar de ser. Se o comércio siberiano fosse algo mais valioso que o convencional, o brutal investimento em infra-estrutura poderia se justificar. Mas, se há algo que distingue esta “nova era” de tempos pretéritos é que não há mais como manter subsídios sem retorno viável e factível. Se um dia as especiarias e a seda foram suficientes para justifica-los, hoje os objetivos militares têm que mostrar sua fatura.

Há também uma grande assimetria que joga contra a Rússia. A leste dos Urais, o país é relativamente desprotegido se considerarmos sua população, enquanto que a China tem uma gigantesca massa humana na Manchúria na proporção de 15 para 1 contra os russos no extremo oriente. Só o que falta para Pequim é vontade de ocupar a região, o que não ocorre porque o país permanece voltado para si mesmo, seu interior e suas próprias questões.

Se para a Rússia, a vulnerabilidade está na posição – ter que lutar entre duas frentes possivelmente aliadas, China e Otan – para a China, trata-se de uma questão quantitativa e tecnológica: em termos militares/nucleares, a Rússia está muito à frente.

Geograficamente, no entanto, é difícil para a Rússia aproveitar seus recursos com menores custos, como seria o transporte hidroviário. Seus rios, diferentemente da América do Norte não se interconectam e há extensas costas bloqueadas pelos gelos. Sua melhor alternativa reside num remoto Mar de Murmansk, inócuo para o caso de assegurar uma hegemonia siberiana. O leste dos Urais guarda certa similaridade com a realidade africana: demasiado rico em recursos minerais, mas vasto, incomunicável e pobre em infra-estrutura.

Se para os russos, o comércio marítimo é uma necessidade premente, para os chineses, ele é “natural”, com sua população concentrada num litoral de águas tépidas, livre de obstáculos naturais. Analogamente ao comércio e a economia, a Rússia também não tem a primazia militar no meio integrador dos oceanos. Cabe aos EUA o domínio sobre os oceanos com 11 porta-aviões prontos para qualquer ação na região. O poder russo não é naval, nunca foi, mas americano o que lhe confere enorme desvantagem. E se a China quiser manter seu PIB de US$ 14 trilhões em mesmo ritmo de crescimento deve se pautar pela orientação civil e neutra nestas questões. Pequim, simplesmente, não irá matar sua galinha dos ovos de ouro por uma tresloucada aventura geopolítica.

Mesmo o coringa na manga dos russos que consistia em amarrar o fornecimento de gás das repúblicas da Ásia Central para a Europa – que no período soviético serviam ao norte do país – já não é mais o mesmo: estão arriscados a perde-lo. O interesse das ex-repúblicas soviéticas na SCO está nesta intermediação, que o Kremlin usa para obter concessões políticas dos europeus.

A China, por sua vez, tem seus próprios problemas. Com o crescimento econômico, movimentos de descentralização política são fomentados por suas províncias periféricas. Contra eles, duas linhas de dissuasão são adotadas por Pequim: diluindo a diversidade étnica com programas de migração da etnia Han (majoritária) e com o aporte de infra-estrutura (especialmente, ferrovias) no Tibet e Sinkiang. Aí reside um dos poucos pontos em que Pequim pode amenizar sua vulnerabilidade energética frente ao domínio logístico americano, na proximidade das reservas de gás da Ásia Central. Para tanto, seu domínio sobre as regiões tem que continuar num crescendo com a instalação de estradas, trilhos e tubulações. Isto, inevitavelmente, traz problemas a Moscou, cujo monopólio na rede de infra-estrutura (e a vantagem que detém sobre o consumidor europeu) se vê agora ameaçado.

A aliança entre China e Rússia tem na disputa pelos recursos da Ásia Central um nó górdio. E quem está mais próximo de desata-lo é a China para fazer diferença entre séculos de esquecimento da região pela Mãe Rússia.


* Fonte: ZEIHAN, Peter. “China and Russia’s Geographic Divide.” In: www.Stratfor.com. July 22, 2008.

Sunday, July 20, 2008

Amorim e o nazismo

"Os bons diplomatas guardam o talento de saber tudo o que
lhes diz um rosto calado, e até o contrário."
Machado de Assis
O truque petista de desqualificar o adversário chamando-o de "reacionário", "elitista" e agora, mais chulo ainda, de "nazista" parece que não funciona lá fora...
"Amorim disse a repórteres no sábado que a "desinformação" sobre as conversas na OMC o fizeram lembrar dos comentários do chefe de propaganda da Alemanha nazista, Joseph Goebbels, que dizia que uma mentira contada muitas vezes acaba sendo aceita como verdade.
Um porta-voz de Susan Schwab, chefe de comércio dos Estados Unidos, disse que Washington desaprova a fala de Amorim. 'Estamos todos aqui para negociar de forma efetiva e esse tipo de comentário maldoso não tem lugar nessas negociações', disse Sean Spicer no domingo."
Amorim busca minimizar comentário sobre nazista na OMC, http://www.estadao.com.br/

Obama e o Afeganistão

Quem achou que a mudança de administração no governo americano seria igualmente uma significativa mudança em sua política externa?


"O provável candidato democrata à Presidência dos Estados Unidos, Barack Obama, disse hoje que é necessário enviar mais tropas americanas ao Afeganistão para intensificar a luta contra a Al Qaeda e os talibãs."
Obama diz que Afeganistão precisa de mais tropas americanas, http://g1.globo.com/

Saturday, July 19, 2008

Comprando o Irã

Creio que o nacionalista e xenófobo Ahmadinejad não cairá nesta. Mas, tudo vai depender da composição de forças interna ao Irã. Isto é, quando o presidente iraniano será derrubado.


