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Monday, December 10, 2012

O colapso da URSS


O Colapso da URSS

Tradução do artigo The Soviet Collapse, de Yegor Gaidar, publicado em 19 de abril de 2007.

O título do meu último livro [N.T. o livro de Yegor Gaidar], que eu gostaria de discutir hoje, pode ser traduzido como "O Colapso de um Império: Lições para a Rússia Moderna"(The Collapse of an Empire: Lessons for Modern Russia) [1]. Ele relata a história dos últimos anos da União Soviética. Mas quando escrevi sobre a URSS, tinha em mente os dilemas da Rússia contemporânea.

Há vários fatores que me fizeram escrever este livro. O primeiro foi o aumento nos preços do petróleo, que em termos reais começaram a se aproximar dos níveis do final da era de Brezhnev. O segundo foi a tendência perturbadora em mitificar o período final da URSS na atual sociedade russa e em sua cultura popular. Estes mitos incluem a crença que, apesar dos problemas, a URSS era uma superpotência mundial dinâmica até que usurpadores iniciaram reformas desastrosas. Ao menos 80% dos russos estão convencidos desta interpretação incorreta da história.

Historicamente tais mitos têm um precedente perigoso: a Alemanha no período entre a Primeira Guerra Mundial e a Segunda Guerra. Na época a lenda dizia que a Alemanha não tinha sido derrotada na guerra, mas "esfaqueada pelas costas" pelos judeus e pelos socialistas. De certo modo, o governo alemão da época tem sua parcela de culpa ao não publicar material sobre o que realmente aconteceu antes e depois da I Guerra Mundial.

Similarmente, o acesso a documentos sobre o colapso soviético está se tornando cada vez mais restrito, mas ainda podemos tornar públicos vários deles que podem explicar corretamente o que aconteceu ao nosso país.

Para ser sincero, eu jamais pensei que o livro -- metade feito de tabelas, gráficos e cópias de documentos oficiais -- pudesse ser um best-seller em meu país. Mas ele é, o que nos dá uma ponta de esperança.

OS GRÃOS

De maneira simplificada, a história do colapso da União Soviética pode ser contada como uma história de grãos e petróleo. Sobre os grãos, o ponto crucial que selou o destino da URSS foi o debate econômico de 1928-29, quando a discussão centrou-se no que mais tarde se chamaria de "Caminho Chinês" de desenvolvimento.

Por uma série de importantes indicadores sociais e econômicos, a URSS daquela época e a China do final dos anos 70 seguiram caminhos semelhantes (Figura 1). Na época, o líder do governo soviético, Aleksei Rykov, e o líder ideológico do Partido Comunista da União Soviética (PCUS), Nikolai Bukharin, defendiam a idéia de um caminho que incluía preservar tanto a agricultura privada quanto o mercado, assegurando estabilidade financeira -- mas mantendo o controle político do partido.
A liderança soviética escolheu outro caminho. A solução preferida por Joseph Stalin foi a desapropriação de terras dos camponeses, a coletivização forçada e a coleta de grãos. Bukharin e Rykov essencialmente disseram: "Num país de camponeses é impossível coletar grãos à força. Haverá guerra civil". Stalin respondeu: "Farei assim mesmo".

O resultado da política agrícola desastrosa implementada entre o final dos anos 20 e o início dos anos 50 foi a maior queda de produtividade experimentada por um grande país no Século XX. O problema-chave enfrentado pela URSS foi bem expressado na carta enviada por Nikita Khrushchev a seus colegas de liderança do partido. A carta dizia: "Nos últimos 15 anos não tivemos aumento na produção de grãos. Enquanto isso, estamos vivendo um aumento radical na população urbana. Como podemos resolver esse problema?"

Mais uma vez, discussões sérias surgiram entre os líderes soviéticos no início dos anos 1950, resultando em duas posições. A primeira era tentar melhorar a situação nas regiões agrícolas fora do fértil "Cinturão de Solo Negro", ao sul da Rússia. A outra idéia era resolver o problema usando o sistema de planejamento socialista: grandes projetos com uma concentração de recursos. Naturalmente, havia dúvidas se esta estratégia causaria flutuações ainda maiores no longo prazo.

Mas estas considerações foram ignoradas e a estratégia de aumentar drasticamente a área cultivada rendeu um sucesso temporário. De meados dos anos 1950 até o início dos anos 1960, a quantidade de grãos produzida aumentou significativamente. O problema era a quantidade limitada de terra cultivável e o crescimento contínuo das populações das grandes cidades. Assim, ainda nos anos 1960, as limitações deste plano tornaram-se evidentes.

