interceptor

Novas mensagens, análises etc. irão se concentrar a partir de agora em interceptor.
O presente blog, Geografia Conservadora servirá mais como arquivo e registro de rascunhos.
a.h

Friday, June 20, 2008

Conexão Caracas-Teerã


“A guerra de guerrilhas já é parte da história”, “a guerrilha está fora de lugar”, “e os senhores das Farc devem saber uma coisa: que se converteram em uma desculpa do império (os Estados Unidos) para ameaçar a todos nós”, disse o caudilho Hugo Chávez recentemente. “No dia em que houver paz na Colômbia acabou a desculpa do império...” ainda asseverou.

Não é de estranhar esta mudança repentina na retórica do presidente venezuelano?

Um detalhe importante escapou nas declarações: ao comentar sobre o atual presidente americano, George W. Bush disse que “ficará ainda mais perigoso”.

Nada é de graça.

Em 17 de junho passado, o Departamento do Tesouro americano acusou Ghazi Nasr al-Din, um diplomata venezuelano e presidente de um centro islâmico xiita baseado em Caracas, de fornecer ajuda econômica ao Hezbollah. Outra acusação feita pelos EUA recai sobre duas agências de viagem venezuelanas sob controle de Fawzi Kanan e outros dois venezuelanos.

As acusações sobre as ligações Chávez-Hezbollah não são novas, mas agora existe seu aproveitamento em cima do enfraquecimento do caudilho: inflação em alta, desabastecimento de alimentos, queda da popularidade etc. Segundo Patricia Poleo, repórter venezuelana sediada nos EUA, não só o Hezbollah e al-Qaeda, mas outros movimentos árabes têm cinco acampamentos na Venezuela de onde podem lançar ataques contra os EUA.

Este tipo de informação é suficiente para ativar o Dispositivo Automático de Entrada (D.A.E.) que permite o ataque externo com direito à invasão. A corrupção endêmica no país latino-americano alia-se a presença do narcotráfico, fatores suficientes para ameaçar a segurança interna dos EUA. Desde que Chávez assumiu o poder no país, ele tem sido a principal porta de entrada para imigrantes ilegais do Oriente. E a estreita relação de Caracas com Teerã torna esta situação não só possível como bastante provável.

Mas, nem tudo que é prometido pelos governos é viável. O anúncio da criação de um banco comum, por exemplo, não tem passado da mera retórica. Não apenas falta dinheiro a ambos, como tecnologia e, sobretudo, a articulação de mercado para seu lançamento.

Os dois países se resumem as exportações de petróleo, o que indica quão pouco tem a trocar. Exceto, por um passe relaxado da imigração e campos de treinamento na selva venezuelana que interessa aos iranianos. Da parte de Chávez, como existe ainda o risco de alguma oposição das forças armadas ao seu governo, a formação de milícias que ofertariam apoio na hora necessária tem grande importância. Aí reside o interesse maior para Chávez, maior ainda que ameaçar os EUA é deter meios de se manter no poder, caso queiram chutá-lo para fora.

Imigração vs. Petróleo


O bufão venezuelano blefa.

Contra as novas leis anti-imigratórias recentemente adotadas pela U.E. – retenção de ilegais por até 18 meses e imposição de um período de até 5 anos para sua reentrada –, Hugo Chávez ameaça cortar investimentos europeus na “pátria bolivariana” e suas exportações de petróleo ao continente.
Pura balela!

Somente 1,7% do petróleo importado pela U.E. correspondem ao venezuelano e, na outra ponta, só 5,6% das exportações venezuelanas vão para a união. Só que diferentemente dos líderes europeus, Chávez não pode dispensar um centavo dos proventos que destina aos seus programas sociais populistas.

O caudilho já tentou o mesmo contra os EUA, por pura retórica claro, pois este país importa muitíssimo mais... Só que o petróleo bruto venezuelano é tão pesado e ácido que não é fácil encontrar quem o compre. Somente aqueles que detêm tecnologia para refiná-lo.

Portanto, Chávez só faz propaganda nacionalista. Não tem este poder que arrota.

Saturday, June 14, 2008

A paz que vem do subsolo

Oil
and Trouble


by Bill
O'Reilly

A paz que vem do subsolo





A Conferencia Inter-religiosa na Arábia Saudita, dia 4 mostrou quão dividido é o mundo islâmico atual. Acusações dos xiitas do Irã e Hezbollah contra os sunitas de “fingirem hostilidade aos EUA” estão entre algumas de suas manifestações. Pois, há que considerar que a rivalidade entre sunitas e xiitas força os primeiros a um alinhamento com os EUA – através da possibilidade de defesa militar mesmo – contra a centralização e força dos segundos no governo iraniano. Internamente, os lideres religiosos sunitas na Arábia Saudita consideram a al-Qaeda uma ameaça nem tanto por razoes teológicas, mas pelo “internacionalismo” do agrupamento religioso que põe em cheque a estabilidade regional dessas lideranças. No meio disto tudo, o dinheiro saudita é o meio de comprar a união religiosa entre os conservadores sunitas, o que faz com que se reduza sua oposição ao “ecumenismo islâmico” de Riyadh. Um complicador adicional reside no Irã que não tem se beneficiado da alta do petróleo como os sauditas restando aos aiatolás o reforço ao financiamento de atividades xiitas no Líbano e da insuflação do Hezbollah.

Se há temor de uma guerra também há o desejo de que a situação favorável do petróleo dure com os US$ 130,00 por barril. Os sauditas sabem que isto não é permanente, só não sabem por quanto tempo ficarão lucrando assim. Se a situação de tensão com o Irã parece insustentável para manter tamanha lucratividade, as tensões têm que ser urgentemente afastadas, nem que seja com uma retórica diplomática religiosa unionista.

O aparente paradoxo dos sauditas reside na manutenção de seu alinhamento defensivo com os EUA ao mesmo tempo em que promovem uma união islâmica. A política saudita parece, portanto, ambígua. Internamente, buscam acalmar os ânimos conservadores antixiitas e contrários ao líder religioso Rafsanjani do Irã e, externamente, apóiam os grupos opositores do Hezbollah. Enquanto o Irã não desafiar os interesses de Riyadh com os lucros do petróleo, o que levaria a acionar o “gatilho yankee”, pode se deixar o país dos aiatolás em “banho-maria”.

Entre os planos de pacificação da região estão o envio de recursos à Síria e ao Líbano. Juntamente, com a Turquia, a Arábia Saudita busca uma estabilidade regional. Os sauditas também encorajam acordos entre israelenses e palestinos – o que pode, indiretamente, favorecer Damasco –, assim como há suspeitas de que estejam exercendo pressão sobre o Hamas. Não há nenhum interesse saudita no desequilíbrio e instabilidade entre Síria e Hezbollah com Israel.

Mas, sua estratégia pacificadora não reside apenas na manutenção de forças estabelecidas: cabe evitar ou eliminar que outras surjam... Os sauditas não querem ver o aumento de poder xiita no Iraque e marginalização dos sunitas no país. Assim como também não é bem vindo, o aumento da hegemonia da al-Qaeda entre os iraquianos. A partir de 2003 com exceção da região curda, o Iraque perdeu muito dinheiro devido à redução da exploração petrolífera e neste ponto é que entra a influencia e apoio saudita. Este súbito interesse pacificador saudita para assegurar a estabilidade regional implica em um reposicionamento em relação à política externa americana, o controle dos seus conservadores religiosos sunitas e uma relação de dissuasão com os xiitas iranianos.

Neste contexto de “diálogo inter-religioso”, cujos interesses por certo não são teológicos, é que tem que se entender a visita do presidente egípcio, Hosni Mubarak a Arábia Saudita na semana que passou. E não é de hoje que o Hamas tem no Sinai uma base de operações logísticas para ataques a Israel... Recentemente, dois egípcios, dois palestinos e um beduíno foram presos por carregarem artefatos militares pelo deserto e, após ser encontrado um esconderijo de mísseis terra-ar no Sinai, Mubarak sinalizou com seu interesse nos acordos de paz entre israelenses e palestinos. Cabe a ele evitar que o radicalismo do Hamas não se estenda ao Egito e permaneça retido na Faixa de Gaza. Com certeza, egípcios e sauditas têm muito a discutir.

Não se trata de um novo alvorecer no Oriente Médio, mas se as negociações de paz através do dialogo inter-religioso não tem suficiente poder, o óleo sim. Se uma paz duradoura e desejável não é possível, ao menos uma maior estabilidade pode durar tanto quanto verter o dinheiro do subsolo.

Friday, June 13, 2008

Leprechauns e paranóicos



Parece que não só os leprechauns têm exagerado no uísque e na Guiness, os teóricos da conspiração devem ter esvaziados os canecos antes...



A Irlanda votou ontem plebiscito que decide a aprovação do Tratado de Lisboa sobre as políticas econômicas de Bruxelas, assim como o aborto e a eutanásia.

Meu ponto aqui não é o tratado em si, mas sim as análises que o vêem como uma ameaça à soberania nacional, no caso a irlandesa.

Eu já visitei aquele pequeno país de cabo a rabo e o que mais vi nas estradas depois do asfalto recém colocado foi uma placa padrão que dizia “obra construída com recursos da União Européia”. Só ingênuos para não compreenderem como um país atrasado e pobre, atolado no lodo do tradicionalismo, pôde demonstrar tamanha pujança econômica atual.