"Os membros do Conselho de Segurança da ONU (Estados Unidos, Rússia, China, França e Reino Unido) e a Alemanha apresentaram uma proposta de cooperação econômica e política para que o Irã aceitasse encerrar o seu programa nuclear. Segundo a BBC, o pacote inclui uma série de medidas para ajudar o Irã a desenvolver um programa nuclear civil."

Friday, July 11, 2008

Radar tcheco






O temor da Europa Oriental pela Rússia, uma Rússia em ressurreição, diga-se de passagem... Parte de certo consenso centro-europeu. Sua disseminação conta, atualmente, com a vontade explícita do presidente polonês e do governo lituano.

Washington tranqüiliza Moscou ao dizer que não tem nada a temer com a instalação de um escudo antimíssil na República Tcheca pela Otan, como se fosse apenas um conjunto de medidas defensivas contra o Irã. Mas, se os russos se irritam não é de graça. Obviamente que sua reação – militar e, não meramente diplomática – poderá implicar em um deslocamento de forças convencionais para Kaliningrado e Bielo-Rússia.

A incógnita é se uma futura administração de Obama perpetuará a política Bush (como fará a de McCain) ou se curvará ao tom grosso da voz do Kremlin.


Cf.: NATO Expansion - National Views

Wednesday, July 09, 2008

A Casa de Fenrir: A bússola de Kubrick*


O menor teste político do mundo

Marcus Mayer

Globalismo: questões

Anônimo disse...

Algumas perguntas devem ser feitas aos Doutores, Cientistas ou Filósofos.

1) Qual o nivel de "riqueza" necessário para que todos os habitantes do planeta
convivam em paz.

Não precisa nem ser um valor fixo, pode-se imaginar um +ou-
assim tipo "desvio padrão"?

2) Qual seria o limite de viventes conhecida a capacidade de produção da "casa", o planeta?

3) Qual seria o sistema administrativo dessa "patuléia" para que a paz fosse reinante para sempre?

4) Como seriam escolhidos esses administradores?







Caro anônimo,

Não sou doutor nem filósofo, mas vou responder.

1. Com todo o respeito, trazes uma falsa questão neste primeiro item. O nível de riqueza interfere pouco nos movimentos geopolíticos que levam aos conflitos. A riqueza e o capital constituem um “poder pegajoso”, do qual diversas potências lançaram mão ao longo da história. Mas, que nem por isto deixaram de se ver as voltas com ataques ou necessidade de defesa. Este foi o caso do mundo pós-acordo de Bretton-Woods (com a substituição do padrão ouro pelo dólar) que, por cerca de 30 anos levou a um crescimento econômico geral insofismável. Neste contexto, basta vermos como foi o mundo no pós-guerra e a miríade de guerras em países africanos, dentre outros. Ou, mais próximo, na própria América Latina. A questão é como tais recursos e lucros foram devidamente utilizados. Sua má utilização (e distribuição pelo mercado concentrado) é que é geradora de conflitos. Ou seja, a raiz é política, mais que econômica. Analogamente, os vínculos econômicos da Alemanha com o monopólio marítimo da Inglaterra não impediram aquela de ir à guerra. Ou mesmo, a dependência americana para com a mesma Inglaterra nos anos que antecederam sua independência. Havia, inclusive, lobby americano contrário à guerra, uma vez que já detinha uma situação bastante confortável. E, atualmente, mesmo com todo o dinheiro derivado das exportações do ouro negro, o que mais há na superfície do solo do Oriente Médio são ódio e fundamentalismos.
2. Creio que não há limites. Desde a Conferência de Estocolmo em 1972, na qual foram lançadas as bases da “ecologia política” que se fala em “limites” que nunca chegam, pois a população mundial continua crescendo, assim como seu nível de consumo. O que temos que lidar, sem dúvida, são impactos ambientais, ou seja, externalidades negativas, mas que me parecem plenamente contornáveis conforme avança a tecnologia. O que faz falta às sociedades para deliberar em como usá-la são instituições democráticas firmemente assentadas no solo da sociedade e seu estado de direito. Tradição e cultura dizem mais do que a economia quando se trata de deliberar sobre como aproveitar estes recursos. Sem elas, os impulsos demográficos levam, inexoravelmente, a uma situação hobbesiana de guerra de todos contra todos.
3. Creio ter indicado que sistema seria este no item anterior. A democracia, em que pesem seus defeitos e vícios regionais, ainda é o melhor sistema. Mormente, detalhes técnicos precisam ser assegurados, como a transparência social, especialmente a institucional sobre a oferta e funcionalidade dos serviços públicos. Só isto já faria um bem enorme.
4. Não sei, mas acho que a escolha não é tão fundamental como a opção de poder retirá-los quando nos for conveniente. O sistema público teria algo a aprender com os mecanismos da economia de mercado. No caso, a estabilidade do servidor público teria que ser abolida, bem como forçar uma revisão criteriosa sobre a legislação trabalhista.

