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O presente blog, Geografia Conservadora servirá mais como arquivo e registro de rascunhos.
a.h

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Wednesday, December 12, 2007

Criar juízo é rasgar Kyoto

José Eli da Veiga

Se você quiser fundamentar opinião sobre o aquecimento global, não poderá deixar de ler o sumário da síntese do quarto relatório de avaliação do IPCC (Painel Internacional sobre Mudanças Climáticas), divulgado há dez dias em Valência. De suas 23 páginas, apenas metade é de texto, a outra ocupada por soturnos gráficos, figuras e tabelas ( www.ipcc.ch ).
A primeira coisa que poderá lhe incomodar é a forma utilizada para tentar transmitir ao leitor o grau de incerteza, ou de confiança, que condiciona cada afirmativa. De modo algum no tocante às margens de erro das estimativas, pois estas são intrínsecas a quaisquer avaliações do gênero. Mas sim no que se refere ao abuso de formas adverbiais - "provavelmente", "muito provavelmente", "muito improvavelmente" - ou comparativas tipo "mais provável do que improvável". Estão todas em itálicos e ocorrem 95 vezes ao longo de uma dúzia de páginas de texto.
Claro, nada disso poderá perturbar quem já esteja plenamente convencido de que são inquestionáveis os resultados das pesquisas revisadas pelo painel. Pode-se pensar, por exemplo, que não passam de 95 as manifestações de recalcitrantes resistências políticas, ou, no máximo, de 95 sinais do excessivo rigor dos 40 componentes da equipe de redação. Nesta linha, o que mais importa é tirar de tão importante documento as decorrências que deveriam nortear as conversações internacionais sobre o modo mais efetivo de combater o aquecimento global. E, para debater tal orientação, não há necessidade de se examinar mais do que duas tabelas que aparecem no final do texto: SPM.6 e SPM.7 (págs. 21 e 23).
A primeira apresenta seis cenários de elevação da temperatura média global em relação ao que deve ter sido o "equilíbrio pré-industrial", indicando os correspondentes patamares de concentração de gases estufa, medidos em equivalentes de dióxido de carbono (CO2). Escancara que o único cenário admissível é o primeiro, no qual um aumento de temperatura situado entre 2 e 2,4 graus centígrados (ºC) exigirá que a concentração seja contida no intervalo de 445 a 490 partes por milhão (ppm).
Admitir qualquer dos outros cinco cenários seria o cúmulo da irresponsabilidade. Afinal, se a temperatura global aumentar mais de 2º C, estima-se que entre 0,7 e 4,4 bilhões de pessoas sofrerão de crescente falta de água; que haverá queda de rendimentos agrícolas em muitos países pobres; que as florestas amazônicas serão irreversivelmente comprometidas; que de 15 a 40% das espécies se extinguirão; que geleiras desaparecerão; que o derretimento da placa de gelo da Groenlândia acelerará a elevação do nível do mar; e que o permafrost siberiano exalará seu imenso estoque de metano (CH4), gás-estufa bem mais furioso que o CO2.
O suficiente para mostrar a profunda incoerência dos que elogiam simultaneamente o IPCC e o Protocolo de Kyoto.
Se o IPCC estiver mesmo certo, então esse protocolo deve ser imediatamente denunciado e substituído com máxima urgência por um sério entendimento entre os 20 países que são responsáveis por 90% das emissões de carbono. Não há outra maneira de se obter uma redução das emissões superior a 50% até 2050, condição sine-qua-non da estabilização da concentração no intervalo 445-490 ppm e, portanto, de um aquecimento máximo que fique entre 2 e 2,4 ºC.
