interceptor

Novas mensagens, análises etc. irão se concentrar a partir de agora em interceptor.
O presente blog, Geografia Conservadora servirá mais como arquivo e registro de rascunhos.
a.h

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Tuesday, January 19, 2010

Burguesias nacionais e imediatismo



Todo mundo sabe que o nazi-fascismo é a última esperança do capitalismo em bloquear o comunismo. Dizer que o comunismo e o nazi-fascismo são similares é o mesmo que dizer que Fulgêncio Batista e Fidel Castro são iguais.


Há tempos ouço esta lorota, de que o nazismo foi a última alternativa contra o comunismo para preservação do capital. “Tanto foi” que limitou a atuação dos capitalistas privilegiando os grupos ‘nacionais’. Que diabos de capitalismo é esse? Trata-se de algo similar, isto sim, ao sistema econômico desenvolvido pós-Revolução Islâmica no Irã, no qual os ativos de empresas estrangeiras foram expropriados e cedidos a amigos do regime, que se declarassem favoráveis e apoiassem os rumos da insanidade de fanáticos religiosos. Muitos desses – bazaarin, sem filiação explícita com a religião – apoiaram Khomeini por puro pragmatismo econômico. Portanto, a análise que descarta a ação estratégica e se fixa na retórica (hipócrita, diga-se de passagem) é digna de editoriais de pasquins de nano-partidos regados ao discurso de centros acadêmicos. Nada além disto. 


Um ponto importante, a diferença entre as ditaduras... Sinceramente, não vejo muita. A própria ditadura “de direita” no Brasil teria, hoje, muitas de suas propostas econômicas estatizantes abraçadas pelos opositores de esquerda do governo Lula. Então, se observarmos como as coisas eram e ficaram, quem não evoluiu foram os adeptos do que imaginam que seria um governo de esquerda latino-americano. Por isso apoio um Gabeira como governador: para que mais um mito caia por terra, tão logo dê as fuças com o muro chamado ‘Realidade’.


Então me explique por que as burguesias nacionais aliam-se ao fascismo?


As burguesias nacionais aliam-se ao fascismo, assim como as burguesias nacionais (iranianas) aliaram-se aos aiatolás, assim como a burguesia nacional não paulista não estava nem aí contra Getúlio e abdicou da liberdade constitucional em nome de uma segurança proto-fascista, assim como várias burguesias o fizeram, porque são oportunistas. Agora, se um agente privado específico se beneficia de um regime autoritário em particular, do ponto de vista estritamente econômico, ele será um trouxa de trocar esta posição em nome de uma ética liberal com capitalismo para todos. No curto prazo, bem entendido... Pois, no médio e longo prazos, o privilégio adquirido irá, paulatinamente, se esvair em função da lógica de crescimento político do estado. Empresas petrolíferas devem ter perdido dinheiro com o boicote ao Iraque promovido pelos EUA nos anos 90 (Clinton), sem dúvida, mas sob um regime autoritário, outras burguesias que não dipõem de laços mais fortes com o poder de estado só sonham em lucrar para depois serem, sumariamente, traídas. Vide a Petrobras que teve seu contrato rasgado por Saddam em favor da Elf. Nós achamos a maior reserva de petróleo iraquiana, mas a obrigação de lucrarmos os 20% em cima foi pra baixo da terra enquanto que o petróleo subia... Para alguns capitalistas, sem dúvida que lucrar de qualquer jeito é bom, mas para o capitalismo como um todo é evidente que não.






Tuesday, September 29, 2009

Guerras regionais e outras não tão regionais


Algumas guerras têm conseqüências apenas locais ou regionais, outras têm conseqüências globais, mas por um curto período. Não dá para buscar equivalência entre, p.ex., a Crise de Suez (1956) e a II GM. Este caso é um óbvio exemplo que mudou praticamente tudo que veio depois. Algumas guerras, no entanto, parecem ser episódios isolados e regionalmente autônomos, como foi o caso da Península Coreana para depois se compreender como estava ligada a um contexto mais abrangente da Guerra Fria.

A questão que eu proponho discutir e estará mentindo quem disser que tem a resposta, é se o Iraque tem a ver com a Guerra da Coréia no sentido de que não foi uma guerra que se encerrou em si mesmo, mas uma campanha contra o Islã radical,. Esta é minha visão, mas isto só poderá ser vislumbrado no futuro, evidentemente.

Os objetivos gerais dos EUA (para quem não leva em consideração o que chefes de estado dizem, mas o que fazem) seriam:

  1. Mudar a percepção regional através de uma vitória decisiva;
  2. Eliminar a possibilidade de construção ou utilização de ADMs;
  3. Usar o Iraque como centro de operações para a região (sua localização é bem privilegiada).

Pouco importa se Saddam não tinha as ADMs alegadas por GWB, mesmo porque já utilizara químicas e bacteriológicas contra os curdos, mas o Irã era o alvo verdadeiro, bem como a insuflação waabita na Arábia Saudita. A dependência regional como base de apoio da península arábica também fragilizava e deixava a ação americana com poucas opções. Só assim podemos entender outros movimentos regionais, em aparente desassociação, como foi o caso recente do Cáucaso envolvendo Geórgia, Ossétia do Sul e Rússia... A Geórgia queria um oleoduto passando por seu território (nacional), ao que os ossetas (russos) insuflados por Moscou bradavam por autonomia. Na verdade, este duto seria alternativa energética para a Europa aumentando a oferta e reduzindo a dependência de combustíveis russos a partir do Cáspio. A desculpa era a autonomia das regiões russófilas dentro da Geórgia, enquanto que o monopólio russo estava em jogo.

E a OTAN? Na região seria moeda de troca, pois não há como investir numa infra-estrutura tão cara sem defendê-la e a organização tinha mais legitimidade que qualquer ação individual. Ou era isto ou se ficaria a mercê de qualquer um com um lança-foguetes. Claro que se trata de uma ameaça aos russos, mas esta é uma ação decorrente da disputa energética pela quebra do monopólio de petróleo e gás e não uma ‘resposta’, como muitos querem, a autonomia do Kosovo.

Os russos deram seu recado, mas o fato é que a OTAN deslocou suas frotas ao Mar Negro cercando o Oriente Médio de norte a sul, pois já está situada no Golfo Pérsico. No oeste temos Israel e Turquia, o que falta é algo estável a leste...

Quem perdeu? A Geórgia. Quem ganhou? Moscou e Washington elevando a disputa para outro nível ou, se preferirem, área.

Friday, July 03, 2009

Fronteiras e cêrcas mentais


Cêrca entre EUA e México

O governo da Arábia Saudita vai introduzir um sistema de segurança de alta tecnologia, que inclui a construção de uma cerca de 9.000 quilômetros fechando as fronteiras do país.