Tuesday, July 08, 2008

Globalismo - 1

Globalismo, o que diabos é isto?*






Dias atrás assistia a um seminário sobre o movimento internacional de ongs destinado a atacar de forma virulenta a soberania nacional, as bases econômicas liberais e nossa tradição cultural e religiosa. Era unânime entre os expositores a acusação de que a ONU é o principal organismo internacional com interesses escusos nesta empreitada de significado histórico. Ao final, no debate, um aluno colocou uma questão que, para mim, resumiu toda a fragilidade da tese globalista, do domínio e hegemonia mundial sob auspícios da ONU. Vou puxar de memória:




Meus professores de cursinho eram todos esquerdistas, principalmente os de geografia e história e, eles diziam a mesma coisa de vocês, só que ao invés de afirmar que havia uma conspiração mundial “de esquerda”, ela era “de direita”.
Quer dizer... Que ao invés de dominar o mundo com ações da ONU, a ONU era submissa aos interesses dos países ricos e suas corporações mundiais. No fundo era o mesmo argumento de vocês, só que com conclusões opostas. Em vez de trazer o socialismo, elas estariam garantindo o capitalismo e monopólio mundial.
Agora, eu fiquei na dúvida, quem é que tem razão?





Estes são dos bons... Sempre gostei de alunos que me desafiavam. Para mim, um round se passara e a próxima aula seria uma demonstração de que eu estaria certo e, para tanto, tinha que me preparar. Mas, lá viria novamente o mesmo insistente e teimoso aluno com novas e novas considerações que me deixariam atônito. Boas aulas contêm dúvidas e motivação para o próximo capítulo. Mesmo quando eu tinha uma resposta ensaiada, sua inconsistência me atormentava durante anos e, lá me via, tempos depois concordando com o querelante.

Agora, eu vou bancar o aluno chato.

Por trás das ações coordenadas em nível mundial e sua declarada agenda de boas intenções, em uma conspiração a portas abertas (!) estaria a ONU e suas várias agências apoiando constelações hierarquicamente descendentes de ongs. Seu objetivo: reduzir a soberania nacional, especialmente dos EUA, na medida inversa em que finca os pilares de um “governo mundial” no coração de territórios outrora separados por nítidas e irretorquíveis fronteiras.

Em tese, isto estaria ocorrendo sem que percebêssemos o real perigo da situação, encantados que estamos pelo canto da sereia de uma sociedade justa e igualitária. Porém, se observarmos como as coisas realmente funcionam, a teoria do “globalismo” mais parece um boneco de palha. Como o globalismo é visto como um processo em pleno curso, outros exercícios de futurologia podem ser aventados para confrontar sua suposta eficácia. Permita-me utilizar do mesmo recurso de seus teóricos, a “arte do chute”...


Cenários possíveis

O Conselho de Segurança (CS) da ONU pode sofrer modificações nos próximos anos. A UE poderá substituir a França e o Reino Unido, caso sua constituição européia venha a ser consolidada. Um outro equilíbrio de forças se avizinha no horizonte histórico com os já garantidos assentos à China, EUA e Rússia. África do Sul, Brasil, Índia e Japão também são candidatos viáveis a membros permanentes do CS.

As alianças militares poderão ser ampliadas, como ocorre atualmente com a Otan rumo ao leste europeu. A Rússia, através de sua Comunidade dos Estados Independentes, CEI (não tão independentes assim) poderá reincorporar a Bielorrússia. Como contrapeso ao tacão russo, as ex-repúblicas soviéticas da Ásia Central (do Cazaquistão ao Afeganistão) procurariam reforçar alguma aliança. Outra interessante aliança que funciona como filial americana neste rimland continental é a do Sudeste Asiático que vai do Paquistão à Oceania, sobretudo, Austrália e Nova Zelândia. Tradicionais aliados americanos para conter a expansão russa ao sul. Esta, na verdade, uma reedição do que já ocorrera na Guerra Fria. Outros problemas às forças ocidentais se formarão com a evolução da Liga Árabe (não “tão árabe”, caso venha abarcar o Irã), o que levaria a concentração dos maiores esforços ocidentais, sobretudo americanos, mais do que os da Otan. E só a manutenção da estabilidade do Iraque e acordos com o Irã já serão suficientes para manter o Pentágono ocupado, seja McCain ou Obama o novo presidente. Uma Otan, por sua vez, já estará suficientemente ocupada com as investidas do “urso russo” na Europa Oriental e suas ameaças de embargo de combustíveis à Europa Ocidental. Ameaças apenas, pois se a Rússia detém o precioso recurso, os ocidentais são clientes indispensáveis. O que, em outras palavras, pode significar um relativo isolamento de Washington. A Organização da Unidade Africana (OUA) continuará uma mera quimera, cujo continente tem sido o maior celeiro de guerras civis no globo. Falar em “globalismo”, no sentido de uma ordem global centralmente conduzida e bem sucedida, neste cenário é coisa para quem abusa da liberdade de imaginação... No continente americano teremos a união indelével entre Canadá e EUA, mas com o “acorde dissonante” do México oscilando entre a atração econômica do norte e seu atrasado sul (Chiapas, p.ex.). Bem como a reserva de mão de obra na fronteira norte, contígua ao sudoeste americano. E a América Central continuará sendo assediada por Washington. A “sala de treino” em stand-by permanece na América do Sul, com um Brasil periclitante nas relações externas, mas com a consciência de possíveis sanções americanas contra “estados-pária” da Argentina, Bolívia e Venezuela a sinalizar as políticas do Planalto Central. A China permaneceria, contida em si mesma, um universo à parte que ainda terá que se definir melhor neste cenário global do ponto de vista político.