Claro que eles fizeram suas reformas econômicas, sem dúvida! Mas, de onde se acha que vieram os recursos que estas reformas visaram atrair?

Só mesmo uma brutal ingenuidade para sustentar a crença de que este tipo de legislação mais liberal e permissiva à atração do capital se configura numa espécie de “autoritarismo europeu”. Só a completa ignorância para desconsiderar que a Irlanda utilizou um expediente de “guerra fiscal” à escala do estado-nação. O que prova que não existe uma submissão que os paranóicos querem enxergar num suposto “governo mundial”.

Se hoje em dia os ganhos econômicos de se integrar à União Européia parecem “arquievidentes”, nem sempre foi assim. À época de sua implantação, o empreendimento europeu era incerto e, só mesmo com a economia em frangalhos para se requerer a constituição de uma organização supranacional em detrimento do velho e seguro porto do nacionalismo. Mas, assim como não se pode levar o bônus sem carregar o ônus, não se pode ver o céu sem morrer...

Porém, acordos subentendem a aceitação de suas partes e, no caso, a U.E. não exerce “autoritarismo” algum, não porque Bruxelas não o deseje, mas simplesmente, porque não dispõe desta força. Querer nunca foi sinônimo de poder... A U.E. é tão “autoritária” que as lideranças dinamarquesas tiveram que fazer dois plebiscitos nos anos 90 porque no primeiro, o Tratado de Maastricht fora rejeitado pelos cidadãos dinamarqueses. A U.E. é tão “autoritária” que os espanhóis riram quando Copenhague quis proibir as touradas ou os bancos europeus quiseram que seus funcionários na Espanha deixassem a sesta e se adequassem ao padrão de seus horários. Evidente que não passaram tais determinações e a Espanha segue como uma das mais bem sucedidas economias européias. Aliás, ouso dizer que foi o país que melhor entendeu e se inseriu na globalização econômica mundial sem abdicar de suas particularidades culturais.

Não é tão simples assim o modus operandi da organização, nem “de cima para baixo” como vaticinam nossos “teóricos do globalismo”.

E arrisco a dizer que se fosse uma condição para sua permanência, acatar esta determinação de Bruxelas, Dublin se submeteria. Afinal, entre a realidade do atual “Tigre Celta” e o que passaram os irlandeses retratados por um “As Filhas de Ryan”, os cidadãos daquele país não devem ter dúvidas em optar pela primeira.

Porém, tal hipótese de um “jogo de soma zero político” sequer se configura. O que me impressiona não é o fato de que paranóicos descartem a realidade para fazer valer suas teorias conspiratórias. O que realmente me impressiona é que mesmo após os casos em que uma determinação de fora é rejeitada, provando que a U.E. não exerce a influência de que é acusada e, muito menos, uma suposta autoridade, mesmo assim se busca a confirmação de “autoritarismo!” Ora, qual autoritarismo se ela não é obedecida? Os dados são esfregados na ara do observador e, mesmo assim, a realidade não só é rejeitada como se tenta encaixa-la em uma hipótese ad hoc. Impressionante!

“Ideologias fast-food”, respostas rápidas e assimiláveis caem bem para aqueles que não têm compromisso com a refutação. Para esses é inadmissível que normas jurídicas do “superestado europeu” possam ser acatadas através de um plebiscito. Os teóricos do globalismo, na verdade, parecem não querer admitir que algo possa ser, democraticamente, aceito e implementado. Talvez, porque a democracia lhes pareça uma inconveniência...

Wednesday, June 04, 2008

Amazônia, bem público vs propriedade privada


Sobre A lição de Jonas para a Amazônia, de Rodrigo Constantino.

A “tragédia dos comuns”, realmente, é uma tendência verificável. Como espécie de regra que é, não precisa ocorrer em 100% dos casos. A exceção quando ocorre, só faz confirmar a própria regra.

Concordo com o Rodrigo que não há problema nenhum em se “lotear” a Amazônia com empresas, especialmente, as de alta tecnologia. Mesmo nos casos que exigem menos desenvolvimento tecnológico, como a preservação da fauna, a privatização é notadamente bem-sucedida. Exemplo conhecido é o jacaré do Pantanal, ameaçado de extinção pelo valor de seu couro e, hoje é abundante. A razão é muito simples, ele tem sido criado em fazendas. Ao invés de caça, virou gado e sobreviveu.[1]

Mas, tem outro lado nesta história. Se a propriedade privada é fundamental para a própria preservação, a preservação em si já prescindiu da existência da propriedade privada. Então, há algo mais a levar em conta... Os ecossistemas são auto-suficientes e, portanto, independentes da existência da própria sociedade. O que diferencia nosso momento histórico daquele que não se aventava uma “destruição da natureza” é que a fronteira entre natureza e sociedade tem se tornado cada vez mais indefinível. Se o estado não é o melhor agente para cuidar do “não-humano”, do natural, isto não significa que uma “propriedade comum”, que um bem público não deva existir, nem que não tenha sentido ou lógica dentro do capitalismo.

Se o próprio meio social por excelência, a cidade, porta ruas, praças que são públicas e beneficiam a propriedade privada, é através delas que se dá a circulação de pessoas, logo de consumidores. Penso que há uma sinergia entre esses dois tipos de propriedade e só a precisa definição (e delimitação) de cada uma é que propicia seu mútuo desenvolvimento. Lembremos também que isto não tem nada a ver com a imprecisão e absorção dos recursos individuais pelo estado, como é típico na realidade brasileira.

Em suma, se a associação entre tipos de propriedades ocorre com o meio social, urbano no caso, porque não deveria ocorrer de modo similar entre propriedade privada e um recurso natural tido como bem público? Por exemplo: se o “subsolo é da união”, isto não deveria impedir ou ameaçar um contrato, concessão feito entre particulares e seu estado. Antes e pelo contrário, este estado deveria zelar pelos contratos mais que tudo. Nossa civilização se funda na idéia de um contrato.

Há porções do meio ambiente, como água, ar, entre outros, que servem a todos, sejam empreendedores ou empregados e é muito difícil definir onde acaba sua “porção” e começa a minha. Mas, podem ser feitos contratos sobre usos apropriados destes recursos, com limitações, isto é, “direitos negativos”. Meu uso da água não pode prejudicar seu uso; ou minha extração de petróleo pode ser tanta, quanto eu puder, desde que eu não o faça em suas terras. Neste exemplo em particular cabe a observação de que se eu extrair mais que algum vizinho, eu também extraio o petróleo sob seu solo. Meu direito, se caso o exercesse dessa maneira, não usurparia o dele, pois meu vizinho hipotético tem a mesma possibilidade.

Mas, apesar de direitos e cercas, o petróleo como um todo que lá está não é exclusividade minha nem de meus vizinhos. A todos nós cabe o mesmo direito de manter um contrato sobre a exploração de um recurso comum. O bem público permanece sendo público como condição de exploração individual, desde que submetido a um contrato sob tutela de uma organização jurídica comum. O que, em minha opinião, é o maior bem público.


[1] Conferir em Qual a vantagem da vaca?, análise similar sobre as vacas e os elefantes.

Um campo de futebol a cada 10 segundos?


É o que diz relatório do INPE sobre o desmatamento na Amazônia, ou mais objetivamente, 17% dos 4 milhões de km2 da floresta em duas décadas.

O governador do Mato Grosso, Blairo Maggi (PR) discorda. Segundo ele, os dados do Inpe se pautam nas observações de satélite que focalizaram seu estado, subestimando os demais da Amazônia. Em abril, por exemplo, o Mato Grosso teve apenas 14% de seu território coberto por nebulosidade, ao passo que o Pará teve apenas 11% com tempo limpo, isto é, passível de ser observado.

Ainda segundo o governador, que se baseia nos dados do Prodes, o desmatamento no Mato Grosso caiu de 11.814 km2 em 2004 para 2.476 no ano passado.

Sunday, June 01, 2008

O que expressa a média geral?


O balanço radioativo, p.ex., permite somente compreender porque as altas latitudes são mais frias que os trópicos e porque o inverno é mais frio que o verão. Com esta "inestimável constatação", as variações de dias ou de anos, bem como as anomalias recorrentes, não são averiguadas. Uma avaliação da temperatura média só se relaciona a uma composição de diversas temperaturas regionais - e são estas que são desconsideradas, como no caso sul-americano, totalmente sem rumo definido ao aquecimento global (ou o contrário). Uma média global não explica a mudança climática, mesmo porque é temerário falar em "clima global". Isto existe?
Se o IPCC de 1996 dizia que as médias regionais poderiam variar imensamente em relação à média global, e que suas flutuações não são compreendidas ainda, isto prova sua incoerência, pois revela que os analistas estipularam uma média global sem antes conhecerem em profundidade as regionais. Curiosa maneira de determinar a média...
Se os modelos utilizados, apenas, permitem observar (algumas) das flutuações de temperatura, como então se pretende determinar a causa geral, do globo inteiro? Como isto é possível sem poder explicar a causa regional de uma destas flutuações? Como se pode faze-lo sem um esquema coerente de circulação atmosférica geral que explique, p.ex., os fenômenos de ciclones ocorridos? Apenas por inferência? Aumenta a temperatura e pronto, temos aí um furacão no Golfo do México, "logo" temos uma "prova" do fenômeno do aquecimento global...
As mudanças climáticas se expressam desigualmente e sem, antes, poder explicá-las, o relatório do IPCC o faz! Isto equivale a colocar o "carro na frente dos bois".