Em 1963, Nikita Khrushchev enviou uma carta aos líderes do bloco soviético informando-os que não seria mais capaz de fornecer grãos. Naquele ano, a URSS comprou 12 milhões de toneladas de grãos, gastando para isso 1/3 das reservas de ouro do país. Khrushchev comentou: "O poder soviético não pode tolerar mais a vergonha que tivemos que passar" [2].

A produção estatal de grãos se estabilizou em 65 milhões de toneladas/ano dos anos 60 até os anos 80 (Figura 2). Isso era insuficiente para alimentar uma população que continuava crescendo. A Rússia, que antes da I Guerra Mundial era o maior exportador de grãos do mundo, passou a ser o maior importador.
Mikhail Gorbachev disse num encontro do CPSU: "Estamos comprando grãos porque não podemos sobreviver sem eles" [3]. Havia nações, como o Japão, que também importavam grãos e outros produtos agrícolas. Ao contrário da URSS, no entanto, esses países podiam exportar produtos manufaturados.

Porque a URSS não seguia o mesmo caminho? Porque a "industrialização socialista" resultou numa indústria soviética incapaz de vender produtos manufaturados. Nikolai Ryzhkov, presidente do Conselho de Ministros da URSS, expressou esse sentimento claramente em outro encontro de lideranças: "Ninguém compra nossa produção de máquinas. É por isso que estamos exportando apenas matéria-prima" [4].

O PETRÓLEO

As lideranças soviéticas deram sorte: exatamente ao mesmo tempo em que os problemas de falta de grãos surgiram, grandes campos de petróleo foram descobertos na região de Tyumen, na Sibéria.

Já em 1970, a Sibéria era considerada uma grande produtora de petróleo. Durante os próximos 12 anos a URSS aumentou a produção em 12 vezes. Os especialistas em petróleo avisaram o governo que aumentar a produção tão rápido poderia trazer problemas, mas não havia escolha.

Em 1975 a URSS começou a ter problemas com a produção: seria preciso fazer enormes investimentos para manter o mesmo nível de produção (Figura 3). No entanto, a União Soviética teve a sorte de conseguir preços excepcionalmente altos por seu petróleo a partir em meados dos anos 1970 (Crise do Petróleo de 1974).
O mercado de petróleo é peculiar por causa dos níveis variáveis de elasticidade da oferta e da procura tanto no curto quanto no longo prazo. As flutuações de preço são enormes (Figura 4). Há um conceito econômico muito bem conhecido chamado "choque externo".Nos EUA, a maior economia do mundo, o maior choque externo dos últimos 50 anos ocorreu em 1974, quando os preços do petróleo quadruplicaram e as Relações de Troca pioraram em 15%. Para a URSS, os preços estratoféricos do petróleo tiveram um impacto muito mais substancial no PIB, que podia ser medido em centenas de pontos percentuais. Começava ali o colapso do Império Soviético.
Ambições imperialistas baseadas em recursos tão instáveis não foram exclusividade da URSS. A "maldição dos recursos" foi bem analisada pela Escola de Salamanca com a experiência da Espanha nos Séculos XVI e XVII. A influência nos fluxos de ouro e prata das Américas para a Espanha é comparável ao impacto do faturamento com petróleo e gás da URSS (Figura 5). O Império Espanhol, sem perder uma única batalha em 50 anos, perdeu todas suas conquistas fora dos Pirineus, incluindo Portugal, e quase perdeu Aragón e Catalunha. Em 1989, também sem perder nos campos de batalha por 50 anos, a União Soviética perdeu o controle sobre o leste da Europa.
No final dos anos 1970 e início dos anos 1980, no entanto, os líderes soviéticos não estavam preparados intelectualmente para tirar lições da Escola de Salamanca. Com mais dinheiro, a URSS resolveu invadir o Afeganistão. A guerra mudou radicalmente a situação geopolítica do Oriente Médio. Em 1974 a Arábia Saudita decidiu impor um embargo no suprimento de petróleo aos Estados Unidos, mas em 1979 pediu proteção aos EUA, porque entendeu que a invasão do Afeganistão seria o início de uma tentativa soviética de controlar o petróleo do Oriente Médio.

O INÍCIO DO FIM

A início do colapso da União Soviética pode ser considerado o dia 13/09/85. Nesta data o Ministro do Petróleo da Arábia Saudita decidiu alterar radicalmente a política de preços do petróleo. Os sauditas "liberaram" o preço do barril, que tinha passado dos US$ 70 em 1980. Em pouco tempo estava menos de US$ 30.