O projeto será tocado nos próximos cinco anos pelo consórcio europeu de defesa e segurança EADS, que assinou um contrato no valor de quase US$ 3 bilhões (R$ 5,7 bilhões) com o país. O sistema de segurança deve contar com radares de alta tecnologia, sensores eletrônicos e aviões de reconhecimento. O objetivo do projeto é evitar a entrada de militantes extremistas e o contrabando na fronteira. O governo saudita já vinha planejando construir uma cerca eletrônica na fronteira com o Iraque há alguns anos, com o objetivo de impedir a entrada de militantes do país vizinho. O contrabando de armas e drogas na fronteira preocupa as autoridades sauditas há anos, principalmente na fronteira com o Iêmen. Com o fortalecimento da rede terrorista Al Qaeda nos últimos anos, o governo saudita acredita que a maior parte das armas usadas por militantes dentro do país vêm do Iêmen, terra ancestral de Osama bin Laden e onde seus simpatizantes teriam estabelecido um reduto.

Em Arábia Saudita vai construir cerca para fechar fronteira


--

Onde estão agora os militantes de internet que jorram mensagens de repúdio ao muro construído por Israel na fronteira com o território palestino de Gaza? Ou aqueles mesmos militantes que inundam nossas contas de e-mail quando se trata de criticar o governo americano passado pela construção de um muro na fronteira mexicana?

É sempre a mesma velha história: dois pesos e duas medidas.


Monday, February 16, 2009

O retorno das ferrovias




Foto: Sgt. Mike Brantley
Uma locomotiva puxa 20 vagões e 40 containers vazios e se prepara para sair de Camp Taji em 10 de fevereiro. Serão dois dias de viagem até a cidade portuária de Umm Qasr. Foi a primeira vez em cinco anos que este transporte de carga retornou.


Fonte:

http://www.mnf-iraq.com/index.php?option=com_gallery2&Itemid=99999999&g2_itemId=7551

Saturday, January 31, 2009

Guerra de Propaganda

Texto rico e interessante sobre a mídia na guerra e a chamada “guerra psicológica” comparando os casos do Pós-Guerra na Alemanha com o Iraque:
Ou seja, faltou a boa e velha Realpolitik aos neocons. Ou, em outras palavras, como disse Winston Churchill "A verdade é um bem tão precioso que, às vezes, precisa ser protegida por uma escolta de mentiras".

Saturday, January 03, 2009

Paralelismos: Rússia e Iraque


Mesmo tipo de argumento que Saddam Hussein se utilizou para invadir o Kuwait na década de 90...


02-01-2009 Política
Rusia acusa a Ucrania de robar gas a
Europa


Según la rusa Gazprom, se trataría de volúmenes pequeños. Sin embargo, Moscú no toleraría que se repitieran las interrupciones de suministro a la UE ocurridas en 2006.

por Reuters

Moscú/Kiev. Rusia acusó el viernes a Ucrania de robar gas destinado al resto de Europa, un día después de que Moscú cortó el suministro a su vecino por una disputa sobre contratos de abastecimiento.

Los volúmenes que Ucrania está desviando son pequeños, según el monopolio ruso Gazprom, pero la acusación sugiere que Moscú no está dispuesto a que se repita la disputa del 2006 que provocó interrupciones de suministro a la Unión Europea (UE).

Gazprom dijo que estaba respondiendo a las acciones de Ucrania aumentando las exportaciones a través de rutas alternativas como Bielorrusia. Firmas de energía europeas dijeron que no habían observado bajas en el suministro.

"La parte ucraniana admite abiertamente que está robando gas y no está avergonzada de eso", dijo el portavoz de Gazprom, Sergei Kupriyanov.


(...)


Mais em
http://www.americaeconomia.com/199956-Rusia-acusa-a-Ucrania-de-robar-gas-a-Europa.note.aspx#

Tuesday, December 23, 2008

Ao vencedor, as batatas



Sem abrir licitação, o Iraque deverá fechar contratos para a exploração de petróleo com quatro empresas internacionais, a americana Exxon Mobil, a anglo-holandesa Shell, a francesa Total e a britânica BP.
O "New York Times", que traz a informação, nota que esses quatro gigantes do setor
energético eram os sócios originais da Iraq Petroleum Company, estatizada há 36 anos pela ditadura de Saddam Hussein.
Os contratos, que deverão ser anunciados no próximo dia 30, foram o resultado de cartas-convites do Ministério do Petróleo, cujos responsáveis as quatro empresas assessoram há dois anos, fornecendo gratuitamente treinamento técnico. Foi por essa razão que se dispensou o procedimento de concorrência pública.
Não está clara a motivação que levou o Iraque a excluir 42 outras companhias petrolíferas, entre elas as gigantes da China, índia e Rússia, empenhadas em tarefas semelhantes. O Iraque possui cerca de 80 campos petrolíferos e com eles obtém 89% de suas receitas.
Segundo a Opep (Organização dos Países Exportadores de Petróleo), em 1989, antes que passasse a vigorar o embargo comercial contra o regime de Saddam, o Iraque exportava 2,9 milhões de barris diários, mesmo volume que o Irã e atrás, dentro do cartel, apenas da Arábia Saudita. No ano passado, o país informou estar produzindo 2 milhões de barris ao dia, pretendendo voltar ao patamar de 2,9 milhões em 2010. Há dois anos, últimos dados divulgados, a receita iraquiana foi de US$ 28,8 bilhões.

Aumento da produção
Informantes iraquianos citados pelo "New York Times" dizem que as quatro empresas contratadas permitirão a produção, ao dia, de ao menos 500 mil barris suplementares.
Os contratos com as quatro grandes empresas não esperaram pela aprovação da Lei do Petróleo, hoje emperrada no Parlamento iraquiano. As divergências estão em torno da definição de critérios para distribuir a renda do petróleo pelos governos
regionais.
Os xiitas, ao sul, e os curdos, ao norte, têm a maioria significativa das reservas, deixando desprotegidos os sunitas, que formavam a elite civil e militar do regime deposto pelos Estados Unidos em 2003. As quatro companhias obterão os chamados "no-bid contracts", ou contratos sem licitação, que os governos em geral assinam com empresas que são as únicas capacitadas a fornecer certo tipo de produto ou serviços. Não é o caso das quatro petrolíferas favorecidas.
Elas não terão a concessão a longo prazo para a exploração das reservas. Serão contratadas por dois anos como prestadoras de serviço. A renda do óleo extraído será do governo. Mas os quatro grupos, pelos investimentos a serem feitos, estarão em condições privilegiadas no momento em que a Lei do Petróleo, quando aprovada, fixar as normas de concorrência.
Comentando a informação, o blogueiro Daniel Altman, especialista em globalização, notou a falta de critérios para que fossem escolhidas essas empresas. Mas ele também diz que, mesmo por um período relativamente curto, o equipamento a ser investido precisará de proteção. Foi por não consegui-la que a Shell abandonou um campo de 200 mil barris ao dia que explorava na Nigéria.