É fácil imaginar uma teoria contrária e nada inverossímil. Se tais considerações parecem gratuitas, qual a base empírica das assertivas que afirmam o contrário de modo igualmente voluntarista?


Demandas globais

Se a ONU é um organismo tão ruim que visa prejudicar os povos diminuindo sua capacidade de autodeterminação, porque tantos governos a apóiam? Se a pedra de toque do “globalismo” não se sustenta sozinha, algo não faz sentido. Mas, ainda assim vejamos como esta organização tem asseverado seus “tentáculos hegemônicos” sobre o globo.

Seis países sul-americanos, três centro-americanos, dois norte-americanos, dez países asiáticos, a Rússia, a U.E. e outros europeus não-membros, 17 africanos apóiam a organização, financeira, logística e militarmente. Chega a ser hilário pensar que é de “cima para baixo” que ocorre a influência. É justamente o contrário que se dá. Talvez seja na própria miríade de estados que tentam alcançar uma coordenação e organicidade, a razão da maior inoperância da ONU. Muito chefe pra pouco índio...

Nos anos 90 tivemos 16 ações com tropas da ONU para intervir nos casos de desastres naturais. Como sabemos, não são “tropas independentes”, mas mantidas através de contribuições dos países que a sustentam. Onde está o “globalismo”? Trata-se de uma ação calculada que busca otimizar ações ao redor do mundo, inclusive por estados concorrentes em influência e hegemonia global.

No mesmo período, se contarmos as intervenções para conter atividades guerrilheiras e/ou terroristas foram 21, ou seja, superando com vantagem os danos causados por forças naturais. Isto, antes de 2001, o que significa que esta discrepância tende a aumentar, com maior número de esforços conjuntos para deter este estado de anarquia. Bem que podíamos ter um pouquinho de “globalismo”... Digo, ordem.

Também tivemos 14 operações das tropas no período no papel de “forças de paz” ou ocupação, termo muito mais direto e sincero, como é do meu gosto. Se pensarmos no conjunto, as ações militares contabilizam mais que o dobro às destinadas a amenizar os efeitos das forças naturais.

Não há logística mundial suficiente para sustentar estratégias que levem a um domínio coeso de um pequeno grupo sobre bilhões. Nem sinergia de “metacapitalistas” (capitalistas que devido ao seu poder e monopólio estariam criando um mundo sob o escrutínio de sua “engenharia social” por intermédio da ONU) contra os interesses de dezenas de países e centenas de elites oligárquicas e suas burocracias. Desconsiderar isto significa comprar o mesmo erro marxista de ignorar o estado e suas ramificações internas como dotadas de interesses e vontade próprias. Dentre os inúmeros erros dos marxistas, este contribuiu sobremaneira para sepultar seus intentos revolucionários de acordo com a teoria marxiana, mundo afora perante a perenidade (e necessidade) dos estamentos burocráticos. Analogamente, a suposição de um conluio ONU-metacapitalismo trabalha com um “marxismo de sinal invertido” ao tomar os sintomas de funcionamento de um mercado imperfeito, como objetivos expressos de uma política global e as políticas de contenção de conflitos como expressão de ganho e sustentação das corporações quando, justamente, as próprias mega-empresas é que são ameaçadas em cenários nacionais conturbados por guerrilhas e insurgências várias. O marxismo aí reside na visão de uma “necessidade” e porvir que se implantarão de um jeito ou de outro, uma fé no “destino histórico” desejado pelos marxistas, amaldiçoado pelos teóricos do globalismo, mas que não passa de uma mesma fé social-evolucionista. Uma fé otimista ou pessimista não deixa de ser uma fé que não se põe à prova.

A idéia de que um movimento globalista seja a “face do mal” da globalização se encontra amplamente disseminada, não só entre a dita esquerda, mas cada vez mais por uma auto-proclamada direita que, de liberal, não tem quase nada. Tais “direitistas” podem até defender o liberalismo, mas não usam métodos de análise desenvolvidos por liberais. Na medida em que temem o avanço do capitalismo mundial e, equivocadamente, concluem que este decorre de um arranjo previsto e pré-determinado, o caos e anarquia política são vendidos como uma contraproducente planificação.

Se para evitar os malefícios da ONU, dos quais não duvido que existam, tenhamos que acabar com a própria instituição e suas ações de contenção da barbárie, se para sanar imperfeições de mercado tenhamos que acabar com o próprio mercado, o imaginário super-estado global terá que ceder lugar a estados nacionais cada vez mais repressivos. A título de conter o avanço de forças destruidoras de nossas sociedades, não duvido que seu remédio possa ser mais amargo que a doença levando o enfermo a própria morte.




Fontes:

1. Ian Pearson, Atlas of the Future, New York: Macmillan, 1998.
2. International Institute for Strategic Studies (IISS), The Military Balance 1996-97, London: IISS, 1997.
3. Stockholm International Peace Research Institute (SIPRI), Yearbook, New York and Oxford: Oxford University Press, various dates.

* Versão original deste artigo: Globalismo?

Saturday, July 05, 2008

Obesidade, relevo e benefícios estatais

Em The South Shall Snack Again há um mapa da obesidade nos EUA:






O Colorado tem muita montanha, não? Deve ser por isto que seu povo não é tão gordo. Já o Mississipi, uma baita planície que não demanda muito esforço.