Como resultado, a URSS perdeu cerca de US$ 20 bilhões, dinheiro sem o qual o país simplesmente não podia sobreviver. A produção de petróleo de 1985 era menos da metade da produção de 1975. A liderança soviética foi confrontada com uma difícil decisão sobre como se ajustar. Havia três opções, ou uma combinação de três opções, disponíveis.

Primeiro, dissolver o "império soviético" e efetivamente parar de subsidiar os países do bloco socialista, cobrando em dinheiro por petróleo e gás. Esta opção, no entanto, envolvia convencer a liderança soviética em 1985 a negar completamente os resultados da II Guerra Mundial. Na verdade, o líder que propusesse a idéia no Comitê Central do CPSU, na época, correria o risco de perder o cargo.

Segundo, reduzir drasticamente as importações soviéticas de comida em US$ 20 bilhões anuais. Em termos práticos, esta opção significaria a introdução de racionamento de comida em níveis similares aos vigentes durante a II Guerra Mundial. A liderança soviética sabia as conseqüências: a URSS não duraria um mês. Esta idéia nunca foi seriamente discutida.

Terceiro, implementar cortes radicais no complexo industrial-militar. Com esta opção, no entanto, a liderança soviética correria o risco de sérios conflitos com elites regionais e industriais, pois muitas cidades da URSS dependiam exclusivamente do complexo. Esta opção nunca foi seriamente considerada.

Incapaz de perceber qualquer uma das soluções acima, o governo decidiu adotar uma política de efetivamente ignorar o problema na esperança que ele desaparecesse. Ao invés de implementar reformas, a URSS começou a tomar empréstimos do exterior enquanto tinha crédito. De 1985 a 1988 o país fez pesados empréstimos, mas em 1989 a economia soviética parou.

AS DÍVIDAS

O dinheiro simplesmente desapareceu. Em 1989 a URSS tentou formar um consórcio de 300 bancos para fornecer um grande empréstimo, mas apenas 5 toparam e com isso o valor seria 20 vezes menor que o necessário. O governo recebeu um aviso do Deutsche Bank de que os fundos jamais viriam de bancos privados. Se a URSS precisava do dinheiro, teria que começar a negociar com governos do ocidente sobre créditos "políticos".

Em 1985, a idéia de que a URSS começaria a aceitar dinheiro em troca de concessões políticas soaria absurda. Em 1989 ela se tornou realidade, e Gorbachev entendeu a necessidade de pelo menos US$ 100 bilhões do Ocidente para movimentar a economia soviética. De acordo com o Presidente do Comitê de Planejamento Central, Yury Maslyukov:
"Entendemos que a única fonte de dinheiro é o petróleo. Se não tomarmos todas as decisões necessárias agora, ano que vem pode ser pior que nossos piores pesadelos. Os países socialistas podem ficar em situação crítica. Tudo isso nos levará a um colapso, e não somente nós, mas todo o nosso sistema."[5]
Nesse meio tempo, a URSS começava a ter grande escassez de comida e entregas de grãos não estavam sendo feitas a grandes cidades. Um dos assessores mais próximos de Gorbachev, Anatoly Cherniayev, descreveu a situação em Moscou em Março de 1991:
"Se os grãos não puderem ser obtidos em algum lugar, uma fome em massa virá em Junho. Moscou nunca viu nada igual em sua história, nem nos piores anos" [6]
O COLAPSO

Quando a situação da URSS é examinada do ponto de vista financeiro e contábil, as políticas de Gorbachev na época são muito mais fáceis de entender (Figura 6). Os empréstimos de governo para governo são feitos com condições rígidas. Por exemplo, se os militares soviéticos tivessem esmagado as manifestações do Partido Solidariedade em Varsóvia, a URSS não teria recebido os US$ 100 bilhões do Ocidente. O bloco socialista era estável enquanto a URSS tinha a prerrogativa de usar tanta força quanto necessária para reestabelecer o controle, como demonstrado na Alemanha, Hungria e Tchecoslováquia. Mas em 1989, as elites polonesas entenderam que os tanques soviéticos não seriam usados para defender o governo comunista.
Gorbachev não precisou dizer ao presidente George H. W. Bush, no Encontro de Malta (1989), que não usaria a força. Isso já estava evidente na época. Seis meses depois do encontro não havia mais nenhum governo comunista no Leste Europeu.