Iraque distribui sem concorrência licença de petróleo
Data: 20/06/2008 - Fonte: Folha de SP


Qual deveria ser o procedimento de contratação de empresa petrolífera se não havia lei para licitação? Ou havia tal lei?

Se as companhias formavam um consórcio, cuja estatização (roubo) ocorreu no governo de Saddam, não é justo (do ponto de vista de quem ganhou a guerra) que recebam uma forma de ressarcimento ou indenização por danos sofridos pelo governo que caiu?

China, Índia e Rússia apoiaram a guerra ao Iraque? Se não, não têm do que chiar. A guerra tem custos. Assim como qualquer negócio, a guerra tem custos necessários se alguém acha que pode lucrar com ela. Só o que falta é abrir as portas para quem, justo, criticou a coalizão que fez tudo sozinha. Só o que falta é legitimar “caronas” como chineses, indianos e russos.

Se a matéria pretendeu criticar o embargo, comete um rotundo equívoco. O embargo (governo Clinton) foi adotado como medida paliativa para pressionar o governo de Saddam ao invés de uma ação mais enérgica. Tem que se decidir, ou a guerra ou o embargo e este não estava sendo eficaz devido ao programa da ONU – Óleo por Comida – que permitia o contrabando pela fronteira jordaniana.

Se os governos regionais estão divergindo, ao ponto de emperrar a aprovação da lei, as empresas têm que fazer algo mesmo: do contrário, a economia iraquiana padece.

Sim, os curdos e os xiitas detêm maiores reservas, mas, a reportagem erra, pois os sunitas também têm (embora menos) e não é pouco:



Veja vários campos “em produção” (azuis) no centro do país, a área sunita.

Isto, no entanto, é muitíssimo mais justo que a situação pretérita, na qual os lucros apenas iam para os sunitas, etnia de Saddam. Curdos e xiitas eram freqüentes alvos de limpeza étnica.

Como as companhias citadas sem capacidade de prestar certos serviços ou produtos (não citados, apenas aventados... imaginariamente na reportagem) estariam em condições vantajosas com a promulgação de uma lei de concorrência se a própria matéria diz que as empresas citadas não se enquadram dentro da situação de prestadoras capacitadas? Se uma futura lei for aprovada, como executarão os serviços (não descritos)? Algo não fecha e a matéria não explica, apenas acusa.

Como uma reportagem tão fraca da Falha de São Paulo com opinião de um “blogueiro (sic) especialista em globalização” pode ter coerência em acusar privilégios corporativos de empresas incapazes de garantir a segurança (caso da Shell), enquanto que esta mesma segurança é feita diretamente pelo Exército dos EUA?!

Os documentos do Deptº de Defesa dos EUA[1] descrevem as operações, inclusive os dispositivos de segurança, que já estão garantidos.



[1] Em http://www.mnf-iraq.com/images/CGs_Messages/strategic_framework_agreement.pdf , Seção I: Princípios de Cooperação; Seção V: Cooperação Econômica e Energética; Seção VI: Cooperação Ambiental e de Saúde; dentre outros.
Em
http://www.mnf-iraq.com/images/CGs_Messages/security_agreement.pdf , Artigo 5: Propriedade Comum; Artigo 6: Acordos sobre Instalações e Áreas; Artigo 8: Proteção Ambiental; Artigo 12: Jurisdição; Artigo 15: Importação e Exportação; Artigo 16: Taxas; Artigo 17: Licenças ou Autorizações; Artigo 20: Moeda e Câmbio; Artigo 30: Período de Efetividade do Acordo; dentre outros.

Saturday, December 20, 2008

O que significa a vitória?




Áreas jihadistas no Afeganistão e fronteira paquistanesa.
Se o sentido de ‘sucesso’ puder ser relativizado, então a "derrota americana" em suas recentes operações no Afeganistão e no Iraque não são o que parecem. Depois do ataque ao Afeganistão, a Aliança do Norte retomou áreas que estavam sob domínio talebã, embora se diga que esta esteja “ganhando terreno” agora. E a idéia que temos de ‘domínio’ não se aplica ao Afeganistão. Mesmo quando os Talebãs não tinham sido derrubados, sua perpetuação dependia de acordos com líderes tribais. Por exemplo: o esporte nacional (pólo com um crânio inimigo) não fora abolido, apesar da determinação da política moral talebã. Se insistissem nisto, as tribos se revoltariam. Trata-se de um “domínio relativo”, ceder para ganhar.

Agora, me diga: se relativizamos para entender o que ocorre com estes grupos e situações, por que nos soa estranho fazer o mesmo com os ‘imperialistas’? Por que vitórias parciais e avanços de terreno não são compreendidos como ‘sucesso’ no cômputo final?

Não será por que:

1) Superestimamos o poder imperial?
2) Ou lhe cobramos maior eficácia? (Porque ainda o superestimamos...)
3) Ou porque não toleramos a idéia de que, ao final das contas, ganhem mais uma vez?

O que temos no fundo é uma análise assimétrica para quem julgamos. Para uma Talebã somos misericordiosos no cálculo de suas investidas. Qualquer ação, por mais pífia ou performática que seja rende exageros na conclusão; já para os EUA, mesmo que dominem a maior parte do Afeganistão (construindo rotas de abastecimento, instalando acampamentos, impondo lideranças aliadas, influenciando em governos vizinhos como o do Paquistão etc.), tudo parece ‘pouco’ por que não é tudo!

Podemos dizer que “os EUA perderam” por que seu investimento de alto custo não tem trazido os benefícios esperados? Mas, alguém aqui sabe exatamente quais são estes? Já fizeram uma análise apurada e equilibrada destes?

Quanto ao Iraque, eu acho que a realidade já mostra que:

1) Ganharam a guerra;
2) Instalaram uma cúpula de aliados;
3) Estabeleceram vínculos econômicos (empresas de extração) no norte curdo;
4) Diminuíram substancialmente o número de insurgências e ataques das hostes inimigas;
5) Baixaram a virulência do apoio iraniano aos xiitas do sul (em parte devido a este benfazeja crise que reduziu a demanda por petróleo) etc. Tanto que Ahmadinejad voltou à mesa de negociações e não se posicionou favoravelmente a invasão russa na Geórgia (que pode ser um problema bem maior a Teerã).