Bush e o Oriente Médio

Is
Bush Becoming Irrelevant?


by
Patrick J. Buchanan

Tuesday, May 27, 2008

Algumas considerações sobre o Brasil




Nesta época de oportunismos nacionalistas, muito se fala da necessidade do povo brasileiro “reagir” aos interesses estrangeiros na Amazônia. Mas, me refresque a memória, há quantas anda nossa capacidade de reação aos problemas internos, mesmo?

Não precisamos ir tão longe... Basta ver a “reação a dengue” no Rio de Janeiro, mais parece um caso para estudos antropológicos. Em plena epidemia, autoridades fracassam e a população mantêm seus lixões clandestinos contribuindo com sua cota para a disseminação dos mosquitos. Não admitir que a “cidade maravilhosa” esteja sendo acometida por uma peste, com índices 20 vezes maiores do que o tolerável segundo a OMS, é mesmo surreal. Postura muito próxima era adotada por nós em épocas de hiperinflação... Com incrível estabilidade comportamental, ignoramos o caos, tenha raiz econômica, social ou sanitária.

Minha percepção é de que vivemos de algo além da realidade, como se pode observar em nossa eterna mania de perseguição. O Brasil hoje parece uma imensa ilha, cujos pacíficos e tímidos nativos temem feras de além-mar. Somos bugios assustadiços em meio ao dossel que, ao menor sinal de estranhos atiramos-lhes excrementos, fruto talvez de uma mentalidade que tem por foco, estados, classes sociais, grandes entidades coletivas como “agentes históricos” em detrimento dos indivíduos. Se não é uma esquerda fossilizada enxergando multinacionais como sintomas de uma pandemia econômica global, é uma direita alucinada e atormentada por uma suposta onipotência satânica do globalismo através da ONU. Um pior do que o outro, eles se merecem.

Portanto, tenho minhas dúvidas sobre esta recente e súbita tomada de compromisso de uma responsabilidade forjada por uma “reação aos interesses estrangeiros”.

Em um mundo cada vez mais globalizado, os interesses se mostram igualmente mais visíveis, inclusive os de cunho mercantilista. O caso Bombardier vs. Embraer durante o governo FHC foi sintomático. O ex-premiê canadense Jean Chrétien teve a companhia canadense como principal financiadora de sua candidatura, além de ligações familiares com a empresa: seu filho é casado com a filha do ex-presidente da empresa. A época, o caso pegou mal em seu país devido aos subsídios fornecidos à empresa, mas aqui passou como “imperialismo”, Brasil vs. Canadá pela mídia alarmista.

Se uma companhia de aviação já trouxe alarde suficiente, vocês podem imaginar o tamanho do surto de paranóia coletiva deliberado pela “ameaça” ao inestimável patrimônio amazônico. Nossa atenção recai sobre “interesses escusos operando na floresta” ou uma enigmática malversação de recursos naturais. Segundo nosso novo ministro do MMA, Carlos Minc:


“[D]e cada 10 metros cúbicos de madeira extraída da Amazônia, apenas três chegam ao mercado. ‘É preciso modernizar o setor para evitar o desperdício. O setor tem que capacitar profissionais, melhorar as práticas e promover o manejo sustentável da floresta’, listou, ao comentar que conversou hoje sobre o assunto com representantes das indústrias madeireiras.”


Há algo de podre no “reino da floresta...” Se de cada 10 m3 de madeira extraída, apenas três chegam “ao mercado” para onde vão os outros sete? Claro que também chegam ao mercado, mas por vias informais. Ou será que tem tanto contraventor assim construindo decks e pérgolas?

Só aos olhos do burocrata há desperdício. Só para quem não enxerga como necessária a redução da arrecadação de impostos e demais taxas é que “chegam ao mercado” apenas 30% da madeira extraída. Se quiserem mesmo tributar o total de madeira extraída, fariam por bem baixarem as tarifas, pois do contrário, sempre haverá “desperdício”, isto é, desvio puro e simples.

E há os que em sua idiossincrasia, entendem como “desenvolvimento” o subsídio para não fazer nada. Um verdadeiro tributo a Paul Lafargue que advogava seu “direito à preguiça”. Este é o propósito da chamada “bolsa-floresta” que visa garantir sustento àqueles que “preservam a floresta”, ou seja, não a exploram produtivamente. Simplesmente, não faz sentido. “Preservar” significa ficar parado? É como se humanos também não fossem animais... Quer dizer então que outras espécies deveriam deixar seus instintos de lado e requerer algo como uma “bolsa baixo-metabolismo”? Só faz sentido se quisermos induzir o risco de perda moral, porque os que não fazem nada são sustentados pelos que fazem algo. E os que fazem algo estão chegando à floresta cada vez mais devido às oportunidades. Que tal seria incentivar outras práticas através da indução ao mercado com produtos que aproveitem a floresta sem retirá-la do solo?

Quando a esmola é grande, o santo desconfia. Se há tanto interesse assim no MDL – Mecanismo de Desenvolvimento Limpo – sob o escrutínio de Kyoto é porque alguém vai sair ganhando, seja emitindo créditos de carbono, seja comprando matéria-prima barata. O que, diga-se de passagem, não é nenhum crime. Mas, estamos com isto assinando um atestado de total incompetência na exploração substancial e produtiva da Amazônia. Emprego para que, se temos “bolsas”?

A exploração de substâncias amazônicas (insisto neste ponto) se traduz em uma inestimável fonte de recursos. E ela vai continuar ocorrendo, quer queiramos ou não. Através da biopirataria, cuja atividade enquanto não for incentivada dentro do marco legal, há de permanecer e se expandir como a alternativa. Agora, com um MMA engessado por “verdes” que dissociam ecologia de economia, que levam meses para emitir as necessárias, porém morosas, licenças ambientais que tipo de empresa vai querer produzir por aqui? Ainda mais quando quaisquer 100 reais são suficientes para o caboclo “fazer a festa”, depois de coletar o que conhece de cor e salteado, secar as folhas e raízes e enviar via barcaças a algum conhecido-agenciador. E este, por sua vez, a algum contato externo.

Sinceramente. Com nossa congênita “miopia de estamento”, não conseguimos focalizar esta égua passando selada debaixo de nossos narizes. As empresas nacionais ou estrangeiras deveriam ter um tapete vermelho estendido como mimo e convite a produzir em nosso solo e subsolo, com direito a canapés e licores finos. Mas, mesmo assim, com entraves burocráticos que totalizam 152 dias para se abrir uma empresa no Brasil, tenho minhas dúvidas se representamos um investimento atrativo.

Recordo-me de quando a Intel deixou de instalar uma fábrica de microprocessadores no Brasil, porque levávamos nada menos que três dias para conseguir autorização de Brasília às suas exportações. Obviamente, não ficou, preferiu implantar sua subsidiária na Costa Rica onde lhe custava apenas três horas. Burocracia? Imagine! Desde Weber sabemos que burocracia exige alguma racionalidade e isto, simplesmente, não o é. Trata-se de um verdadeiro nó em uma rede de repartições. Em plena era da internet, ainda temos que mandar fax para algum ministério perdido no Planalto Central. Por falta de conceito mais apropriado, só tenho a sensação de que ultraje é o termo exato.

E por falar em racionalidade, não há porque temer invasão ou anexação nenhuma de porções de nosso território, quando nada tem sido mais conveniente do que comprar baratinho, commodities contrabandeadas. Afinal, entre os igarapés e cipós, a selva das repartições e departamentos públicos é muito mais difícil de atravessar.

Geografia Conservadora: Algumas considerações sobre a Amazônia

Amazônia - O
Grande Desafio

Monday, May 26, 2008

Uma bolsa-floresta?

Povos das florestas querem ser remunerados pela sua preservação

Fonte: http://www.kaxi.com.br
02/04/2008
Árvores da Amazônia fazem o bem à toda humanidade
Kaxiana

Os índios, seringueiros, ribeirinhos e outros povos da floresta começaram a cobrar a conta antiga dos mais de 150 milhões de hectares de floresta que se encontram ainda de pé na Amazônia por causa dos cuidados que eles têm com a biodiversidade da região. A cobrança começou nesta semana em Manaus, onde a Aliança dos Povos da Floresta está discutindo, durante um workshop latino-americano sobre mudanças climáticas, mecanismos de compensação pela preservação da grande floresta.
Ou seja, estando conscientes do papel que desempenham ao manter a biodiversidade, os recursos hídricos e o clima, as comunidades florestais, tanto do Brasil quanto dos outros países sul-americanos, querem ser recompensadas pelo importante serviço ambiental que prestam ao mundo.
No encontro de Manaus, que termina nesta sexta-feira, 05/04, 31 delegados, representando povos indígenas e populações tradicionais de dez países latino-americanos (Brasil, Colômbia, Costa Rica, Guiana, Guiana Francesa, Paraguai, Nicarágua, Venezuela, Suriname e Panamá) estão tentando chegar a um consenso para um posicionamento comum em relação aos mecanismos de compensação pela redução de desmatamento. Esses mecanismos deverão integrar as novas regras da Convenção do Clima após 2012.
Além dos representantes latino-americanos, o workshop conta ainda com cerca de 25 observadores, entre eles representantes do Fórum Permanente das Nações Unidas para Questões Indígenas, lideranças de comunidades da Indonésia (Ásia) e República do Congo (África), integrantes dos governos da Bolívia e do Brasil e de organizações não-governamentais da Inglaterra e dos Estados Unidos.
O Grupo de Trabalho Amazônico (GTA), que integra a União dos Povos da Floresta junto com a Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia (Coiab) e o Conselho Nacional dos Seringueiros (CNA), considera ser este o momento certo para discutir os mecanismos de compensação para a preservação da floresta.