Claro, o Ocidente estava cauteloso sobre apoiar movimentos de independência dentro da URSS. Quanto as autoridades da Lituânia foram à embaixada dos EUA em Moscou pedir ajuda, a resposta foi negativa. Quando os soviéticos tentaram usar a força para reestabelecer o controle nos Bálticos em 1991, no entanto, a reação do Ocidente -- incluindo os EUA -- foi bem direta: Faça como quiser, o país é de vocês. Mas se quiserem usar a força, esqueçam o empréstimo de US$ 100 bilhões".

Quais eram as opções de Gorbachev na época? Ele não podia dissolver o Império Soviético facilmente; os conservadores eram fortemente contra. Ele também não podia impedir a gradual dissolução do Império sem uso massivo de força. Mas ao usar a força ele perderia os recursos necessários do Ocidente, sem os quais Gorbachev não tinha chance de ficar no poder.

Essa charada era a origem do dilema de Gorbachev, forçando-o a fazer um acordo com os militares e com Boris Yeltsin. Os linha-dura da KGB e do Exército perceberam Gorbachev como fraco e deram um Golpe de Estado em agosto de 1991. Em 3 dias ficou claro que o plano havia falhado, pois mesmo se eles achassem uma divisão disposta a esmagar as passeatas contra os golpistas, isso faria os grãos aparecer? Iria o Ocidente dar rapidamente os US$ 100 bilhões?

Em 22 de agosto de 1991 a história da URSS chegou ao fim. Um Estado que não controla suas fronteiras ou forças militares nem tem fonte de receita simplesmente não consegue existir. O documento que efetivamente concluiu a história da URSS é uma carta do Vneshekonombank (Banco Estatal Soviético) informando que o Estado Soviético não tinha um centavo nos seus cofres [7].

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[1] Yegor Gaidar, Gibel' Imperii: Uroki dlya sovremennoi Rossii [The Collapse of an Empire: Lessons for Modern Russia] (Moscow: Rossiyskaya Politicheskaya Entsiklopedia, 2006), disponível em www.iet.ru/publication.php?folder-id=44&publication-id=8912.

[2] "Presidência do Comitê Central do Partido Comunista da União Soviética (PCUS). 1954-1964: Registros dos Encontros. Notas taquigráficas. Diretrizes.". 2ª Ed., v.1. p. 778.

[3] "Notas taquigráficas do Plenário do Comitê Central do Partido Comunista da União Soviética (PCUS), Janeiro 27-28, 1987". The Russian State Archive of Contemporary History (RGANI), fond [record group] 2, opis' [series] 5, delo [file] 45, list [page] 3.

[4] Nikolai Ryzhkov, Desyat' let velikih potryaseniy [Ten Years That Shook the World] (Moscow: Kniga. Prosveshchenie. Miloserdie, 1995), 229.

[5] Notas taquigráficas do encontro no escritório do Chefe do Conselho de Ministros da URSS, Nikolai Ryzhkov. "O postavke dlya gosudarstva nefti, gazovogo kondensata i nefteproduktov v 1991 godu." [Regarding the Deliveries for the State of Oil, Gas Condensate, and Oil Products in 1991]. State Archive of the Russian Federation. fond [record group] 5446, opis' [series] 162, delo [file] 379, list [page] 131-137, 143-149.

[6] Ibid.

[7] Memorando de A. P. Nosko, Chefe do Vneshekonombank [Banco Estatal da URSS] para o Comitê Estatal de Gerência de Operações da Economia Nacional da URSS. "Ob ischepanii likvidnykh valyutnykh resursov" [Sobre o Esgotamento de Recursos Líquidos em Moeda]. 26 de novembro de 1991. Arquivo Estatal da Federação Russa. fond [record group] 5446, opis' [series] 163, delo [file] 1504, list [page] 11-12.

Saturday, January 01, 2011

Nova visão de desenvolvimento rural


Valor Econômico. Terça-feira, 29 de julho de 2003  -  Ano 4  -  Nº 810  -  1º Caderno


Nova visão de desenvolvimento rural



É preciso acabar de uma vez por todas com a falsa identidade "rural igual a agropecuário", que ainda confunde muita gente