Há maneiras e maneiras de avaliarmos “quem ganhou”. Agora, se nos basearmos em que uma crítica (e oposicionista) mídia diz, a administração Bush saiu derrotada.

Num certo sentido, a claque de Bush perdeu mesmo: nas eleições presidenciais americanas. Mas, é só uma questão de tempo para vermos que Barack Hussein Obama também ‘perderá’ ao rasgar sua retórica pacifista e responder a crises como a que foi deflagrada em Mumbai, dentre outras.

Perde a ingenuidade e vence a realidade. Neocons e críticos da guerra perderão para dar lugar ao eterno retorno do interesse de estado.

Tuesday, August 19, 2008

¿Por qué no te callas, Wallerstein?

A al-Qaeda perde força após os ataques de 11 de setembro e os EUA intensificam suas ações na fronteira entre o Afeganistão e o Paquistão. Com isto, as ameaças terroristas nos EUA diminuem. A liderança dos EUA entre os estados sunitas continua, não apenas devido à pressão ao Irã.

Mas, como dizem não existe almoço grátis...

As diversas operações militares americanas no Oriente Médio têm tido um enorme custo para o Pentágono. Claro que o tipo de análise tendenciosa a la Immanuel Wallerstein de que “os EUA não são uma superpotência” ou “estão em rota de decadência” (ignorando de que se não são uma ‘superpotência’ não tem ‘o que decair’...) não corresponde a uma correta avaliação estratégica: quanto mais operações se distribuem no globo, menor o estoque e capacidade logística para outras tantas operações.

...

Números

As Brigadas-Time de Combate (BCT, na sigla em inglês) americanas variam entre as 2.500 a 4.500 soldados, incluindo sua estrutura de apoio (tanques, humvees etc). Isto pode variar de acordo com o terreno. Enquanto que no Iraque bastam infantaria e tanques, no Afeganistão dada a irregularidade do relevo, os helicópteros são essenciais. As unidades atuais têm prazo de vigência para mais de quatro anos. São unidades leves capazes de se deslocar rapidamente para missões de paz ou contra-insurgência. Estas forças modulares são preparadas para a luta auto-suficiente frente ao oponente com armamento convencional. Esta padronização avança rapidamente no Iraque.

Em 2004 havia 33 brigadas convencionais e hoje, 42 do tipo modular descrito (BCT). A idéia é substituir completamente as tropas no Iraque até 2010, para um total de 547.000 soldados. Sim, vocês leram direito, mais de meio milhão de soldados no Iraque. Provavelmente, o desemprego nos EUA irá reduzir... Serão 48 BCTs, mais 28 de reserva.

As tropas atuais estão voltando de um ano de atividade (pouco mais de 15 meses se contabilizarmos seu treino a partir de janeiro de 2007). O Pentágono disponibilizará, gradativamente, uma BCT de reserva a cada cinco anos. Enquanto isto, as “unidades pesadas” ainda continuarão a ser utilizadas.

Já os marines têm atuação diferenciada, estão habilitados para combates pesados, centrados na atuação de regimentos de infantaria. Como não são pensados para atuar isoladamente, precisam de elementos de apoio para equivaler funcionalmente a uma BCT. Normalmente, marines trabalham com oito regimentos e mais três de reserva. Sua expansão, apoiada por estrutura de apoio, está prevista para 2011.

Não se incluem nesta consideração, as forças especiais. Atualmente, o Comando de Operações Especiais (SOC, na sigla em inglês) são os mais ocupados. Apesar de extremamente versáteis, sua substituição é bastante complicada, dada sua natureza de elite.

Hoje, Washington dispõe de 50 BCTs ativos e 31 de reserva. Mas, como as reservas não são automaticamente incorporadas, convém considerar que cada cinco BCTs (em preparo) equivalem a uma realmente disponível. Na prática, são 56 BCTs de pronta disposição.

O custo de adaptação envolve três brigadas convencionais para cada BCT. Isto representa um custo imenso. E estas brigadas modificadas passarão de 15 para 45 no Iraque.

Para se ter uma idéia da importância do cenário iraquiano, esta reestruturação não se aplicará à Coréia do Sul; na Alemanha há duas BCTs permanentemente instaladas, cujo retorno está previsto para 2012 a 2013; na Bósnia e Kosovo há menos de uma estacionada; no Japão, os batalhões de marines podem variar de um para dois; devido ao contexto regional, leia-se Coréia do Norte, as tropas deverão aumentar de Okinawa a Guam.

Resumindo, 45 BCTs para o Iraque, 7,5 para o Afeganistão e umas seis para o resto (exclusive, a Alemanha). Qualquer anúncio de redução de tropas no Iraque não parece corresponder à realidade, mas sim um rearranjo global. Cabe lembrar que forças mais pesadas já são disponibilizadas pela Otan, que não entrou nesta avaliação. Falamos apenas das forças, exclusivamente, americanas.

A dinâmica das operações no Iraque não irá arrefecer. Pelo contrário, tudo indica seu recrudescimento. Exceto, se alguém for tolo suficiente para achar que a Casa Branca joga ao sabor dos ventos da opinião de Wallersteins da vida...

...

A presença mundial americana não será reduzida, apenas passará por rearranjos.

Lembre-se, uma águia não tem somente garras poderosas. Sua visão é seu maior trunfo.

Gritem “festa” na janela do tempo...*

Sunday, July 20, 2008

Obama e o Afeganistão

Quem achou que a mudança de administração no governo americano seria igualmente uma significativa mudança em sua política externa?


"O provável candidato democrata à Presidência dos Estados Unidos, Barack Obama, disse hoje que é necessário enviar mais tropas americanas ao Afeganistão para intensificar a luta contra a Al Qaeda e os talibãs."
Obama diz que Afeganistão precisa de mais tropas americanas, http://g1.globo.com/

Saturday, June 14, 2008

A paz que vem do subsolo





A Conferencia Inter-religiosa na Arábia Saudita, dia 4 mostrou quão dividido é o mundo islâmico atual. Acusações dos xiitas do Irã e Hezbollah contra os sunitas de “fingirem hostilidade aos EUA” estão entre algumas de suas manifestações. Pois, há que considerar que a rivalidade entre sunitas e xiitas força os primeiros a um alinhamento com os EUA – através da possibilidade de defesa militar mesmo – contra a centralização e força dos segundos no governo iraniano. Internamente, os lideres religiosos sunitas na Arábia Saudita consideram a al-Qaeda uma ameaça nem tanto por razoes teológicas, mas pelo “internacionalismo” do agrupamento religioso que põe em cheque a estabilidade regional dessas lideranças. No meio disto tudo, o dinheiro saudita é o meio de comprar a união religiosa entre os conservadores sunitas, o que faz com que se reduza sua oposição ao “ecumenismo islâmico” de Riyadh. Um complicador adicional reside no Irã que não tem se beneficiado da alta do petróleo como os sauditas restando aos aiatolás o reforço ao financiamento de atividades xiitas no Líbano e da insuflação do Hezbollah.