(...)
Mais informações em http://livrepensar.wordpress.com/2008/04/07/muito-justo-justissimo/



Bem, o negócio é o seguinte: muito se reclama da injusta interferência externa em nossas terras amazônicas. Pois bem... E esta? Não é outra interferência? Não é outro tipo, nefasto, de interferência?

Além das riquezas minerais no subsolo, do potencial agroecológico, da agricultura convencional (em áreas já abertas ou naquelas de manchas de cerrados ou campinaranas), da imensa “biblioteca genética” que poderia ser aproveitada para a indústria químico-farmacêutica (uma das mais rentáveis do mundo), quer dizer que o modelo para a Amazônia brasileira se resumirá numa espécie de “bolsa-preservação” onde nada poderá ser feito sem consultar fóruns internacionais presididos por organizações não-governamentais?

Israel e Líbano


Fouad Siniora, premiê libanês.






O governo libanês pode até querer, mas não tem nenhum poder para aquiescer uma ascensão do Hezbollah. Existe a teoria que os americanos encorajam o Líbano a colocar o Hezbollah na defensiva. O problema com a teoria é que os fatos a têm contradito. Outra explicação é que por trás da pressão contra o Hezbollah estão as negociatas entre Israel, Síria e Turquia. O problema com esta outra teoria é que isto não aconteceu.

Se, por um lado, os cristãos, drusos e sunitas não apreciam o Hezbollah, gostam muito menos da ingerência síria. O nacionalismo e sentimento antiintervencionista fala mais alto que clivagens religiosas. Para o premiê Fouad Siniora interessa aumentar o custo da intervenção síria em seu país, chamando a atenção de forças sírias anti-israelenses. O objetivo implícito é prejudicar os acordos entre Síria e Israel. Só assim pode-se entender a atual complacência para com o Hezbollah que, além de ser anti-israelense é xiita, para desgosto dos sunitas sírios.

Os sírios podem estar acostumados com as guerras na região, mas uma guerra civil seria novidade para eles. Estrategicamente, o que Siniora quer, é dividir ainda mais os sírios. Naqueles pagos, tornar-se independente e soberano significa enfraquecer o vizinho até sangrar.

Israel atravessa uma crise política, com seu premiê Ehud Olmert sob investigação por aceitar suborno. Sua defesa é que tomou o dinheiro sem dar nada em troca. Estranho... Então não seriam “suborno”, mas doações? O clichê adotado por seus defensores é que tudo não passaria de uma sórdida campanha de seus opositores para desacredita-lo. Argumento bastante convencional que não foca no problema, mas no mensageiro... Já que falamos deles, os mensageiros ainda alegam que esta é a ponta do iceberg do dinheiro proveniente de fora de Israel – de judeus americanos, em primeiro lugar.

A verdade é que Israel passa por uma crise política e não há sucessor viável para Olmert no momento. Neste contexto, provavelmente nenhum plano mais abrangente para os assentamentos surgirá. Aos israelenses compete lidar com o Fatah e a Síria, manobrar seus interesses no Líbano e redefinir suas relações com os EUA. O que, se não necessita de um completo consenso, precisa menos ainda do atual caos político. A conjuntura, definitivamente, não é conveniente, muito menos estratégica para o governo israelense.

Procurar entender a realidade geopolítica regional como um jogo de cartas marcadas, sem penetrar no interior dos movimentos políticos nacionais e regionais não possibilita o correto entendimento da situação. Mais que estados como agentes históricos, existem partidos, seitas, grupos e estes são compostos por indivíduos, cujos interesses podem fortalecer aqueles... Ou, o que não é raro, enfraquece-los.

Algumas considerações sobre a Amazônia



Se não se quer, realmente, perder grandes áreas da biomassa amazônica, um plano de ocupação tem que ser executado. Mas, diferentemente, da época do regime militar, ele precisa contar com maior agregação da sociedade civil, isto é, tem que ser apoiado na idéia da propriedade privada.




Em primeiro lugar, por mais importante que seja o fator de regulação climática da Amazônia (toda floresta o é), esta não exerce a função de "pulmão do mundo". Este é atributo dos oceanos, mais especificamente do fictoplâncton que absorve o gás carbônico da atmosfera levando-o ao fundo do oceano. À noite, a floresta amazônica absorve a mesma quantidade de oxigênio expelido no processo de fotossíntese executado durante o dia.

Se seu valor intrínseco estivesse na hipótese de ser um "pulmão do mundo", uma alternativa seria serra-la, pois as árvores absorvem mais gás carbônico durante a fase de crescimento deixando, em contrapartida, mais oxigênio na atmosfera. Portanto, se há algum "pulmão do mundo", em termos vegetais, ele está nas árvores "florestadas" ou nas "reflorestadas". A saber, as áreas sem este tipo de formação vegetal, nas quais foi artificialmente introduzido e, em áreas recuperadas para este fim.

Até recentemente, ambientalistas e nacionalistas não nutriam grande simpatia mútua no Brasil. Mas, hoje em dia se percebe que têm afinado seus discursos com uma retórica xenófoba comum... Penso que há uma certa confusão quando se fala em Amazônia na sua "manutenção da integridade territorial do país". Uma coisa é advogar a soberania do estado-nação, outra bem diferente (mas, de modo nenhum, oposta) é requisitar o direito de propriedade aos seus cidadãos. Ora, na Amazônia temos o preceito territorial do estado, mas há quantas anda o direito de propriedade garantido pela Constituição da República? Mesmo porque, não há como garantir a segurança da propriedade privada sem sua defesa constitucional. Em outras palavras “não haverá compradores para terrenos cuja posse não seja sequer garantida pelo governo local”. Não confundamos, por favor, o direito de propriedade com as ações sugeridas e incentivadas por uma miríade de ongs que propõe um status diferenciado da propriedade. No caso específico de Raposa Serra do Sol, o direito de propriedade de brasileiros, como bem sabemos, foi flagrantemente usurpado...


Da mesma forma, não vejo problema quando porções de "nossa terra" são vendidas a estrangeiros. Se todos países pensassem assim, a Gerdau teria então que ser chutada dos EUA por que adquiriu a siderúrgica Chaparral? Ao contrário, imigrantes com capital ou imigrantes sem capital, mas com ânimo para trabalhar sempre serão muito bem-vindos. Aliás, isto trouxe benefícios ao Brasil, embora tenham sido apenas cerca de 4 milhões de imigrantes em sua história contra os mais de 40 milhões que aportaram nos EUA. E, como se sabe, estes continuam a chegar àquele país por terra, no deserto, ou por mar, em meio aos tubarões.

O Brasil, entre tantas outras nações, deve muito aos seus imigrantes e a migração de capitais. A questão que vejo é outra: trata-se de se adequar às nossas leis e, quando isto não procede, aí reside o problema, real problema.

Este pavor que muitos dos nacionalistas de ocasião nutrem pelas multinacionais, simplesmente, não faz sentido. Trata-se de uma herança preconceituosa de nossa elite intelectual dos anos 60 que já deveria ter sido extinta. Reitero o que digo: o problema não é a multinacional em si, mas o desrespeito à lei ou abuso de poder, quando da formação de cartéis ou trustes, por exemplo. Aí, o malfeitor é malfeitor independente de ser estrangeiro ou brasileiro.

Usamos madeira e papel continuamente. Se realmente quisermos manter a "floresta em pé" temos que apoiar em outras tantas e abundantes áreas do Brasil, "matas de eucalipto” ou pinus. Só esta espécie de agricultura pode combater o simples extrativismo. Agora, por outro lado, querer manter a floresta intacta é uma utopia que não tem (nem nunca teve) lugar nem lógica no mundo. A floresta tem todos os requisitos para ser uma incomensurável geradora de riquezas ao nosso país. E nem me refiro aos minerais em seu subsolo, mas aos fármacos que são produzidos a partir de compostos orgânicos nela encontrados.

Por que, tal como a China faz com sua gigantesca mão-de-obra, não atrairmos capitais (nacionais e internacionais) para produzir na Amazônia? Entre eles, laboratórios e cobramos o que nos é devido, com o subproduto desejável de empregar gente que, hoje, sem opção está usando uma moto-serra?

Sunday, May 25, 2008

Duas esquerdas



Susan Kaufman Purcell
Diretora do Centro de Política Hemisférica,Universidade de Miami





Já faz algum tempo que os analistas falam de “duas esquerdas” na América Latina. Uma delas está composta de presidentes de tendência social-democrata com condutas democráticas e programas políticos e econômicos que nos lembram os dos países social-democratas europeus. A outra tendência corresponde a caudilhos populistas que, apesar de terem sido eleitos democraticamente, se aproveitaram das regras do jogo democrático para centralizar o poder e a economia em suas mãos. Os atuais governos do Brasil e do Chile são exemplos da primeira tendência e os da Venezuela e da Bolívia, da segunda.

Essa diferença entre as duas esquerdas permitiu à América Latina e aos Estados Unidos deixar para trás a velha noção de que os governos de esquerda são inimigos da democracia e das economias de mercado e, por isso, dos interesses dos Estados Unidos. Entretanto, esse foco nos regimes de esquerda perpetuou o estereotipo da Guerra Fria de que os regimes de direita são antidemocráticos, mais próximos de grupos militares e menos interessados no bem-estar dos pobres.