Seria bom que as explicações se limitassem a isto, mas acho que tem muito mais. Não tenho dados, mas suponho que tenha algo a ver também com algum grau de welfare state mais presente nos estados do Sul. Além de alguns hábitos culturais específicos, é claro.

Friday, July 04, 2008

Chorumela nacionalista no 4 de Julho

Em The Loss of Independence, Patrick J. Buchanan se parece muito muito com líderes terceiro-mundistas e caudilhos populistas latino-americanos (apud Vargas, Perón, Chávez e Morales), para os quais o livre-comércio e a mútua dependência comercial são uma forma de "dependência total".
Como se fosse possível (e desejável) em época de Globalização se tornar independente e auto-suficiente economicamente. Ele esquece que mesmo os EUA não são um estado, mas estados e que o comércio interno gera, necessariamente, uma dependência mútua.
Se os EUA são assim, internamente (e aposto que está aí uma das razões de seu sucesso), como querer que não induzam o mesmo para o mundo inteiro? A "dependência" não é unilateral, ela é uma "via de mão dupla". Ou seja, não ocorreria se não fosse benéfica para outros países, outras economias. Buchanan lamenta e diz que não há mais independência a comemorar. Ora, a dependência mútua criada economicamente é fruto da independência, autonomia e vontade dos cidadãos americanos na sua grossa maioria ao internacionalizarem suas economias. Seja a Coca-Cola, Hollywood, commodities várias, capitais nas bolsas de valores e tudo o mais... Não há "vítimas" de uma "Nova Ordem", mas conflitos que se produzem e reproduzem a partir de um jogo de interesses.
Normal e eterno.

Saturday, June 21, 2008

Bote ou blefe?

Instalação nuclear iraniana de Natanz.




Análise feita pelo NYT, citando oficiais anónimos dos EUA, relatou no dia 20 de junho passado que Israel conduziu exercício militar como um ensaio posições nucleares iranianas. Mais de 100 aviões de combate israelitas de F-16I e de F-15I participaram nas manobras sobre o mediterrâneo oriental e Grécia na primeira semana de junho. O exercício atingiu cerca de 900 milhas - aproximadamente a mesma distância entre a fábrica de enriquecimento de urânio de Israel e de Irã em Natanz. Um oficial anônimo do Pentágono disse que um objetivo dos vôos da prática era emitir uma mensagem de que o estado judaico esta preparado para atuar militarmente se os esforços diplomáticos não pararam o programa de enriquecimento de urânio de Teerã.

Um país que esteja planejando um ataque de verdade, não o fará assim... Tão publicamente. Estes exercícios e os relatórios subseqüentes estão projetados para amedrontar os iranianos. Teerã sabe que estas são operações psicológicas.

Porém, não convém cutucar onça com vara curta...

Friday, June 20, 2008

Conexão Caracas-Teerã


“A guerra de guerrilhas já é parte da história”, “a guerrilha está fora de lugar”, “e os senhores das Farc devem saber uma coisa: que se converteram em uma desculpa do império (os Estados Unidos) para ameaçar a todos nós”, disse o caudilho Hugo Chávez recentemente. “No dia em que houver paz na Colômbia acabou a desculpa do império...” ainda asseverou.

Não é de estranhar esta mudança repentina na retórica do presidente venezuelano?

Um detalhe importante escapou nas declarações: ao comentar sobre o atual presidente americano, George W. Bush disse que “ficará ainda mais perigoso”.

Nada é de graça.

Em 17 de junho passado, o Departamento do Tesouro americano acusou Ghazi Nasr al-Din, um diplomata venezuelano e presidente de um centro islâmico xiita baseado em Caracas, de fornecer ajuda econômica ao Hezbollah. Outra acusação feita pelos EUA recai sobre duas agências de viagem venezuelanas sob controle de Fawzi Kanan e outros dois venezuelanos.

As acusações sobre as ligações Chávez-Hezbollah não são novas, mas agora existe seu aproveitamento em cima do enfraquecimento do caudilho: inflação em alta, desabastecimento de alimentos, queda da popularidade etc. Segundo Patricia Poleo, repórter venezuelana sediada nos EUA, não só o Hezbollah e al-Qaeda, mas outros movimentos árabes têm cinco acampamentos na Venezuela de onde podem lançar ataques contra os EUA.

Este tipo de informação é suficiente para ativar o Dispositivo Automático de Entrada (D.A.E.) que permite o ataque externo com direito à invasão. A corrupção endêmica no país latino-americano alia-se a presença do narcotráfico, fatores suficientes para ameaçar a segurança interna dos EUA. Desde que Chávez assumiu o poder no país, ele tem sido a principal porta de entrada para imigrantes ilegais do Oriente. E a estreita relação de Caracas com Teerã torna esta situação não só possível como bastante provável.

Mas, nem tudo que é prometido pelos governos é viável. O anúncio da criação de um banco comum, por exemplo, não tem passado da mera retórica. Não apenas falta dinheiro a ambos, como tecnologia e, sobretudo, a articulação de mercado para seu lançamento.

Os dois países se resumem as exportações de petróleo, o que indica quão pouco tem a trocar. Exceto, por um passe relaxado da imigração e campos de treinamento na selva venezuelana que interessa aos iranianos. Da parte de Chávez, como existe ainda o risco de alguma oposição das forças armadas ao seu governo, a formação de milícias que ofertariam apoio na hora necessária tem grande importância. Aí reside o interesse maior para Chávez, maior ainda que ameaçar os EUA é deter meios de se manter no poder, caso queiram chutá-lo para fora.