Se há temor de uma guerra também há o desejo de que a situação favorável do petróleo dure com os US$ 130,00 por barril. Os sauditas sabem que isto não é permanente, só não sabem por quanto tempo ficarão lucrando assim. Se a situação de tensão com o Irã parece insustentável para manter tamanha lucratividade, as tensões têm que ser urgentemente afastadas, nem que seja com uma retórica diplomática religiosa unionista.

O aparente paradoxo dos sauditas reside na manutenção de seu alinhamento defensivo com os EUA ao mesmo tempo em que promovem uma união islâmica. A política saudita parece, portanto, ambígua. Internamente, buscam acalmar os ânimos conservadores antixiitas e contrários ao líder religioso Rafsanjani do Irã e, externamente, apóiam os grupos opositores do Hezbollah. Enquanto o Irã não desafiar os interesses de Riyadh com os lucros do petróleo, o que levaria a acionar o “gatilho yankee”, pode se deixar o país dos aiatolás em “banho-maria”.

Entre os planos de pacificação da região estão o envio de recursos à Síria e ao Líbano. Juntamente, com a Turquia, a Arábia Saudita busca uma estabilidade regional. Os sauditas também encorajam acordos entre israelenses e palestinos – o que pode, indiretamente, favorecer Damasco –, assim como há suspeitas de que estejam exercendo pressão sobre o Hamas. Não há nenhum interesse saudita no desequilíbrio e instabilidade entre Síria e Hezbollah com Israel.

Mas, sua estratégia pacificadora não reside apenas na manutenção de forças estabelecidas: cabe evitar ou eliminar que outras surjam... Os sauditas não querem ver o aumento de poder xiita no Iraque e marginalização dos sunitas no país. Assim como também não é bem vindo, o aumento da hegemonia da al-Qaeda entre os iraquianos. A partir de 2003 com exceção da região curda, o Iraque perdeu muito dinheiro devido à redução da exploração petrolífera e neste ponto é que entra a influencia e apoio saudita. Este súbito interesse pacificador saudita para assegurar a estabilidade regional implica em um reposicionamento em relação à política externa americana, o controle dos seus conservadores religiosos sunitas e uma relação de dissuasão com os xiitas iranianos.

Neste contexto de “diálogo inter-religioso”, cujos interesses por certo não são teológicos, é que tem que se entender a visita do presidente egípcio, Hosni Mubarak a Arábia Saudita na semana que passou. E não é de hoje que o Hamas tem no Sinai uma base de operações logísticas para ataques a Israel... Recentemente, dois egípcios, dois palestinos e um beduíno foram presos por carregarem artefatos militares pelo deserto e, após ser encontrado um esconderijo de mísseis terra-ar no Sinai, Mubarak sinalizou com seu interesse nos acordos de paz entre israelenses e palestinos. Cabe a ele evitar que o radicalismo do Hamas não se estenda ao Egito e permaneça retido na Faixa de Gaza. Com certeza, egípcios e sauditas têm muito a discutir.

Não se trata de um novo alvorecer no Oriente Médio, mas se as negociações de paz através do dialogo inter-religioso não tem suficiente poder, o óleo sim. Se uma paz duradoura e desejável não é possível, ao menos uma maior estabilidade pode durar tanto quanto verter o dinheiro do subsolo.

Friday, May 23, 2008

Jogo sírio - 2


Em que pese também o dissenso interno aos sírios, por razões complexas (proximidade étnica, oposição aos EUA e Israel), a Síria apoiou os sunitas na Guerra do Iraque. Se o fundamentalismo sunita se opõe ao secularismo alauita, um fundamentalismo oportunista capitaneado por Damasco seria uma alternativa razoável frente à composição de forças em curso. E aos EUA caberá forçar os sírios a sair do Líbano.

Após os equívocos de Israel no Líbano, os sírios têm se tornado a força dominante no país. A Síria por seu turno criou uma estrutura que estabiliza os arroubos de violência no Líbano, controlando o Hezbollah em seus ataques contra seus aliados no Líbano (muitos dos quais, se opõem ao Hezbollah) e a própria Israel.

Por mais paradoxal que possa parecer, a presença síria no Líbano garante uma estabilidade à Israel e os israelenses não querem a destituição do regime Assad. Ruim com eles, pior sem eles é o que passa na mente dos israelenses. A presença síria no Líbano, apesar de incômoda, é uma garantia a mais pela estabilidade do país. Sim, Israel deseja, sobretudo, o controle do Hezbollah.

Aqui temos, então, um ponto de tensão entre Israel e os EUA, especialmente difícil de entender para aqueles que vêem uma “ligação carnal” entre os dois países, uma dependência e comunhão total de propósitos, o que não passa de mito. Os EUA, por sua vez, preparam-se para punir os Assad por sua interferência no Iraque, o que trará mais instabilidade política à região. Mas, o real perigo na região reside numa possível sucessão síria com fundamentalistas sunitas, uma vez que Damasco os ajudou. Aí é que está o problema.

Para os turcos, este arranjo informal entre Israel e Síria é fraco. Não é a primeira vez que Israel adota esta política. Aliás, já fez o mesmo com o Egito e a Jordânia... No caso específico da Síria, não há como suportar a pressão americana. Para os turcos, o reestabelecimento das antigas tensões é que é desejável. E, novamente outro paradoxo aparente, junto aos EUA contra esta configuração de poder está o Hezbollah e o Irã!

Os EUA vêem a Síria como fator de instabilidade regional, cujo currículo no Líbano a condena. Chutar os Assad poderia ser, militarmente, fácil para Washington, mas os avisos sauditas aos americanos têm que ser, atentamente, levados em consideração... Os lucros do petróleo no Iraque passam, atualmente, pelos sunitas. Por isto, não convém desagradar, mesmo que indiretamente, estes novos sócios.

Apesar da Arábia Saudita, desde os 70, ter os sírios como inimigos e verdadeiro pavor da política iraniana e seu apoio ao Hezbollah, não acredita no controle dos xiitas por Damasco. Mais precisamente, os sauditas acreditam que os sírios controlem o Hezbollah contra Israel, mas não conseguem o mesmo contra os sauditas e demais sunitas. E Washington tem que dançar entre os interesses israelenses e a hostilidade saudita para com Damasco. Não pode se errar o passo, embora haja uma tendência predominante em Washington por “vingar” o governo de Bagdá contra o apoio sírio às milícias sunitas no Iraque.