Por sorte, os atuais governos de direita na América Latina foram eleitos democraticamente, e assim se comportam. Os principais exemplos são México e Colômbia. Tal como nos governos social-democratas da região, suas autoridades estão interessadas em fortalecer a democracia e a economia de mercado, impulsionar o crescimento econômico e reduzir a pobreza em seus países. Em outras palavras, as democracias, de esquerda ou de direita, da região hoje têm mais pontos em comum entre si do que com governos caudilho-populistas.

De fato, os caudilho-populistas são uma ameaça tanto para os governos democráticos de direita como para os de esquerda. A imensa e persistente desigualdade de distribuição de renda na América Latina convenceu muitos latino-americanos de que a democracia e as economias de mercado não lhes trouxeram benefícios. Como resultado, sentem-se atraídos por esses carismáticos caudilhos populistas que prometem mudar o status quo e lhes dar o que necessitam em troca de seu apoio político.

A melhor forma de reduzir as desigualdades de renda é fazer com que o sistema político das democracias seja mais transparente e responsável em relação aos pobres e que sejam implementadas políticas que gerem crescimento econômico. Mas isso é mais fácil de dizer que de fazer. O México é um exemplo. O país necessita aumentar com urgência sua produção de gás e petróleo para cobrir a crescente demanda local e melhorar as receitas com as exportações. Isso demandará investimento estrangeiro na Pemex, a petrolífera estatal do país. Muitos pobres no México se opõem a esse plano em parte devido à percepção equivocada de que investimento externo equivale a privatização, e porque acreditam que as privatizações anteriores não os beneficiaram em nada.

Para obter apoio popular para seu plano de reformas, o presidente Felipe Calderón propôs a criação de “bônus cidadãos”, que permitirão a todos os mexicanos, tanto ricos como pobres, possuir uma parte da Pemex e lucrar se a petrolífera se tornar mais produtiva. Em outras palavras, a reforma proposta permitirá a um maior número de mexicanos, incluindo os pobres, compartilhar os benefícios da reforma econômica.

Outro bom exemplo de integração de setores de baixa renda na democracia e nas economias de mercado são os programas implementados no México e no Brasil que provêem ajuda econômica a famílias pobres sempre que enviem seus filhos à escola e ao médico, entre outras condições. De fato, a consciência de que os problemas dos pobres em países democráticos, com governos de esquerda ou de direita, devem ser resolvidos pode ser o único benefício do surgimento dos caudilhos populistas na região.

Por último, as democracias latino-americanas aprenderam que não basta diagnosticar os problemas e trabalhar com a classe política para resolvê-los. Agora sabem que devem envolver aqueles que se opõem às reformas em discussões políticas e explicar repetidamente a toda a população por que elas são necessárias e como serão benéficas para todos. É um grande avanço para as jovens democracias na região. É preciso garantir que os novos participantes no processo político, do segmento de baixa renda, sintam que podem influenciar e tomar decisões com informações que, de uma vez por todas, protejam e promovam seus interesses.

Friday, May 23, 2008

A fracassada explicação de Jeffrey D. Sachs


Neste ano, os EUA irão gastar em torno de US$ 800 bilhões com segurança, em comparação com menos de US$ 20 bilhões destinados a desenvolvimento econômico.[1] Jeffrey D. Sachs é professor de economia e diretor do Instituto Terra, na Universidade Colúmbia. É também assessor especial do secretário geral da ONU para o programa Metas de Desenvolvimento do Milênio. Artigo publicado pelo “Valor Econômico”:
Muitas das atuais zonas em guerra - como Afeganistão, Etiópia, Irã, Iraque, Paquistão, Somália e Sudão - compartilham problemas básicos na raiz de seus conflitos.
Esses países são, todos, pobres, vítimas de desastres naturais - especialmente enchentes, secas e terremotos - e têm populações em rápido crescimento que estão pressionando a capacidade do solo de alimentá-los. E a proporção de jovens é muito alta, produzindo crescente juventude em idade militar (15 a 24 anos).
Todos esses problemas só podem ser solucionados por desenvolvimento econômico sustentável no longo prazo. Apesar disso, os EUA persistem em reagir aos sintomas, em vez de atacar as raízes subjacentes do problema, e tentam solucionar cada conflito por meios militares. Os EUA apóiam o exército etíope na Somália. Ocupam o Iraque e o Afeganistão. Ameaçam bombardear o Irã. Apóiam a ditadura militar no Paquistão.[2]
Nenhuma dessas ações militares ataca os problemas que originalmente produziram o conflito. Ao contrário, as políticas americanas normalmente inflamam a situação, em vez de trazer soluções.[3]
Repetidas vezes, essa abordagem militar produz reações que voltam para assombrar os americanos. Os EUA apoiaram o xá do Irã enviando enorme quantidade armamentos que caíram nas mãos do governo revolucionário iraniano após 1979.[4]
Os americanos depois apoiaram Saddam Hussein em seu ataque contra o Irã, até que acabaram atacando o próprio Saddam. Os EUA apoiaram Osama bin Laden no Afeganistão contra os soviéticos, e então os americanos terminaram lutando contra bin Laden.[5]
A partir de 2001, os EUA apoiaram Pervez Musharraf no Paquistão com mais de US$ 10 bilhões em ajuda, e agora defronta-se com um regime instável mal capaz de sobreviver.[6]
A política externa americana é assim ineficaz porque foi apropriada pelo establishment militar. Até mesmo a reconstrução do Iraque no pós-guerra sob a ocupação liderada pelos americanos foi administrada pelo Pentágono, e não por agências civis.[7]
O orçamento militar americano domina tudo o que esteja relacionado com política externa. Somando os orçamentos do Pentágono, das guerras no Iraque e no Afeganistão, do Departamento de Segurança Interna, dos programas de armas nucleares e das operações de ajuda militar do Departamento de Estado, neste ano os EUA irão gastar em torno de US$ 800 bilhões com segurança, em comparação com menos de US$ 20 bilhões destinados a desenvolvimento econômico.
Em espantoso artigo sobre a ajuda ao Paquistão durante o governo Bush, Craig Cohen e Derek Chollet demonstraram a desastrosa natureza dessa abordagem militarizada, antes mesmo da mais recente onda de repressão promovida pelo claudicante regime de Musharraf.[8]
Os autores mostram que, apesar de o Paquistão viver enormes problemas de pobreza, populacionais e ambientais, 75% dos US$ 10 bilhões em ajuda americana foram destinados ao militares paquistaneses ostensivamente para reembolsar o Paquistão por sua contribuição para a “guerra ao terror” e para ajudar o país a comprar caças F-16 e outros sistemas de armamentos.
Outros 16% foram diretamente para o orçamento paquistanês, sem quaisquer questionamentos. Com isso, sobraram menos de 10% para assistência ao desenvolvimento e humanitária. A ajuda americana anual ao ensino no Paquistão somou apenas US$ 64 milhões, ou US$ 1,16 por criança em idade escolar.[9]
Os autores apontam que “o rumo estratégico para as relações com o Paquistão foi determinado logo cedo por um estreito círculo no alto escalão do governo Bush e tem se concentrado predominantemente no esforço bélico, em lugar de tomar como alvo a situação interna paquistanesa”. Cohen e Chollet também enfatizam que o “engajamento americano com o Paquistão é extremamente militarizado e centralizado, e muito pouco beneficia a vasta maioria dos paquistaneses”.
Eles citam George Bush como autor da frase: “Quando [Musharraf] me olha nos olhos e diz ‘o Taleban vai desaparecer e não haverá mais al-Qaeda’, você sabe, eu acredito nele?”[10]
Essa abordagem militarizada está empurrando o mundo para uma espiral descendente de violência e conflitos. Cada novo sistema de armamentos que os americanos “vendem” ou dão à região faz crescer os riscos de guerra mais ampla e de novos golpes militares, e aumenta a probabilidade de que as armas venham a ser apontadas para os próprios EUA.[11]
Nada disso ajuda a atacar os problemas subjacentes à pobreza, mortalidade infantil, escassez de água e ausência de fontes de subsistência em regiões como a Província da Fronteira Noroeste, no Paquistão; a região de Darfur, no Sudão; ou na Somália. É cada vez maior a densidade populacional nesses lugares, onde as pessoas sofrem com chuvas insuficientes e pastagens degradadas. Naturalmente, muitos aderem a causas radicais.[12]
O governo Bush não percebe que esses são problemas demográficos e ambientais fundamentais, que US$ 800 bilhões em gastos com segurança não levarão irrigação ao Afeganistão, Paquistão, Sudão e Somália, e que portanto não produzirão paz. Em vez de enxergar pessoas reais em meio à crise, o governo americano vê caricaturas: um terrorista em cada esquina.
Um mundo mais pacífico será possível somente quando os EUA e outros países começarem a ver a realidade através dos olhos de seus supostos inimigos, e perceberem que os atuais conflitos resultado de impotência e desespero, podem ser resolvidos por meio de desenvolvimento econômico em vez de guerras.[13]
Teremos paz quando dermos ouvido às palavras do presidente John F. Kennedy, que disse, poucos meses antes de sua morte, “pois, em última instância, nosso elo básico mais comum é que todos nós habitamos este pequeno planeta. Todos nós respiramos o mesmo ar. Prezamos o futuro de nossos filhos. E somos todos mortais”.[14]
artigo publicado pelo Jornal da Ciência, SBPC, JC e-mail 3397, de 26 de Novembro de 2007
http://blog.ecodebate.com.br/2007/11/27/a-fracassada-militarizacao-dos-eua-por-jeffrey-d-sachs/

[1] Acho artificial a separação categórica entre “gastos em segurança” e “gastos em desenvolvimento econômico”. Se desenvolver a economia implica em gerar empregos, a segurança não estaria também neste rol de atividades? E, se por “segurança” implica em garantir reservas estratégicas de recursos minerais, como o petróleo, os gastos em segurança não garantem o desenvolvimento econômico?