É deplorável o provincianismo que domina o debate brasileiro sobre o desenvolvimento rural. Para se dar conta, basta ler o documento elaborado por dois experientes pesquisadores da área, Alexander Schejtman e Julio Berdegué, para o Departamento de Desenvolvimento Sustentável do BID, e para a Divisão América Latina e Caribe do Fida (Fundo Internacional de Desenvolvimento Agrícola), (disponível na página www.rimisp.cl).
A mensagem essencial desse documento é que os organismos internacionais financiadores de boa parte dos esforços regionais em matéria de desenvolvimento rural devem dar exclusividade nos próximos anos a projetos que tenham sido concebidos com "enfoque territorial". Exatamente a abordagem que está ausente do debate público brasileiro, pois continua separado em arquivos do tipo "reforma agrária", "agribusiness", "pobreza rural" ou "fome". Não que falte no governo federal (e alguns estaduais), e na comunidade científica, pessoas bem informadas sobre a abordagem que há muito emplacou no âmbito internacional. O problema é que as idéias desses técnicos e pesquisadores têm sido sistematicamente marginalizadas pela desproporcional atenção que se dá à tragicomédia política armada pelo MST ao desempenho exportador dos agronegociantes, ou aos tropeços institucionais do "Fome Zero".
Segundo Schejtman e Berdegué, a pequena eficácia das políticas de desenvolvimento rural impulsionadas nos últimos trinta ou quarenta anos transmitem um inequívoco recado aos governantes, organizações internacionais, bancos de fomento, redes de extensão, sindicatos, ONGs, etc: fitar a rosa-dos-ventos e mudar de orientação (ou "evitar seguir haciendo más de do mismo"). Para tanto, é preciso acabar de uma vez por todas com a falsa identidade "rural igual a agropecuário", que ainda confunde muita gente. O fato de a agropecuária ter adquirido imensa participação nos territórios rurais durante o século passado não significa que as economias desses espaços tenham sido alguma vez monopolizadas pelo setor primário. Muito pelo contrário, nenhuma atividade mineral, florestal, pecuária, ou agrícola, alcança algum sucesso sem que estimule simultaneamente o transporte e o comércio, ramos que fazem parte do setor terciário. E é pura ignorância achar que as atividades industriais sejam exclusivamente urbanas. Há até países onde o setor secundário se localiza predominantemente em territórios rurais.
O que os autores chamam de "enfoque de Desenvolvimento Territorial Rural (DTR)" é a visão de um duplo processo de transformação - produtiva e institucional - de espaços bem determinados. A transformação produtiva deve articular a economia desses territórios a mercados dinâmicos, de forma competitiva e sustentável. A transformação institucional deve facilitar a interação e a construção de confiança entre atores locais, não somente entre si, mas também entre eles e os atores externos relevantes, com o propósito de ampliar as oportunidades participativas da população no processo e em seus benefícios. São essas as duas lições mais gerais que podem ser tiradas das duas principais experiências práticas que serviram de referência aos autores: a "Canadian Rural Partnership", e o programa da União Européia intitulado "Leader": "Ligações Entre Ações de Desenvolvimento da Economia Rural".
Além dessas duas referências básicas a países mais desenvolvidos, o documento preparado para o BID e para o Fida registra a alguns sinais de propostas parecidas que engatinham na América Latina. Principalmente na Bolívia, Colômbia, México e Brasil. E é curioso notar a importância atribuída a algumas iniciativas brasileiras com irrisória atenção doméstica. É particularmente o caso do esforço coletivo de formulação estratégica realizado em 2001/2002 pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Rural Sustentável (CNDRS), agora desativado pelo governo Lula por exigência do MST. Há completa sintonia entre as propostas desse Plano elaborado pelo CNDRS e as principais idéias do documento de Schejtman e Berdegué.
Uma das semelhanças básicas é a tese de que qualquer política de desenvolvimento rural deverá se adaptar a quatro tipos fundamentais de territórios: a) os que avançaram na transformação produtiva e também lograram um desenvolvimento institucional que permite razoáveis graus de confiança entre os atores e inclusão social; b) os que conseguiram desencadear dinâmicas de crescimento econômico, mas com débeis impactos sobre o desenvolvimento local, por não ampliarem as oportunidades para os segmentos mais pobres; c) os que se caracterizam por robustas instituições, que costumam expressar fortes identidades culturais, mas que carecem de opções econômicas endógenas capazes de engendrar a superação da pobreza; d) os que estão em franco processo de desestruturação social e econômica.
Outra semelhança fundamental entre as duas contribuições está na importância estratégica que atribuem ao Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar (Pronaf), não apenas devido às suas linhas de crédito a uma categoria de agricultores que sofreu lamentável discriminação negativa entre 1964 e 1995, mas, sobretudo por duas outras questões: a) sua ação estrutural de financiamento de infraestrutura em municípios rurais; b) sua prioridade à capacitação dos agricultores familiares e de suas organizações para que tenham mais acesso ao intercâmbio de experiências e mais acesso a conhecimentos e habilidades tecnológicas que levem à elaboração de bons planos microrregionais de desenvolvimento e a firmes articulações intermunicipais.
Todavia, mais do que as similitudes entre os dois documentos, o que realmente interessa é o aprofundamento de um intercâmbio que possa contribuir para a inovação institucional assim que o governo Lula conseguir sair dessa pasmaceira agrária a que foi condenado por ir a reboque de uma força política tão anacrônica quanto o MST. Daí a importância do painel que amanhã reunirá Julio Berdegué e Décio Zylbersztajn, coordenador do Pensa/USP, no âmbito do 41º Congresso da Sober, a Sociedade Brasileira de Economia e Sociologia Rural. Será uma oportunidade de ouro para se ter contato direto com a nova visão do desenvolvimento rural que já conquistou quase todas as organizações internacionais de fomento, mas infelizmente continua na penumbra por aqui.
José Eli da Veiga , professor titular da FEA-USP e autor de Cidades Imaginárias (Ed. Autores Associados, 2002), escreve quinzenalmente às terças-feiras. Home page: www.econ.fea.usp.br/zeeli/ 