“Vingança”, como redução de poder de um vizinho inconveniente, bem entendido. Afinal, vingança por vingança não traz poder.

Chega-se, ironicamente, em uma convergência de interesses de Washington, Teerã e o Hezbollah contra Damasco. Quem diria? No entanto, apesar do crescimento da força do Hezbollah sob o dissenso estratégico, ele não consegue se estabelecer como força política convencional e alternativa. Para os sírios, ele é conveniente para ser liberado como cão de guarda no momento oportuno. E, quando este momento chegar, romper as amarras que o prendem a Damasco também jorrará sangue.

Para caminhar nesta selva, urge que acordos com Teerã sejam formados antes que o Hezbollah possa se tornar independente do apoio sírio. Mesmo porque, hoje, o apoio de Teerã ao Hezbollah, passa por Damasco, apesar de todas suas diferenças ideológicas. Depois, para Washington ficará mais fácil jogar com Damasco e Teerã. De preferência, um contra o outro.

Friday, April 11, 2008

McCain e o Iraque




O candidato Republicanos à candidato à presidência dos EUA, senador John McCain faz campanha em sentido diametralmente oposto a seus rivais Democratas, os senadores Hillary Rodham Clinton e Barak Obama que discutem a retirada das tropas do Iraque.


Em suas palavras:



"If someone is about to launch a weapon that would devastate America, or have the capability to do so, obviously, you would have to act immediately in defense of this nation's national security interests."


Sunday, December 16, 2007

Estratégia contra os curdos

Segundo a BBC, os turcos atacaram os curdos do PKK (Partido Trabalhista Curdo) no norte do Iraque com o apoio dos EUA. A questão que me chama a atenção é que o Curdistão também tem o apoio dos EUA, bem como de outro países como o Canadá para a exploração de petróleo. Do que se deduz então, que o ataque aos curdos em questão favorece outros, provavelmente de partidos rivais. Ainda mais se levarmos em consideração que o PKK é um partido com idéias socialistas, a opção por outras vertentes fica mais fácil de entender.


Mas, para além das ideologias, há que se considerar que o PKK desestabilizava a fronteira norte do Iraque, ao adotar uma política claramente sececcionista no território turco (os curdos na região também se espalham pela Turquia). O norte do Iraque que é ocupado pelas forças americanas também se constitui numa de suas poucas áreas de maior estabilidade, bem como o fato de que a Turquia é aliada da OTAN. Neste sentido, apoiar a Turquia numa ação menor e mais rápida significa também dissipar o temor de um ataque maciço que poderia unir curdos contra invasores por terra. E, conseqüentemente, favorecer conflitos em cascata com sunitas ao sul, ansiosos por meter a mão no óleo dos curdos.


Portanto, nunca é demais lembrar que o que acontece naqueles pagos pode prescindir dos efeitos de uma guerra religiosa, como aventam analistas dominados pela idéia de 'guerras santas'. Se ao grosso da população esta idéia pode parecer sedutora, seus generais têm ambições menos etéreas e muito mais estratégicas.

Monday, October 22, 2007

Turcos vs. Curdos vs. Curdos


"A guerra educa os sentidos, concita a vontade para a ação, aperfeiçoa a constituição física."
- Emerson, Miscellanies: War.

Apesar das diferenças entre o Governo Regional Curdo (KRG) e o Partido dos Trabalhadores Curdos (PKK) é do interesse do primeiro manter o PKK contra os turcos preservando assim seus interesses no óleo regional, bem como os investimentos externos.

21 de outubro passado, rebeldes curdos mataram 17 soldados turcos. Com a promessa de um cessar-fogo no dia 22, o PKK conseguiu conter uma incursão turca, ao menos temporariamente. Se a Turquia esperava uma justificativa para a invasão, agora ela a tem. A Turquia tem enorme interesse em arrefecer os ânimos autonomistas do Curdistão, especialmente agora que influxos de investimentos externos têm criado a base para seu fortalecimento. Os planos de Ancara visam criar uma “zona tampão” que assegure a fronteira turca de possíveis entradas inimigas.

Para atingir seu intento, os turcos pretendem insuflar ainda mais o divisionismo interno curdo, especialmente entre dois partidos, a União Patriótica do Curdistão (PUK) de Talabani, que controla o Curdistão no sudeste iraquiano e o Partido Democrático do Curdistão (KDP) de Barzani, que controla o noroeste.

O núcleo da região curda compreende as montanhas entre a Turquia, Irã, Síria e Iraque defendendo sua etnia de uma ocupação e integração, mas que através dos séculos também ajudou a fomentar profundas rivalidades internas. Uma guerra civil envolvendo o PUK e o KDP já ocorreu em 1994. E o Partido Democrático (KDP) já apoiou o ataque turco contra o PKK em 1997, assim como a União Patriótica (PUK) recebeu alguma ajuda do Irã para lutar contra o KDP durante a Guerra Civil Curda.

Com um espírito de união desses, não é à toa que Ancara e Bagdá (nos tempos de Saddam Hussein) tenham tirado vantagens no afã de consolidar seus projetos hegemônicos ao norte e ao sul, respectivamente. Os líderes Talabani do PUK e Barzani do KDP mantiveram uma aliança conjuntural apenas por ocasião da invasão americana no Iraque para maximizarem seus benefícios. Foi a partir de então que companhias americanas e canadenses, principalmente, sentiram o terreno propício a suas incursões para o desgosto turco. E lembremos que a Turquia é uma tradicional aliada da OTAN...

No entanto, todo investimento externo é bem dividido entre o PUK e o KDP, o que revela uma frágil união entre Talabani e Barzani. Não há, portanto, um esteio econômico comum... Ancara sabe disto e não vacilará em explorar a diferença deles. Além disto, Kirkuk é uma cidade-pólo para o Curdistão, da qual tanto um quanto outro a disputam como legítimos líderes. Por trás disto tudo, a Turquia se concentra em quebrar a unidade que o Governo Regional (KRG) almeja. Ao final das contas ou a Turquia invade o Curdistão impondo um regime de força ou explora alianças regionais com Talabani, visto como mais pragmático contra Barzani, um típico guerrilheiro tribal. Com 74 anos de idade, este talvez seja o coringa que resta na manga de Talabani...