[2] De uma coisa podemos estar certos: se acabar com os problemas desses países significasse reduzir simplesmente, suas taxas de incremento populacionais, teríamos o menor dos problemas. Bastaria uma ampla campanha de distribuição de anticoncepcionais aliada à orientação de seu uso. Mas, com exceção da Etiópia, todos os países em questão são muçulmanos, com governos mais ou menos fundamentalistas. E mesmo a Etiópia (volta e meia tem cúpulas de orientação marxistas) não é o melhor exemplo de governo pró-ocidental. No curto prazo, para se poder um dia talvez promover o desenvolvimento da maioria das pessoas teria que se anular ou dirimir o poder daqueles que o obstaculizam. Isto é, me refiro às elites plutocráticas ou teocráticas de diversas dessas sociedades. Claro que uma potência, seja ela qual for não vai entrar numa canoa furada de bancar a “Madre Teresa de Calcutá Global” de graça... Não sem garantir certos benefícios em causa própria – aliás, tudo mais ou menos, gira em torno de um cálculo de custo/benefício.
Portanto, como controlar as milícias somalis sem ter que apoiar uma delas e impedir que a guerra étnica ultrapasse fronteiras no Chifre Africano sem fortalecer seu estado vizinho, a Etiópia? Como anular o expansionismo Baath (Iraque) ou os aiatolás (Irã) garantindo estabilidade aos aliados no Golfo Pérsico sem diminuir o poder dos primeiros? Como impedir fundamentalismos crescentes no Paquistão sem o apoio ao governo laico de Musharraf?

[3] As “situações” não se inflamariam por conta própria? Ou só o conseguem graças à influência americana?

[4] Por acaso, o Iraque e a Síria também não eram cortejados pela então URSS? E se os EUA não tivessem apoiado o regime do xá, o que existiria no Irã? Provavelmente, uma ditadura comunista. Ah, se bastasse não investir em armamentos e não apoiar nenhum regime externo... Será que é tudo tão simples assim?

[5] Apoiaram Saddam porque o Irã bloqueou a saída de petroleiros do Golfo; apoiaram o Talebã (e não, pessoalmente, Osama) porque a URSS invadira o Afeganistão; lutaram pouco contra Osama... Nisto erraram, pois se durante o governo Clinton tivessem o atacado sem pudores, talvez evitassem muitos contratempos.

[6] O que significa que o apoio externo não é tudo. Também depende do que o governo apoiado faça, internamente. Como, p.ex., o Paquistão não apoiar os talebãs (que são sua extensão) no Afeganistão.

[7] Em se tratando de assuntos militares, é o Pentágono mesmo quem lidera e não, “agências civis”.

[8] Só o futuro poderá dizer se os gastos militares no Afeganistão, Iraque e Paquistão foram em vão. São projetos de longo prazo. Assim como, só agora podemos ter distanciamento suficiente para entender a Guerra Fria, ainda levaremos algum tempo para julgarmos com propriedade o que está ocorrendo.

[9] A questão é o que o Paquistão fez com 10% em ajuda humanitária. Como os países pobres aplicam os recursos destinados a tais objetivos? Ou será que o simples número fala por si?

[10] Bem... Eu não presto atenção às palavras. Cabe a nós prestar mais atenção aos atos.

[11] E o isolacionismo como política externa também não levaria mais armas a serem apontadas aos EUA? No curto período laureado como “Nova Ordem Mundial” (que parece já ter chegado ao seu fim...), quando o investimento bélico teve uma ligeira estagnação, as guerras etno-tribais na África e Ásia não recrudesceram, igualmente?

[12] Tendências demográficas não serão solucionadas sem uma correspondente adoção e mudança de comportamentos sociais endógenas. Esperar que uma potência estrangeira dê conta de solucionar estes problemas têm como premissa (ingênua) que, realmente, o mundo seja possível ser, politicamente, planificado. Como se os outros povos fossem passiveis de acatar a boa vontade e intenções externas. Darfur mesmo é, claramente, exemplo de como guerras étnicas independem destes movimentos e intenções globais.

[13] Muitos, como o próprio Kennedy foram entusiastas da “política da boa vizinhança” e, no que acabou dando isto? No imediato Pós-Guerra, a América Latina era uma região nevrálgica e recebeu tanto investimentos quanto hoje recebem outras regiões no mundo. Mas, no que deu isto? Se não há um mínimo de vontade (e consciência) política interna, para quais bancos internacionais ou paraísos fiscais vão os recursos?

[14] Belas palavras... Ainda mais quando vindas de um dos principais defensores da permanência das tropas americanas no Vietnã.

* Meus comentários a este artigo se encontram nas notas.

Jogo sírio - 2


Em que pese também o dissenso interno aos sírios, por razões complexas (proximidade étnica, oposição aos EUA e Israel), a Síria apoiou os sunitas na Guerra do Iraque. Se o fundamentalismo sunita se opõe ao secularismo alauita, um fundamentalismo oportunista capitaneado por Damasco seria uma alternativa razoável frente à composição de forças em curso. E aos EUA caberá forçar os sírios a sair do Líbano.

Após os equívocos de Israel no Líbano, os sírios têm se tornado a força dominante no país. A Síria por seu turno criou uma estrutura que estabiliza os arroubos de violência no Líbano, controlando o Hezbollah em seus ataques contra seus aliados no Líbano (muitos dos quais, se opõem ao Hezbollah) e a própria Israel.

Por mais paradoxal que possa parecer, a presença síria no Líbano garante uma estabilidade à Israel e os israelenses não querem a destituição do regime Assad. Ruim com eles, pior sem eles é o que passa na mente dos israelenses. A presença síria no Líbano, apesar de incômoda, é uma garantia a mais pela estabilidade do país. Sim, Israel deseja, sobretudo, o controle do Hezbollah.

Aqui temos, então, um ponto de tensão entre Israel e os EUA, especialmente difícil de entender para aqueles que vêem uma “ligação carnal” entre os dois países, uma dependência e comunhão total de propósitos, o que não passa de mito. Os EUA, por sua vez, preparam-se para punir os Assad por sua interferência no Iraque, o que trará mais instabilidade política à região. Mas, o real perigo na região reside numa possível sucessão síria com fundamentalistas sunitas, uma vez que Damasco os ajudou. Aí é que está o problema.

Para os turcos, este arranjo informal entre Israel e Síria é fraco. Não é a primeira vez que Israel adota esta política. Aliás, já fez o mesmo com o Egito e a Jordânia... No caso específico da Síria, não há como suportar a pressão americana. Para os turcos, o reestabelecimento das antigas tensões é que é desejável. E, novamente outro paradoxo aparente, junto aos EUA contra esta configuração de poder está o Hezbollah e o Irã!

Os EUA vêem a Síria como fator de instabilidade regional, cujo currículo no Líbano a condena. Chutar os Assad poderia ser, militarmente, fácil para Washington, mas os avisos sauditas aos americanos têm que ser, atentamente, levados em consideração... Os lucros do petróleo no Iraque passam, atualmente, pelos sunitas. Por isto, não convém desagradar, mesmo que indiretamente, estes novos sócios.

Apesar da Arábia Saudita, desde os 70, ter os sírios como inimigos e verdadeiro pavor da política iraniana e seu apoio ao Hezbollah, não acredita no controle dos xiitas por Damasco. Mais precisamente, os sauditas acreditam que os sírios controlem o Hezbollah contra Israel, mas não conseguem o mesmo contra os sauditas e demais sunitas. E Washington tem que dançar entre os interesses israelenses e a hostilidade saudita para com Damasco. Não pode se errar o passo, embora haja uma tendência predominante em Washington por “vingar” o governo de Bagdá contra o apoio sírio às milícias sunitas no Iraque.

“Vingança”, como redução de poder de um vizinho inconveniente, bem entendido. Afinal, vingança por vingança não traz poder.

Chega-se, ironicamente, em uma convergência de interesses de Washington, Teerã e o Hezbollah contra Damasco. Quem diria? No entanto, apesar do crescimento da força do Hezbollah sob o dissenso estratégico, ele não consegue se estabelecer como força política convencional e alternativa. Para os sírios, ele é conveniente para ser liberado como cão de guarda no momento oportuno. E, quando este momento chegar, romper as amarras que o prendem a Damasco também jorrará sangue.

Para caminhar nesta selva, urge que acordos com Teerã sejam formados antes que o Hezbollah possa se tornar independente do apoio sírio. Mesmo porque, hoje, o apoio de Teerã ao Hezbollah, passa por Damasco, apesar de todas suas diferenças ideológicas. Depois, para Washington ficará mais fácil jogar com Damasco e Teerã. De preferência, um contra o outro.