Imigração vs. Petróleo


O bufão venezuelano blefa.

Contra as novas leis anti-imigratórias recentemente adotadas pela U.E. – retenção de ilegais por até 18 meses e imposição de um período de até 5 anos para sua reentrada –, Hugo Chávez ameaça cortar investimentos europeus na “pátria bolivariana” e suas exportações de petróleo ao continente.
Pura balela!

Somente 1,7% do petróleo importado pela U.E. correspondem ao venezuelano e, na outra ponta, só 5,6% das exportações venezuelanas vão para a união. Só que diferentemente dos líderes europeus, Chávez não pode dispensar um centavo dos proventos que destina aos seus programas sociais populistas.

O caudilho já tentou o mesmo contra os EUA, por pura retórica claro, pois este país importa muitíssimo mais... Só que o petróleo bruto venezuelano é tão pesado e ácido que não é fácil encontrar quem o compre. Somente aqueles que detêm tecnologia para refiná-lo.

Portanto, Chávez só faz propaganda nacionalista. Não tem este poder que arrota.

Saturday, June 14, 2008

A paz que vem do subsolo

Oil
and Trouble


by Bill
O'Reilly

A paz que vem do subsolo





A Conferencia Inter-religiosa na Arábia Saudita, dia 4 mostrou quão dividido é o mundo islâmico atual. Acusações dos xiitas do Irã e Hezbollah contra os sunitas de “fingirem hostilidade aos EUA” estão entre algumas de suas manifestações. Pois, há que considerar que a rivalidade entre sunitas e xiitas força os primeiros a um alinhamento com os EUA – através da possibilidade de defesa militar mesmo – contra a centralização e força dos segundos no governo iraniano. Internamente, os lideres religiosos sunitas na Arábia Saudita consideram a al-Qaeda uma ameaça nem tanto por razoes teológicas, mas pelo “internacionalismo” do agrupamento religioso que põe em cheque a estabilidade regional dessas lideranças. No meio disto tudo, o dinheiro saudita é o meio de comprar a união religiosa entre os conservadores sunitas, o que faz com que se reduza sua oposição ao “ecumenismo islâmico” de Riyadh. Um complicador adicional reside no Irã que não tem se beneficiado da alta do petróleo como os sauditas restando aos aiatolás o reforço ao financiamento de atividades xiitas no Líbano e da insuflação do Hezbollah.

Se há temor de uma guerra também há o desejo de que a situação favorável do petróleo dure com os US$ 130,00 por barril. Os sauditas sabem que isto não é permanente, só não sabem por quanto tempo ficarão lucrando assim. Se a situação de tensão com o Irã parece insustentável para manter tamanha lucratividade, as tensões têm que ser urgentemente afastadas, nem que seja com uma retórica diplomática religiosa unionista.

O aparente paradoxo dos sauditas reside na manutenção de seu alinhamento defensivo com os EUA ao mesmo tempo em que promovem uma união islâmica. A política saudita parece, portanto, ambígua. Internamente, buscam acalmar os ânimos conservadores antixiitas e contrários ao líder religioso Rafsanjani do Irã e, externamente, apóiam os grupos opositores do Hezbollah. Enquanto o Irã não desafiar os interesses de Riyadh com os lucros do petróleo, o que levaria a acionar o “gatilho yankee”, pode se deixar o país dos aiatolás em “banho-maria”.

Entre os planos de pacificação da região estão o envio de recursos à Síria e ao Líbano. Juntamente, com a Turquia, a Arábia Saudita busca uma estabilidade regional. Os sauditas também encorajam acordos entre israelenses e palestinos – o que pode, indiretamente, favorecer Damasco –, assim como há suspeitas de que estejam exercendo pressão sobre o Hamas. Não há nenhum interesse saudita no desequilíbrio e instabilidade entre Síria e Hezbollah com Israel.

Mas, sua estratégia pacificadora não reside apenas na manutenção de forças estabelecidas: cabe evitar ou eliminar que outras surjam... Os sauditas não querem ver o aumento de poder xiita no Iraque e marginalização dos sunitas no país. Assim como também não é bem vindo, o aumento da hegemonia da al-Qaeda entre os iraquianos. A partir de 2003 com exceção da região curda, o Iraque perdeu muito dinheiro devido à redução da exploração petrolífera e neste ponto é que entra a influencia e apoio saudita. Este súbito interesse pacificador saudita para assegurar a estabilidade regional implica em um reposicionamento em relação à política externa americana, o controle dos seus conservadores religiosos sunitas e uma relação de dissuasão com os xiitas iranianos.

Neste contexto de “diálogo inter-religioso”, cujos interesses por certo não são teológicos, é que tem que se entender a visita do presidente egípcio, Hosni Mubarak a Arábia Saudita na semana que passou. E não é de hoje que o Hamas tem no Sinai uma base de operações logísticas para ataques a Israel... Recentemente, dois egípcios, dois palestinos e um beduíno foram presos por carregarem artefatos militares pelo deserto e, após ser encontrado um esconderijo de mísseis terra-ar no Sinai, Mubarak sinalizou com seu interesse nos acordos de paz entre israelenses e palestinos. Cabe a ele evitar que o radicalismo do Hamas não se estenda ao Egito e permaneça retido na Faixa de Gaza. Com certeza, egípcios e sauditas têm muito a discutir.