Baseado em Iraq: New Strategies. May 17, 2004 23 59 GMT. By George Friedman – www.stratfor.com

Friday, October 05, 2007

Óleo curdo e xadrez iraquiano


Há muitos movimentos separatistas no Iraque, mas a questão central no país vincula-se ao petróleo, como não poderia deixar de ser. Os curdos, ao norte, estão se preparando para desenvolver a extração de modo independente a Bagdá. O ministro do petróleo iraquiano afirmou ser inconstitucional a estratégia do Governo Regional Curdo (KRG) que já assinou acordos com companhias canadenses e americanas. Mas, o investimento destas dará autonomia e capacidade de resistir à pressão de Bagdá. Apesar da retórica de Washington em prol de um Iraque federado e unido, enquanto a questão envolvendo a partilha do petróleo não estiver resolvida, o país não disporá de força nem capacidade de unificação real.

Graças à aliança entre curdos e governo americano desde os anos 90, a relação entre os dois tem sido favorável. Se os EUA quisessem mesmo, eles poderiam boicotar o plano autonomista do governo regional quanto à exploração petrolífera. Talvez não queiram...

A posição curda parece ir contra os interesses sunitas, mas não porque estes controlem o petróleo iraquiano. Na verdade, a administração da produção no Iraque sequer é centralizada por eles. O maior complicador, no entanto, não se encontra em Bagdá, mas mais ao sul. São os xiitas que tendem a querer o controle sobre os campos de hidrocarbonetos meridionais. Se os curdos atingirem seu intento, se abrirá um precedente perigoso ao poder central iraquiano (em região sunita), pois os xiitas, provavelmente, também irão querer sua independência administrativa e “autonomia federativa” aí não passa de um pobre eufemismo: é a base histórica para um separatismo de fato.

Pode se tentar argumentar que a autonomia federativa é o melhor caminho... Sempre é, mas ao adotar este modelo antes de uma partilha regional do petróleo, o custo político regional pode ser muito maior do que se pretende como benefício. Dividindo o Iraque em três secções, o norte sob controle curdo, o centro com os sunitas e o sul com o tacão xiita temos mais “externalidades” que poderia compensar a empreitada. A Turquia incorpora parte do que se convencionou chamar “Curdistão” e, não há compensação alguma em agradar curdos se indispondo com uma velha aliada da OTAN. Com o mundo muçulmano em sua cola, os EUA não vão querer criar outro foco de antiamericanismo naquele país de suma importância estratégica e seus mais de 70 milhões de habitantes; os sunitas perderiam muito com a dispersão e autonomia das regiões petrolíferas ao sul e ao norte. Neste rearranjo geopolítico, Bagdá sairá perdedora, deixando de lucrar com o projeto autonomista; os xiitas tendem a se aproximar do vizinho Irã, também xiita. E, o que é mais grave, fazendo fronteira com os sauditas, que são os principais fornecedores de petróleo aos EUA. Este cenário de um Iraque dividido, com uma federação capenga beneficiaria mais ao Irã do que o domínio sobre um Iraque unido. A aliança com uma região simpática, o sul xiita, lhe imporia menos sacrifícios (e gastos) do que um domínio ou ocupação mais extensa. E, com o bônus, de conseguir uma “estrada” de livre acesso a possíveis e futuras incursões à Península Arábica.

O melhor para a política americana é não se meter em acrobacias diplomáticas para formatar uma outra arquitetura política regional. Quanto ao petróleo, o melhor também é deixar que os negócios sigam seu curso natural dando o tom para futuras estratégias, sem dirigismo nem obstrução por Washington.

(Baseado em The Kurdish Oil Reality, http://www.stratfor.com/ )

Wednesday, October 03, 2007

Ataque aos aiatolás


No artigo Russian Roulette on Iran, Michael Rubin sugere uma aliança da Rússia com o Irã, ao mesmo tempo em que considera sua “venalidade”. Ora! Ou é um ou é outro... “Aliança” para combater os EUA não é o objetivo, mas um meio necessário na atual estratégia russa. Se amanhã ou depois, o mercado guinar para outra região, Moscou abandona Teerã e Damasco com a mesma desfaçatez que hoje adota sua flexibilidade para tratar os inimigos de Washington. Russos querem a farinha para o seu pirão primeiro. Claro que nem se importam se os EUA foram atacados e fizeram acordos com Teerã menos de um mês após o 11 de Setembro. Mas, este é um argumento sentimental... O que tem a ver os aiatolás com a al Qaeda e os talebãs? Para estes, o verdadeiro islamismo é o da facção waabita de bin Laden. Querer colocar tudo no mesmo saco é o primeiro passo para não saber contra quem se luta. Se os EUA têm oposição ao Irã (e por certo que têm) deve ser diferenciado de quem perpetrou o atentado ao país. As estratégias podem até se combinar num segundo momento, mas não têm a mesma origem contra as mesmas causas. Em primeiro lugar, a verdade.

Falar em “realismo” soa infantil. Toda estratégia de estado desde antes de Maquiavel é isto mesmo. Raras exceções, como a influência neocon na política externa, não dão resultados. Vide a substituição de Rumsfeld por Gates... Idealismo neste caso não vem desacompanhado de “externalidades” para lá de negativas. Acredito na necessidade (e ação) de defesa americana. Disto, não tenho dúvidas, mas dizer ou insinuar ingenuidade de Bush e Rice é como se tivéssemos, arrogantemente, mais conhecimento do que eles do que se passa nos corredores do Pentágono. No Entre-Guerras, Nicholas Spykman já definira para séculos adiante o que seria a realpolitik americana ao influenciar o país e colocar uma pá de cal no “isolacionismo” que previa a defesa do Hemisfério Ocidental e a concretização da “fortaleza americana” com suas garras retraídas.

Parece óbvio que a Rússia sempre colocará seus interesses nacionais (de mercado bélico, inclusive) em primeiro lugar. O mesmo se dá com os próprios EUA no tocante à questão energética (e eles têm sua razão) que são sua força e fraqueza concomitantes. Como o texto deixa claro no segundo parágrafo, a escassez de petróleo é benfazeja para os russos. Enfraquece a economia americana e mais, coloca a Rússia como provedora alternativa devido a suas enormes reservas ainda com grande potencial de prospecção. Por isto mesmo, o avanço da OTAN no Leste Europeu tem que ser comemorado e incentivado. Tu me alimentas, mas tenho uma faca na tua garganta...

...

Não tenho idéia de como seria um conflito entre EUA e Irã. A começar pela população iraniana, muito maior que a iraquiana e, até onde sei, não tão dividida internamente na maior parte do território.