Jogo sírio


A Turquia, aliada dos EUA, membro da OTAN não tem interesse nos acordos de paz entre Israel (igualmente aliada americana) e Síria. Não há interesse em uma Síria estável e seu estado fortalecido na fronteira meridional turca. Não há interesse em um novo concorrente regional. Com o crescimento militar turco e a concentração americana no Iraque, um vácuo de poder surgiu na Ásia do Levante, o qual os turcos querem preenchê-lo. E não nos enganemos com justificativas a partir de disputas regionais pretéritas, o envolvimento turco na diplomacia regional é apenas o primeiro passo de uma longa série de ações do que está por vir.

A Síria tem interesse nos planos de assentamentos de Israel. A minoria étnica alauita que governa Damasco é um movimento secular que tem maior afinidade com o Fatah do que com o Hamas (ambos sunitas, porém distintos politicamente) ou com o Hezbollah (xiita). A maioria religiosa sunita do país não determina, portanto, as ações do governo sírio. Não se trata de religião, no sentido etéreo da palavra, mas simples Razão de Estado.

Em que pese a insatisfação geral dos sunitas com o governo sírio, os interesses de Damasco se concentram muito mais na riqueza afluente do Líbano do que em Israel. Dinheiro puro e simples e, não fé é que ditam as regras. Neste contexto, o apoio ao Hezbollah é casual, não uma “ligação carnal”. Damasco joga com todas as fichas disponíveis, não só apoiando os xiitas do Hezbollah, como envia armas aos jihadistas sunitas. Os Assad são políticos habilidosos, mas em que pesem suas táticas para contrabalançar Israel, não têm estratégia visível (ao menos, por enquanto) para lidar com os turcos. E estes não têm uma receita pronta e fácil: se não querem estados fortes, tampouco desejam o caos em sua fronteira sul.

Wednesday, May 21, 2008

Problemática ecológica e percepção global



Embora esta discussão seja oriunda do cenário europeu, normalmente versa sobre o mundo, particularmente os países subdesenvolvidos. E, como não poderia deixar de ser, o “filtro” é terceiro-mundista. Afirmações como 20% da população mundial exploram 80% dos recursos naturais mundiais[1] surgem sem grandes considerações metodológicas. De onde tiraram seus dados? Pressupostos de pesquisa etc? Daí é um pequeno passo a atribuição das sociedades ocidentais como responsabilização por todos males ecológicos. E, como subproduto lógico, a “enorme dívida social para com o Sul...”

“Sul”, bem entendido, nesta tosca divisão geográfica corresponde ao grupo de países subdesenvolvidos do globo. Muito embora, grandes contingentes de miseráveis do globo se encontrem ao norte da linha do Equador, como parte da Índia, China, Ásia Central, norte da África e América Latina.

Há uma grande diferença sim entre cidades do “Primeiro Mundo” e do “Terceiro Mundo”, mas enquanto aquelas têm grandes redes de infra-estrutura desenvolvidas por seus estados e segmentos do setor privado, nossas cidades do bloco subdesenvolvido são amalgamadas por sociedades onde o estado é inoperante e que também sufoca a atividade do setor privado com burocracia excessiva e elevadas cargas de tributos. Raízes distintas deveriam ser o primeiro passo para avaliação de problemas ambientais comuns.

É assaz simplista resumir a “crise ecológica” a um problema energético que demanda soluções tecnológicas, enquanto que grandes potenciais de produção, como os caudalosos rios africanos esperam por financiamentos em obras como hidroelétricas obstaculizadas por organizações ambientalistas radicais como o Greenpeace. É preferível bradar contra um suposto “aquecimento global” e esquecer o drama de dezenas de milhões que sofrem com o mosquito da malária nos trópicos africanos. Drama igualmente produzido por aqueles que são contra inseticidas eficazes como o DDT...

A causa, constantemente anunciada, por tais mentes bem intencionadas se constitui no próprio desenvolvimento dos países ricos. Para elas, trata-se de um “jogo de soma zero” onde os ricos são ricos, justamente, porque “exploram” recursos globais em demasia “causando” a pobreza alheia. Este tipo de mito não considera que o que está (ou deveria estar) em questão é o caminho histórico trilhado pelos países ricos, cujas medidas se analisadas e, devidamente, adaptadas aos pobres seriam de grande valia. Verdadeira valia.

No fundo se trata de uma visão religiosa baseada numa culpa e, não existe culpa sem pecado, neste caso, a luxúria. Se há algo que os cidadãos das modernas sociedades ocidentais podem fazer pelos pobres do mundo, caso entendessem os reais problemas, isto reside na extensão de seu modo de vida. Ou seja, exatamente o contrário do que preconizam as mentes dotadas por uma falsa consciência ecológica. E o comércio livre aliado a medidas antiprotecionistas seria um bom começo...

[1] Hans-Norbert Mayer. “The Social Dimension of Urban Ecology.” In: Breust, Feldmann, Uhlmann (eds.). Urban Ecology. Springer, 1997, p. 204.

Conversa fiada - 2


Os palestinos se distribuem entre West Bank (Cisjordânia) e a Faixa de Gaza no território israelense. Ideologicamente, se dividem em grupos bastante heterogêneos, com o Setor Ocidental (Cisjordânia) controlado pela Aliança Nacional Palestina (ANP), a qual se subdivide em duas facções, o Fatah e o Hamas. O primeiro é, sem dúvida, o mais forte na Cisjordânia e controla as instituições da ANP. Pode-se dizer que o Fatah – na prática – controla o governo palestino oficial. Mesmo em Gaza, onde o Hamas é o grupo hegemônico, o Fatah se mantém com força na disputa.

O Fatah é um movimento secular, originário do esquerdismo árabe dos anos 60 e 70. O Hamas, por sua vez, é guiado por pressupostos religiosos de movimentos sunitas de fins dos 80 e 90. Exceto pela formação do estado palestino, suas visões de estado variam geograficamente. O Fatah mantém seus compromissos com o estado de Israel, o que deriva de certo temor pela expansão da hegemonia política do Hamas entre os palestinos. O Hamas, por sua vez, não tem preparo para um “compromisso geográfico”, isto é, de formação territorial de um estado palestino, exceto em bases temporárias. Estes dados já são suficientes para apontar quem Israel apóia. Não há possibilidade, por parte do estado israelense de travar acordos com aqueles que não aceitam seu direito à existência.

Um dado para contemporização desta relação de forças é que mesmo apresentando divisões internas, Israel não demonstra cisões tão profundas quanto os palestinos. Portanto, a análise do conflito árabe-israelense passa por uma guerra entre três grupos básicos, Israel, Fatah e Hamas, o que torna impossível um acordo definitivo de assentamento entre estas partes levando-se em consideração a crescente aliança entre Israel e Fatah contra o Hamas. O que resta são acordos parciais entre Israel e o Fatah, através da ANP. No entanto, isto não se torna suficiente para estabelecer um pacto interno aos palestinos, ainda mais com o Fatah não fazendo nenhum esforço em negociar com o Hamas. Igualmente, se o presidente palestino Mahmoud Abbas promovesse um amplo assentamento com apoio do Fatah não seria o mesmo que um acordo integral com os palestinos, mas somente com sua facção.

De sua parte, os israelenses têm sinalizado para esmagar lideranças do Hamas em Gaza. Nesta guerra de dissuasão ostensiva e, também psicológica, resta ao Hamas se preparar para operações de contra-insurgência em um ambiente politicamente inóspito. Reduzir a influência do Hamas num primeiro turno pode ser também o início de um processo que aponta para a anulação gradual do próprio Fatah, e de xiitas que apóiam o Hezbollah.

Para Israel pode ser uma vantagem alcançar um acordo de assentamentos com Mahmoud Abbas e lançar ataques em Gaza. O próprio Abbas pode ser o testa-de-ferro de um ataque decisivo ao Hamas, mas isto colocaria a ANP em dificuldades políticas. Por outro lado, os palestinos não mantêm ilusões que um ataque massivo em Gaza eliminaria por completo a capacidade militar do Hamas. Quanto mais mísseis lançados contra Israel, maior se torna a pressão para toda sorte de revides por parte de seu estado.

Realisticamente falando, assentamentos não conduzem, por si só, a nenhum processo de pacificação porque não há plano sustentável de assentamento sem operações de guerra. No horizonte, só se vislumbra a paralisia e uma guerra eliminaria a capacidade do Fatah de atingir seu propalado plano de partilha territorial.

O resto é conversa fiada.

Tuesday, May 20, 2008

A dimensão social da ecologia urbana



Na verdade, há duas dimensões da ecologia. A que nos é dada pela evolução tecnológica, cujas demandas existem por nosso passado urbano que nos deixou solos contaminados, rios poluídos e plantas industriais desocupadas. Cada vez mais, os custos de recuperação e mitigação destes usos passados se avolumam e nos trazem exigências no desenvolvimento de “tecnologias limpas” e técnicas de reciclagem ou minimização de impactos. Por outro lado, a adoção de formas sustentáveis de desenvolvimento urbano é bem mais complexa. Quando falamos em “ecologia urbana” não existem apenas ecossistemas e técnicas neutras, socialmente falando, assunto de exclusiva competência técnica ou instrumentos administrativos e jurídicos que redundem em um planejamento isentos de perspectivas de mudanças sociais e políticas.