Não se trata de um novo alvorecer no Oriente Médio, mas se as negociações de paz através do dialogo inter-religioso não tem suficiente poder, o óleo sim. Se uma paz duradoura e desejável não é possível, ao menos uma maior estabilidade pode durar tanto quanto verter o dinheiro do subsolo.

Friday, June 13, 2008

Leprechauns e paranóicos



Parece que não só os leprechauns têm exagerado no uísque e na Guiness, os teóricos da conspiração devem ter esvaziados os canecos antes...



A Irlanda votou ontem plebiscito que decide a aprovação do Tratado de Lisboa sobre as políticas econômicas de Bruxelas, assim como o aborto e a eutanásia.

Meu ponto aqui não é o tratado em si, mas sim as análises que o vêem como uma ameaça à soberania nacional, no caso a irlandesa.

Eu já visitei aquele pequeno país de cabo a rabo e o que mais vi nas estradas depois do asfalto recém colocado foi uma placa padrão que dizia “obra construída com recursos da União Européia”. Só ingênuos para não compreenderem como um país atrasado e pobre, atolado no lodo do tradicionalismo, pôde demonstrar tamanha pujança econômica atual.

Claro que eles fizeram suas reformas econômicas, sem dúvida! Mas, de onde se acha que vieram os recursos que estas reformas visaram atrair?

Só mesmo uma brutal ingenuidade para sustentar a crença de que este tipo de legislação mais liberal e permissiva à atração do capital se configura numa espécie de “autoritarismo europeu”. Só a completa ignorância para desconsiderar que a Irlanda utilizou um expediente de “guerra fiscal” à escala do estado-nação. O que prova que não existe uma submissão que os paranóicos querem enxergar num suposto “governo mundial”.

Se hoje em dia os ganhos econômicos de se integrar à União Européia parecem “arquievidentes”, nem sempre foi assim. À época de sua implantação, o empreendimento europeu era incerto e, só mesmo com a economia em frangalhos para se requerer a constituição de uma organização supranacional em detrimento do velho e seguro porto do nacionalismo. Mas, assim como não se pode levar o bônus sem carregar o ônus, não se pode ver o céu sem morrer...

Porém, acordos subentendem a aceitação de suas partes e, no caso, a U.E. não exerce “autoritarismo” algum, não porque Bruxelas não o deseje, mas simplesmente, porque não dispõe desta força. Querer nunca foi sinônimo de poder... A U.E. é tão “autoritária” que as lideranças dinamarquesas tiveram que fazer dois plebiscitos nos anos 90 porque no primeiro, o Tratado de Maastricht fora rejeitado pelos cidadãos dinamarqueses. A U.E. é tão “autoritária” que os espanhóis riram quando Copenhague quis proibir as touradas ou os bancos europeus quiseram que seus funcionários na Espanha deixassem a sesta e se adequassem ao padrão de seus horários. Evidente que não passaram tais determinações e a Espanha segue como uma das mais bem sucedidas economias européias. Aliás, ouso dizer que foi o país que melhor entendeu e se inseriu na globalização econômica mundial sem abdicar de suas particularidades culturais.

Não é tão simples assim o modus operandi da organização, nem “de cima para baixo” como vaticinam nossos “teóricos do globalismo”.

E arrisco a dizer que se fosse uma condição para sua permanência, acatar esta determinação de Bruxelas, Dublin se submeteria. Afinal, entre a realidade do atual “Tigre Celta” e o que passaram os irlandeses retratados por um “As Filhas de Ryan”, os cidadãos daquele país não devem ter dúvidas em optar pela primeira.

Porém, tal hipótese de um “jogo de soma zero político” sequer se configura. O que me impressiona não é o fato de que paranóicos descartem a realidade para fazer valer suas teorias conspiratórias. O que realmente me impressiona é que mesmo após os casos em que uma determinação de fora é rejeitada, provando que a U.E. não exerce a influência de que é acusada e, muito menos, uma suposta autoridade, mesmo assim se busca a confirmação de “autoritarismo!” Ora, qual autoritarismo se ela não é obedecida? Os dados são esfregados na ara do observador e, mesmo assim, a realidade não só é rejeitada como se tenta encaixa-la em uma hipótese ad hoc. Impressionante!

“Ideologias fast-food”, respostas rápidas e assimiláveis caem bem para aqueles que não têm compromisso com a refutação. Para esses é inadmissível que normas jurídicas do “superestado europeu” possam ser acatadas através de um plebiscito. Os teóricos do globalismo, na verdade, parecem não querer admitir que algo possa ser, democraticamente, aceito e implementado. Talvez, porque a democracia lhes pareça uma inconveniência...

Wednesday, June 04, 2008

Amazônia, bem público vs propriedade privada


Sobre A lição de Jonas para a Amazônia, de Rodrigo Constantino.

A “tragédia dos comuns”, realmente, é uma tendência verificável. Como espécie de regra que é, não precisa ocorrer em 100% dos casos. A exceção quando ocorre, só faz confirmar a própria regra.