Mesmo que os EUA tenham capacidade para um ataque massivo, a questão é outra. Vale a pena? Valeu ter invadido o Iraque? Quanto a este último há analistas que rejeitavam a guerra, mas admitem que uma desocupação, eufemismo para fuga, só pioraria tudo. E, de mais a mais, capacidade tecnológica não é tudo, quanto custaria uma "brincadeira" dessas?
Por isto sou levado a crer que se ocorresse um conflito de maior envergadura, ele não seria uma ocupação terrestre tal como o Iraque, mas um ataque aéreo intenso com apoio de aliados em terra como o foi no Afeganistão. A questão, no entanto, é saber quem faria o papel de "Aliança do Norte", como ocorreu no Afeganistão contra o Talebã? O dividido Paquistão? Russos? Se a Rússia entrasse em tal conflito, qual seria o papel da China? Esta, com certeza vai chiar... Se a guerra interessaria à Europa, ou melhor, França e Alemanha, estas não têm culhões para arcar com os custos da mesma. Esta tarefa eles deixam aos americanos para depois, como é de seu caráter, criticá-los também.
Se Israel entra, acabaria por atiçar mais os ânimos regionais. No curto prazo, um prolongado ataque aéreo a partir do Golfo seria uma alternativa viável e, no médio prazo atiçar, de alguma forma (e não sei como se daria isto) os árabes contra os persas explorando, maquiavelicamente, as diferenças entre sunitas e xiitas. Ou seja, mesmo que se obtenha algum resultado positivo disto tudo virão "externalidades" bastante indesejáveis, bem como o fomento a uma seqüência decorrente de guerras menores. No geral, uma grande droga.
Se a guerra for inviável, eu fico com a opção mais pragmática: atacar instalações militares, com especial destaque para a força aérea iraniana que tem algum peso regional.
Chega desse negócio de se aliar com o fulano que é "menos pior" do que o inimigo conjuntural. Que mostrem as cartas, logo. Claro que isto é mais um desejo do que uma possibilidade.

Monday, October 01, 2007

Guerra ao Irã


É provável que aconteça uma guerra com o Irã. Segundo a matéria do NewsMax, as forças americanas já estariam a postos. De acordo com outra linha de análise, como a faz Wayne White, ex-analista do Deptº de Estado americano para o Oriente Médio, não seria um “ataque cirúrgico”, mas uma guerra de anos. Seria uma guerra com potencial suficiente para obliterar os mísseis balísticos iranianos que podem alvejar embarcações comerciais americanas no Golfo, além de seus submarinos e força aérea. Um ataque israelense ao Irã levaria a uma retaliação vigorosa deste, com conseqüências muito piores do que uma guerra civil iraquiana. Esta, aliás, confinada ao próprio país.

Embora o presidente Bush tenha se esforçado em torno de uma saída diplomática com o Irã, o cálculo estratégico através de uma guerra toma corpo. Esta não é uma preocupação exclusiva da administração Bush, seus aliados no Golfo também têm demonstrado preocupações crescentes com o aumento do poderio bélico iraniano, especialmente no quesito nuclear. Segundo o perito em Oriente Médio, Kenneth Katzman, a posição iraniana não é irreversível, assim como a República Islâmica do Irã apresenta muitas vulnerabilidades capazes de exploração.
A visão que Teerã projeta sobre seu país é de uma “superpotência”, mas os vínculos que mantêm o país unido são fracos. Sua economia, p.ex., é bastante “primitiva” exportando praticamente nada, exceto petróleo. E a própria capacidade de produção de petróleo vem declinando rapidamente. Apesar de não poder prejudicar diretamente os EUA, isto é, em seu próprio território, o Irã se utiliza disto como blefe. No entanto, é mais promissor aos EUA aproveitar seu poder de barganha tanto quanto possível, do que um confronto direto. As negociações devem, portanto, dar prosseguimento.

Monday, September 03, 2007

2ª Guerra do Golfo - 2

Presidente fez viagem surpresa ao Iraque.

A possibilidade de sedimentação de um governo de coalizão em Bagdá é extremamente pequena. O que fazer? Manter a estratégia corrente? O que é mais cômodo, mas não configura uma saída detectável, tampouco um Norte a longo prazo. Ou um cancelamento gradativo? Estratégia endossada pelos democratas centristas e por um número crescente de republicanos. Se, por outro lado, a opção for um rápido e brusco aborto de operações, conseqüências fatais sobrevierão. Todas opções, no entanto, têm conseqüências negativas.


A continuação do atual estado de coisas, sem uma alteração de percurso parece ser a única alternativa que nega, taxativamente, algum insucesso. Como se quisesse provar que há "sucesso" na empreitada. Bush prevê reduzir tropas no Iraque se 'sucesso continuar' é a manchete da BBC. Interpreto-a como "apesar do insucesso, não podemos admitir como tal, sob risco de perdermos mais politicamente". Mas, sair rápido ou lentamente, sem assegurar alguma força em Bagdá significa deixar um vácuo que será, rapidamente, preenchida pelo Irã. O custo da presença americana é de cerca de 1.000 a 2.000 vidas de soldados ao ano, em média. Arcar com isto tem como efeito um outro custo... político. O maior número de forças em terras árabes significa também um enfraquecimento americano em outras regiões do globo. Ficar no Iraque para que milícias jihadistas não tenham chance de evoluir já corrobora a realidade de que há um processo em recrudescimento no país.

Wednesday, August 29, 2007

2ª Guerra do Golfo

A situação no Iraque pode ser entendida como um erro de antecipação ao tentar trazer a democracia a um país que ainda tem vários focos de insurgência e guerrilha. Segundo a análise da Stratfor o governo faria por bem terminar com uma coisa antes de iniciar outra. Se o NIE (National Intelligence Estimate) diz que em quatro anos de guerra, os alvos estratégicos não foram arquivados, isto parece apontar, contrariamente e subliminarmente, para uma vontade e intenção de seu arquivamento. O que parece querer dizer que a segurança nacional iraquiana (se é que esta era um objetivo estratégico) nunca foi uma prioridade.
Stratfor diz que temos que ter cuidado com que a comunidade de inteligência americana diz, mas é difícil crer que os estrategistas arrisquem suas carreiras por uma administração federal que é passageira, lhe restando apenas 18 meses para ir embora.
Por outro lado, temos que avaliar a fraqueza do rival regional. As negociações entre EUA e Irã pelo final da operação militar iraquiana não são, simplesmente, a imposição dos desejos de um dos lados do conflito. Aos americanos incomoda a perspectiva sombria de um buraco negro a drenar recursos do país indefinidamente sem explicitação objetiva do que se deseja com a guerra. Para Teerã, a possibilidade de sucesso americano com um governo pró-sunita (seu rival) no país vizinho é mais ameaçador do que uma pax americana em si.
Já torci pela ação americana no Iraque, mas o atual cenário não parece animar esta perspectiva.