Definição de objetivos

O objetivo mais tangível de todos é tentar impedir catástrofes abruptas ou lentas e graduais. Entre eles, o aquecimento local (não, o “global”) através da formação de “ilhas de calor”. E as ciências naturais têm nos enviado sinais, predominantemente, negativos sobre nossas perspectivas de desenvolvimento às expensas do crescente desenvolvimento científico já alcançado.

Por mais que nos desenvolvamos, novas situações ecológicas têm que ser desenvolvidas. As quais nos obrigam a adoção de novos estilos de vida e trabalho. Em suma: a simples explanação dos problemas e situações ambientais não pode, em si só, expor as normativas do desenvolvimento futuro das sociedades se não houver a inclusão de um debate democrático com a sociedade que aponte para um novo modo de vida.

Tuesday, May 13, 2008

Conversa fiada

O grande problema atual do governo petista não é bobagem de revolução continental nenhuma, mas apenas o déficit público que inviabiliza a implantação de infra-estrutura. As "demandas sociais" que se corporificaram na criação de n-ministérios são uma prova viva da incomPTência governamental em atendê-las. Não por alguma incompetência congênita - ou se fosse um "governo de direita" faria melhor -, mas simplesmente porque eles atuam do modo errado, com mais regulamentação estatal.
P.ex, alguém sabe me dizer para que serve um "ministério das cidades"??? A única coisa efetiva que lhe serve de base é uma lei aprovada em 2001, o Estatuto das Cidades que visou regulamentar/regularizar as áreas clandestinas, favelas e quetais, mas não há dinheiro e metodologia para tanto.
Os recursos proviriam, basicamente, do IPTU progressivo, aprovado pelo mesmo estatuto, mas não há tantas áreas de vazios urbanos, como alardeado pela esquerda que condicionasse uma suficiente transferência de renda. A demanda é muito grande. Historicamente, cidades que se pautaram neste princípio, como a Detroit de meio século atrás se danou, pois acabaram atraindo mais pobres (relativos) que nenhuma prefeitura no mundo poderia dar conta;
Quanto a metodologia também é simples de entender o porque de tanta inoperância. Alguém já viu muitos engenheiros petistas? Não há. O que mais tem são sociólogos e, no máximo, urbanistas ideologizados. Ou seja, é gente com muito blá-blá-blá e que não sabe avaliar coisas como zonas de risco, construir uma rua e propor um zoneamento urbanístico eficaz.
Em suma, aquilo que o governo petista pode (e, efetivamente, leva adiante) foi o que FHC deixou como legado. O resto é pra torcida, só.

Sunday, May 11, 2008

História mal contada

Vejamos esta matéria do site do Estadão:

(...)
No outono passado, em resposta a ataques com lançamento de foguetes por militantes palestinos, o governo de Israel declarou Gaza uma "entidade hostil" e restringiu o fornecimento de combustível.
A Justiça israelense estabeleceu uma quantidade mínima de combustível que deveria ser entregue, mas organizações como Oxfam dizem que isso não tem sido respeitado.
Autoridades israelenses dizem que a entrega de combustível foi interrompida por questões de segurança e que será retomada logo.
Tem havido uma série de ataques por militantes palestinos em postos da fronteira nas últimas semanas.
A ONU condenou os ataques, mas também classificou a resposta israelense de "injusta", já que os 1,5 milhão de moradores de Gaza enfrentam constante falta de produtos básicos.

Porém...

Hamas vs. Gaza


Qual a razão para um grupo que se diz representante do povo palestino tem para embargar recursos básicos para este mesmo povo?

O combustível em questão seria enviado para hospitais administrados pela ONU em atendimento e à população da Faixa de Gaza. Os pára-brisas dos caminhões foram quebrados por pedras e tiros disparados por dúzias de soldados do Hamas. O envio da carga de 250.000 litros de combustível foi liberado após acordo feito entre a Autoridade Palestina e Israel.

A ação do Hamas prejudicou meio milhão de palestinos que dependiam de seu fornecimento. Quem acusa o Hamas não é um “agente sionista” ou um wasp com o qual sonham os terceiro-mundistas, mas o próprio Ministro da Saúde da Autoridade Palestina que apontou o grupo de prejudicar hospitais e clínicas da Faixa de Gaza.

Não foi um fato ou caso isolado. A tática insana já ocorreu por 4 vezes em poucas semanas. Conseqüentemente, alguns hospitais tiveram que parar com seu serviço de ambulância.

Quem mata seu próprio povo a conta-gotas?

A crise gerada pelo Hamas tem feito com que alguns dos próprios oficiais da Autoridade Palestina em Ramallah têm como única esperança, a intervenção da comunidade internacional.

Esta obstrução do fornecimento cria um mercado negro de combustível que favorece, obviamente, a quem o tem: o Hamas.

Frentistas e donos de postos de gasolina também são ameaçados de morte pelos terroristas do Hamas, diga-se de passagem.

Adaptado de: Hamas disrupts fuel supplies to Gaza

O que se pode dizer de gente assim que faz isto contra seu próprio povo?

Fundos globais para a América Latina


Crescimento das economias latino-americanas




A economia latino-americana apresenta grandes possibilidades de crescimento em futuro próximo. Vejamos alguns trechos desta análise:



(...) o promissor é que estes fundos são (o tem potencial para ser) veículos importantes no financiamento do desenvolvimento, não somente em seus países de origem como em outras regiões emergentes como a América Latina.

(...)

Quando a Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico (OCDE) foi criada, há cinco décadas, seus países membros concentravam cerca de 75% do PIB mundial; hoje representam apenas 55%.

(...)

Mais além das manchetes sensacionalistas, porém, os fundos soberanos estão fazendo uma aposta firme e decidida pelos mercados emergentes, com importantes investimentos na América Latina e outras regiões em desenvolvimento. É o caso da Temasek, que ostenta importantes participações no banco índio Icici e na Tata Teleservices.

(...)

Por que investir em economias desenvolvidas que crescem menos de 2% quando as latino-americanas crescem acima de 5%?

(...)

No futuro, as estratégias de diversificação levarão os fundos soberanos a não buscar somente uma alta rentabilidade, mas também alternativas menos ligadas a seus países de origem. Isso muito provavelmente implicará um interesse crescente em regiões como a América Latina. Se os fundos soberanos decidem destinar 10% de seus investimentos a outras economias emergentes na próxima década, isso poderia resultar em investimentos potenciais de aproximadamente US$ 1,4 trilhão, um valor anual superior ao de toda ajuda que os países da OCDE destinam ao desenvolvimento. E seria bom aos países latino-americanos não perder esse trem.



Monday, May 05, 2008

A ameaça de Netuno




Ouvimos dizer, insistentemente, pela mídia politicamente correta que o nível do mar vai subir devido ao aquecimento global. Pois bem, neste interessante artigo, O pânico do nível do mar há informações que desmentem tal afirmação. Como o aumento do nível do gelo no interior da Groenlândia em nível superior ao perdido em seu litoral. Confiram.


O que não ocorreu na Antártida... Mas, com a perda registrada do gelo seriam necessários 20.000 anos para a elevação em um metro. Isto, se não ocorrer uma nova glaciação neste período...


Os habitantes das Is. Maldivas, por exemplo, constantemente atordoados pela hipótese de um cataclisma proveniente dos oceanos vivem no arquipélago há cerca de 1.500 anos, tendo passado pelo chamado Período Quente Medieval, quando o nível do mar em sua região foi mais de meio metro superior ao atual.


Registros feitos pelo governo australiano, no entanto, não acusam nenhuma elevação significativa que valha a pena confirmar a teoria aquecimentista.


A figura mostra a evolução do nível do mar nas Ilhas Maldivas dos últimos 5000 anos. Em relação ao valor actual (linha horizontal de valor zero), o nível situou-se: um metro abaixo, há 3900 anos; 0,1 m a 0,2 m acima, há 2700 anos; 0,5 m acima, há 1000 anos; 0,2 m a 0,3 m acima, nos anos 1900 e 1970. Nos últimos 30 anos o nível do mar situou-se 30 cm acima.

Fonte: Fig. ZJ9 - Nível do mar das Maldivas. Nils-Axel Mörner.

Thursday, May 01, 2008

O erro do multiculturalismo como base legal

Sobre o multiculturalismo em Portugal, ler aqui.

Se for certo afirmar que a sociedade, historicamente, cria seu estado, também não é equivocado dizer que o estado 'formata' sua sociedade. Na esteira da criação de toda uma lógica de convivência social surgem as leis que deram origem aos estados modernos.
Há aquele onde se prevê a comunhão de um espaço dos habitantes que nasceram no mesmo território e partilham de laços comuns, como a consangüinidade e outro, mais moderno, que pressupõe uma igualdade de direito sobre um mesmo espaço compartilhado. Trata-se de uma racionalidade que é amparada no ideal de bem comum. Neste caso, a terra.
De acordo com a Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão, inspirada nos ideais da Revolução Francesa, o estado nacional valida um certo contrato social em um dado território. O que não significa, bem entendido, que tal contrato não possa ser modificado, mas que o compromisso fundamental está concentrado no respeito à lei.
Este conceito moderno de estado vai contra as atuais demandas em voga, de cunho multicultural nas quais se partem de direitos específicos, segundo uma lógica identitária onde os particularismos multiétnicos se afirmam. O estado moderno se afirma na idéia de 'bem comum', 'espaço público' e não em comunidades específicas. A confusão gerada entre o multiculturalismo e a lei do estado moderno reside na falta de discernimento entre o conceito de “comunidade cultural” e o de “comunidade política cívica”.