Além da fixação de metas de emissão nacionais muito mais drásticas para esses vinte principais emissores, as cotações resultantes dos chamados "mercados de carbono" precisariam aumentar, e muito. Seja mediante leilões dos direitos de emissão, ou pela adoção de impostos para cada tonelada de carbono emitida, semelhantes ao que já são pagos quando se consome um maço de cigarros, ou uma dose de bebida alcoólica. E ainda faltaria o principal: intensa cooperação científica voltada à descoberta de saídas realmente capazes de descarbonizar as matrizes energéticas.
Qual seria o custo macroeconômico desse trevo do conseqüente combate ao aquecimento global? É o que procura responder a última tabela do sumário do IPCC. Todavia, quem chegar até ela, notará que, para esse primeiro cenário, as estimativas não estão disponíveis ("not available"). Por quê? Pergunte ao IPCC. O que pode ser dito aqui é que tais custos já foram calculados por pelo menos dezenove complexos modelos, entre os quais se destacam o "Dice", de Nordhaus, e o "Page", de Stern. A principal diferença entre os dois é de natureza ética, pois depende da parcela de responsabilidade que será transferida às futuras gerações. Segundo o Nordhaus, o custo social da tonelada de carbono deveria se aproximar nos próximos anos de US$ 60. Já para Stern, esse custo deveria ser cinco vezes maior (US$ 305), já que seu pressuposto ético é de que as gerações presentes é que devem assumir a maior parte do sacrifício.
A percepção de que o aquecimento global é a maior ameaça que o mundo enfrenta avançou bastante em 2007. As outras - terrorismo, armas nucleares, Oriente Médio - até parecem bem menores. Então, é absurdo dizer que o pós-Kyoto poderá ser mero aprofundamento do protocolo, além de esperar 2013 para entrar em vigor. Tal postura só pode ser assumida por quem pretenda ganhar tempo. Por quem não queira encarar os próximos anos como momento decisivo. Talvez por ter dúvidas sobre os resultados validados pelo IPCC. E é essa a atitude da maioria dos corpos diplomáticos, aí incluído o do Brasil, país que já aparece como sexto principal emissor (caso a União Européia seja considerada em bloco na terceira posição).
Enfim, como o leitor deve ter notado desde a primeira linha deste artigo, o aquecimento global envolve sérias controvérsias, tanto do âmbito das ciências naturais, quanto no das econômicas e políticas. E é muito ruim que permaneçam subestimadas, ou mesmo ignoradas. Daí porque deve ser enfático o convite à leitura do relatório "Aquecimento global: um balanço das controvérsias", redigido em co-autoria com Petterson Vale, disponível em www.zeeli.pro.br.
José Eli da Veiga é professor titular do departamento de economia da FEA/USP e autor de "A Emergência Socioambiental" (Ed. Senac, 2007), escreve mensalmente às terças. Página web: www.zeeli.pro.br
Publicado originalmente no jornal Valor Econômico do dia 27 de novembro de 2007.
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Quem lê este blog com certa freqüência conhece minha posição (contrária) à teoria aquecimentista. Não obstante, não deixo de me interessar por posições contrárias e análises bem fundamentadas ou, se não suficientemente fundamentadas, ao menos esforçadas do ponto de vista lógico. Meu intuito foi fornecer mais subsídios a este necessário debate.
a.h