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Monday, November 10, 2008

Agropecuária



Produção alimentícia/população por continente (%)

África: 6,7 - 12,6

América do Norte: 13,8 - 8,0

América do Sul: 6,5 - 5,6

Ásia: 44,3 - 60,4

Europa: 27,5 - 12,9

Oceania: 1,2 - 0,5

Deficitária
Superavitária

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Percentual populacional que trabalha na agricultura

Quanto menor o índice de trabalhadores agrícolas, tendencialmente maior será o desenvolvimento econômico-social.
Aqui estão apenas exemplos extremos.


Menos de 10%: Austrália, Nova Zelândia, Argentina, Venezuela, Canadá, EUA, Japão, Israel, Jordânia, E.A.U., Armênia, Bósnia, Iugoslávia, Macedônia, R.U., Espanha, França, Islândia, Noruega, Suécia, Finlândia, Dinamarca, Países Baixos, Luxemburgo, Bélgica, Alemanha, França, Itália, Suíça, Áustria, Hungria, República Tcheca.
Mais de 75%: Papua Nova-Guiné, Laos, Nepal, Mali, Níger, Burkina Faso, Guiné, Guiné-Bissau, Gâmbia, Chade, República Centro-Africana, Etiópia, Quênia, Tanzânia, Ruanda, Burundi, Uganda, Malawi, Moçambique, Madagascar.
Não obtive dados da participação do setor primário no PIB de cada país, mas eles, normalmente, acompanham o índice da população empregada por setor, i.e., mais gente num setor específico, maior produção equivalente e valor gerado. Logo, quando menor o índice de produção relativa na agropecuária, maior na indústria e nos serviços. A maior urbanização corresponde, genericamente, a uma sociedade mais rica e afluente. Portanto, não há vantagem nenhuma em deter um maior percentual do PIB agropecuário porque isto significa pobreza na economia urbana.
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Comércio de produtos agrícolas

Apenas alguns exemplos...

Exportações 50% maiores que as importações: Brasil, Argentina, Chile...
Exportações 10% maiores que as importações: Austrália, Canadá, EUA...
Equilibradas: Espanha, Polônia, Suriname...
Importações 10% maiores que as exportações: México, Venezuela, Paquistão...
Importações 50% maiores que as exportações: Rússia, Irã, Arábia Saudita (a maior parte do mundo islâmico)...



Fonte: Philip’s. Modern School Atlas. 92nd edition.

Wednesday, June 06, 2007

Investimentos no Brasil

"O Brasil é um dos mercados com a melhor relação risco-retorno do mundo. Vejo espaço para ampliar meus investimentos no país e para mantê-los por um prazo longo."
Sam Zell, bilionário e megainvestidor americano.