Concordo com o Rodrigo que não há problema nenhum em se “lotear” a Amazônia com empresas, especialmente, as de alta tecnologia. Mesmo nos casos que exigem menos desenvolvimento tecnológico, como a preservação da fauna, a privatização é notadamente bem-sucedida. Exemplo conhecido é o jacaré do Pantanal, ameaçado de extinção pelo valor de seu couro e, hoje é abundante. A razão é muito simples, ele tem sido criado em fazendas. Ao invés de caça, virou gado e sobreviveu.[1]

Mas, tem outro lado nesta história. Se a propriedade privada é fundamental para a própria preservação, a preservação em si já prescindiu da existência da propriedade privada. Então, há algo mais a levar em conta... Os ecossistemas são auto-suficientes e, portanto, independentes da existência da própria sociedade. O que diferencia nosso momento histórico daquele que não se aventava uma “destruição da natureza” é que a fronteira entre natureza e sociedade tem se tornado cada vez mais indefinível. Se o estado não é o melhor agente para cuidar do “não-humano”, do natural, isto não significa que uma “propriedade comum”, que um bem público não deva existir, nem que não tenha sentido ou lógica dentro do capitalismo.

Se o próprio meio social por excelência, a cidade, porta ruas, praças que são públicas e beneficiam a propriedade privada, é através delas que se dá a circulação de pessoas, logo de consumidores. Penso que há uma sinergia entre esses dois tipos de propriedade e só a precisa definição (e delimitação) de cada uma é que propicia seu mútuo desenvolvimento. Lembremos também que isto não tem nada a ver com a imprecisão e absorção dos recursos individuais pelo estado, como é típico na realidade brasileira.

Em suma, se a associação entre tipos de propriedades ocorre com o meio social, urbano no caso, porque não deveria ocorrer de modo similar entre propriedade privada e um recurso natural tido como bem público? Por exemplo: se o “subsolo é da união”, isto não deveria impedir ou ameaçar um contrato, concessão feito entre particulares e seu estado. Antes e pelo contrário, este estado deveria zelar pelos contratos mais que tudo. Nossa civilização se funda na idéia de um contrato.

Há porções do meio ambiente, como água, ar, entre outros, que servem a todos, sejam empreendedores ou empregados e é muito difícil definir onde acaba sua “porção” e começa a minha. Mas, podem ser feitos contratos sobre usos apropriados destes recursos, com limitações, isto é, “direitos negativos”. Meu uso da água não pode prejudicar seu uso; ou minha extração de petróleo pode ser tanta, quanto eu puder, desde que eu não o faça em suas terras. Neste exemplo em particular cabe a observação de que se eu extrair mais que algum vizinho, eu também extraio o petróleo sob seu solo. Meu direito, se caso o exercesse dessa maneira, não usurparia o dele, pois meu vizinho hipotético tem a mesma possibilidade.

Mas, apesar de direitos e cercas, o petróleo como um todo que lá está não é exclusividade minha nem de meus vizinhos. A todos nós cabe o mesmo direito de manter um contrato sobre a exploração de um recurso comum. O bem público permanece sendo público como condição de exploração individual, desde que submetido a um contrato sob tutela de uma organização jurídica comum. O que, em minha opinião, é o maior bem público.


[1] Conferir em Qual a vantagem da vaca?, análise similar sobre as vacas e os elefantes.

Um campo de futebol a cada 10 segundos?


É o que diz relatório do INPE sobre o desmatamento na Amazônia, ou mais objetivamente, 17% dos 4 milhões de km2 da floresta em duas décadas.

O governador do Mato Grosso, Blairo Maggi (PR) discorda. Segundo ele, os dados do Inpe se pautam nas observações de satélite que focalizaram seu estado, subestimando os demais da Amazônia. Em abril, por exemplo, o Mato Grosso teve apenas 14% de seu território coberto por nebulosidade, ao passo que o Pará teve apenas 11% com tempo limpo, isto é, passível de ser observado.

Ainda segundo o governador, que se baseia nos dados do Prodes, o desmatamento no Mato Grosso caiu de 11.814 km2 em 2004 para 2.476 no ano passado.

Sunday, June 01, 2008

O que expressa a média geral?


O balanço radioativo, p.ex., permite somente compreender porque as altas latitudes são mais frias que os trópicos e porque o inverno é mais frio que o verão. Com esta "inestimável constatação", as variações de dias ou de anos, bem como as anomalias recorrentes, não são averiguadas. Uma avaliação da temperatura média só se relaciona a uma composição de diversas temperaturas regionais - e são estas que são desconsideradas, como no caso sul-americano, totalmente sem rumo definido ao aquecimento global (ou o contrário). Uma média global não explica a mudança climática, mesmo porque é temerário falar em "clima global". Isto existe?
Se o IPCC de 1996 dizia que as médias regionais poderiam variar imensamente em relação à média global, e que suas flutuações não são compreendidas ainda, isto prova sua incoerência, pois revela que os analistas estipularam uma média global sem antes conhecerem em profundidade as regionais. Curiosa maneira de determinar a média...
Se os modelos utilizados, apenas, permitem observar (algumas) das flutuações de temperatura, como então se pretende determinar a causa geral, do globo inteiro? Como isto é possível sem poder explicar a causa regional de uma destas flutuações? Como se pode faze-lo sem um esquema coerente de circulação atmosférica geral que explique, p.ex., os fenômenos de ciclones ocorridos? Apenas por inferência? Aumenta a temperatura e pronto, temos aí um furacão no Golfo do México, "logo" temos uma "prova" do fenômeno do aquecimento global...
As mudanças climáticas se expressam desigualmente e sem, antes, poder explicá-las, o relatório do IPCC o faz! Isto equivale a colocar o "carro na frente dos bois".

Bush e o Oriente Médio

Is
Bush Becoming Irrelevant?


by
Patrick J. Buchanan