Friday, August 24, 2007

Essa eu quero ver no que vai dar...

Imagine esta notícia:


Os maiores projetos de cortes de emissões de gases-estufa preconizados pelo Protocolo de Kyoto têm contribuído para o agravamento do Buraco na Camada de Ozônio... Com isto cria-se um moto contínuo, pois países poluidores ao focalizar o combate a um tipo de gás desconsiderariam outros. Com isto aumentariam, indiretamente, suas emissões para solicitar mais créditos de carbono, o que lhes traria igualmente uma fonte de renda extra... Chamado de Mecanismo de Desenvolvimento Limpo (MDL), só no ano passado significou USD 5 bilhões... Tais gases cortados, como os HCFHs são mais potentes em termos relativos do que o gás carbônico, mas receber recursos para substituição dos primeiros é mais lucrativo. Como o segundo tipo é que é mais comum, a poluição continua simultânea ao recebimento de créditos. Daí se continua poluindo com o que é mais frequentemente utilizado, mas cortando aquele que, em termos absolutos, polui menos e dá mais crédito.
Este negócio com o dedo da ONU é uma sem-vergonhice só.
a.h





Chinese commuters make their way in heavy smog in Beijing, December 14, 2004. The biggest emissions-cutting projects under the Kyoto Protocol on global warming have directly contributed to an increase in the production of gases that destroy the ozone layer, a senior U.N. official says.
REUTERS/Reinhard Krause/Files
By Gerard Wynn

LONDON (Reuters) - The biggest emissions-cutting projects under the Kyoto Protocol on global warming have directly contributed to an increase in the production of gases that destroy the ozone layer, a senior U.N. official says.
In addition, evidence suggests that the same projects, in developing countries, have deliberately raised their emissions of greenhouse gases only to destroy these and therefore claim more carbon credits, said Stanford University's Michael Wara.
Kyoto is meant to curb emissions of the greenhouse gases blamed for global warming, but is undermining a separate pact called the Montreal Protocol, meant to phase out gases which harm the earth's ozone layer.
That layer in the atmosphere shields the planet from damaging ultra-violet rays that can cause skin cancer.
At the heart of the clash is a carbon trading scheme under Kyoto, worth $5 billion last year, whereby rich countries pay poorer ones to cut greenhouse gas emissions on their behalf, called the clean development mechanism (CDM).
The most popular type of project has been to destroy a potent greenhouse gas known as HFC 23, one of a family of so-called hydrofluorocarbons, in China and India.
The problem is that HFC 23 is a waste product in the manufacture of a refrigerant gas which damages the ozone layer, called HCFC 22, and chemical plants have used their CDM profits to ramp up production.
"This is certainly one of the major drivers now in the increase in production of HCFC 22," Rajendra Shende, director of ozone issues at the United Nations Environment Programme, which administers the Montreal Protocol, said on Monday.
HCFC 22 now risked undoing recent repair to the ozone layer, Shende said in an interview.
Chemical plants have used CDM profits to cut the sale price of HCFC 22, pricing out alternatives that don't deplete ozone such as carbon dioxide and ammonia.
"(U.N.) bodies need to work more together, to see the actions of one don't risk the actions of another," Shende said.
Governments signed up to the Montreal Protocol will likely vote next month to accelerate the complete phase out of HCFC 22 in developing countries by 2025 or 2030 from 2040 now, he said.
LUCRATIVE
CDM projects which destroy HFC 23 are especially lucrative because the gas is 12,000 times more potent a greenhouse gas than carbon dioxide (CO2), although its overall contribution to climate change is far less because CO2 is much more common.
As a result, destroying HFC 23 spawns far more money-spinning carbon credits than any other way of curbing greenhouse gas emissions.
Carbon trading isn't the only reason why HCFC 22 production is up, said Shende. A fund raised under the Montreal Protocol has paid makers of air conditioners and fridges to use HCFC 22 instead of more dangerous ozone-depleting gases, CFCs.
In addition, increasingly affluent classes in developing countries are now better able to afford air conditioners.
HOT AIR
The environmental credentials of HFC 23 projects are further undermined by evidence that chemical plants in China have deliberately "tuned" their factories to produce more of what should be a waste product, to make more money under CDM.
Chemical plants participating in CDM make twice as much HFC 23 as a proportion of the actual end product refrigerant than those in rich countries which can't participate in the scheme, said Michael Wara, research fellow at Stanford University.
"It doubles the flow of carbon credits, but there are real questions whether it's hot air," Wara said. The carbon credits are being used as carbon offsets to allow companies to continue to produce greenhouse gases in Europe.
"They've tuned the plants to double the amount of HFC 23 you would normally produce, for example in Europe or the United States. All CDM participant plants came in at 3 percent (HFC 23 versus HCFC 22), the Kyoto Protocol maximum, versus 1.5 percent in countries that can't participate in the scheme."
© Reuters 2007. All rights reserved.
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