Rápidas (Dirceu Chirivino)
The Christian Science destaca agrobusiness brasileiro
O jornal americano The Christian Science Monitor veicula nesta quarta-feira ampla reportagem sobre o agronegócio brasileiro. Em um dos trechos a repórter Sara Miller Llana, que assina a matéria, destaca a disposição do Brasil de, no futuro próximo, superar os Estados Unidos como superpotência agrícola. “No ano passado, o Brasil suplantou os Estados Unidos como maior exportador de soja. A isso se seguiu ter chegado ao primeiro lugar na exportação de carne bovina em 2004. E agora que o alto preço do petróleo e preocupação com mudanças climáticas despertam uma demanda global por combustíveis alternativos, o Brasil tem o objetivo de dobrar sua produção de cana de açúcar para etanol na próxima década.”


http://amanha.terra.com.br/ - Newsletter diária n.º 970 - 06/06/2007

Thursday, April 26, 2007

A "função social" da picaretagem

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The Americas






Agrarian reform in Brazil
This land is anti-capitalist land
Apr 26th 2007 ASSENTAMENTO MANOEL NETO AND BRASÍLIA


From The Economist print edition
An erstwhile fight to end rural feudalism is becoming a political campaign against agribusiness



AP



EVERY year in April groups who organise Brazil's rural poor, headed by the Landless Rural Workers' Movement (widely known as the MST), sponsor a nationwide bout of land invasions, takeovers of buildings and other protests. Part revolution and part ritual, “Red April” commemorates the killing 11 years ago of 19 landless protestors by police in the Amazonian state of Pará and promotes the martyrs' cause, the redistribution of land.



But nowadays much of the activism seems to have little to do with land reform. This year it included taking over highway toll booths in the southern state of Paraná. Last year a rural women's group destroyed a paper company's research laboratory. In the past the main targets were local land barons. More and more they are big companies, be they Brazilian or foreign, and the “development model” they represent.



Since the 16th century, when the Portuguese crown conceded vast “captaincies” to early colonists, land and power have been distributed unevenly in Brazil. Landlords exploited their tenants' labour and, after democracy arrived, harvested their votes. They often left vast tracts idle. The last agrarian census, conducted a decade ago, found that 1% of owners controlled 45% of farmland.



Agitation for land reform began in the 1960s. The MST was founded in the 1984, as democracy returned after two decades of military rule. It gained clout and sympathy partly as a result of outrages like the Pará massacre. Its activism has helped to change the countryside. Since 1995 governments have settled some 900,000 families—4m-5m people—in farming colonies, though sometimes in appalling conditions. Other changes have little to do with the protests. The countryside has modernised, with old-style landlords yielding to more enlightened heirs or to corporate farmers, for whom land is a business rather than a source of political power.



That has not placated the landless movements. “Agribusiness is the new name” for the alliance between “backward” land magnates and financial capital, says José Batista de Oliveira, a member of the MST's national directorate. The MST is now bent on a Manichaean struggle with agribusiness that it is unlikely to win and that may not do much for land reform.



The movement has become Brazil's most polarising force. Those who regard it as a lawless threat to progress are as passionate as those who extol its championship of the downtrodden. The MST is opaque, with no clear means of support apart from “solidarity”. Insiders say its decisions are “collective”. Zander Navarro, a sociologist at Britain's University of Sussex and a former landless activist, says its internal structure is “very anti-democratic”. He reckons the movement has 1,500 full-time organisers. The MST says that estimate is high but, characteristically, claims not to know the number.



Land reform is not as controversial as the movements that promote it. For some commodities family farms are more efficient than industrial ones because their labour costs are lower. Critics allege that settlers are plucked from cities to which they migrated and end up worse off. But one survey found that 94% of settlers had previous agricultural experience and 79% said their lives had improved.



That seems true of the 86 families at the Manoel Neto settlement, founded in 2006 in São Paulo state. Transplanted to hilly ground in the Paraíba River valley, they hike for water and are trapped by muddy roads when it rains. Marilza Prado, who once worked as a domestic servant, says her family spent three years living under plastic sheeting in camps, surviving on odd jobs. But things are looking up. In December 2,400 reais ($1,200) of federal aid per family for food and investment finally arrived. Mrs Prado has exchanged her plastic shelter for a mud-and-bamboo house, and her husband, Nelson, is getting ready to market the pigs he has raised.



One government programme avoids conflict by offering subsidised credit to poor farmers to buy land in the market. But the more common method is the contentious process of expropriating land that is not fulfilling its “social function”. In practice, that happens mainly in response to noisy trespassing sponsored by the MST.



“Occupation provokes land reform,” admits Guilherme Cassel, the minister of agricultural development. Mrs Prado participated in 11 invasions before gaining her five-hectare (12 acre) patch. Federal aid to the settlers is often channelled through organisations linked to the MST. Angry anti-government rhetoric “hides relations of close co-operation and dependency between the state and the movements,” argues Lygia Sigaud, an anthropologist at Rio de Janeiro's Federal University.



That complex relationship has been even more fraught during the presidency of Luiz Inácio Lula da Silva, whose Workers' Party (PT) is a long-time ally of the MST. Officials boast of settling 381,000 families during Lula's first four-year term (which ended in 2006) and improving conditions. The MST's Mr de Oliveira scorns its efforts as “very timid” and points out that some 140,000 families are still encamped under plastic sheeting awaiting land.



Conflict in the countryside has ebbed but hardly stopped (see chart). For the MST, the demand for land reform is nearly bottomless and the conflict with industrial farming irresolvable. Mr de Oliveira reckons that 5m families—around an eighth of the population—are candidates for land redistribution. “Monocultures” like eucalyptus for paper, sugar cane for ethanol and soya degrade the environment, reduce the food supply in Brazil and drive labourers and small farmers off the land, he claims.



Mr Navarro argues that outside the dry regions of the Northeast, where the rural poor are clustered, demand for land is shrinking. That applies especially in the south, where ownership is less skewed and family farming is strong. Many small farmers supply pork and chicken to large food businesses. One sugar mill in São Paulo gets 5% of its raw material from a nearby MST settlement. The MST is changing its focus, Mr Navarro believes, because “land reform is slowly losing importance”.


The government is torn. Its many MST sympathisers struggle to reconcile their support with the need to uphold the law. They share the MST's suspicion of big farming but answer to a president who is enthusiastic, especially about ethanol. In 2005, the ministry proposed to stiffen the guidelines for classifying land as productive (and therefore not subject to expropriation). Lula has yet to approve any change.



Rolf Hackbart, the head of the federal land-reform agency, wants the government to take the initiative to plan land use rather than reacting to occupations. But this looks like a distant prospect. While the MST wages war on corporate farming, the question of how best to redistribute land risks being trampled underfoot.


Wednesday, February 14, 2007

Energia emPACada e possibilidades do mercado externo

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Povo da montanha vai ter que esperar uma nova multinacional para aumentar a quota de milho e frango em suas áridas paragens:
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PETROBRAS DESCARTA AUMENTAR PREÇO DO GÁS BOLIVIANO
O diretor financeiro da Petrobras, Almir Barbassa, descartou nesta terça-feira alterar a política de preços de importação do gás natural boliviano, na véspera da visita ao Brasil do presidente da Bolívia, Evo Morales. "Essa é a nossa posição. Tem uma fórmula que rege o contrato, e é essa fórmula que deve se manter", disse Barbassa. A fórmula, que tem por base uma cesta de óleos do mercado internacional, ajusta trimestralmente o preço do gás importado da Bolívia, seguindo um contrato assinado em 1999 com prazo de 20 anos. (...)
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Quem expropria não é multinacional, mas os próprios estados-nacionais. Se bem que tem sempre exceção: negociar com gringo estadunidense inclui respeito aos contratos e como brinde, o aumento de produção da Petrobras; negociar com "líder da revolução bolivariana" implica em arcar com mudanças de regras no meio do campeonato.
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PETROBRAS QUER DUPLICAR SUA REFINARIA NO TEXAS
O presidente da Petrobras, José Sérgio Gabrielli, disse nesta terça-feira que a empresa espera que sua refinaria na região de Houston dobre a capacidade para 200.000 barris por dia até 2010. Ele acrescentou que a unidade, uma joint-venture que tem a participação da Petrobras, será configurada para processar petróleo de alta densidade. A Pasadena Refining System Inc. opera a unidade, localizada em Pasadena, no Texas, ao longo do canal naval de Houston. Gabrielli disse ainda que a Petrobras não está preocupada com seu acordo de desenvolvimento conjunto com a Venezuela no campo de petróleo de Carabobo, no qual a estatal venezuelana PDVSA tem 60% de participação. O presidente venezuelano, Hugo Chávez, está pressionando petrolíferas estrangeiras para que entreguem à PDVSA o controle de 60% dos projetos nos campos de petróleo do Orinoco. No Brasil, a Petrobras tem 60% de uma refinaria que está sendo construída para processar o petróleo extraído de Carabobo. A PDVSA tem os 40% de participação restantes na unidade.
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Aleluia! Se depender do Ibama, vamos aos lampiões! Parece que quem governa o país de fato são só empresas.
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USINA ANTECIPA OPERAÇÃO E VAI GERAL 815 MW A PARTIR DE 2010
A hidrelétrica de Estreito, entre Maranhão e Tocantins, deverá entrar em operação em agosto de 2010 (...) Originalmente, a usina deveria iniciar sua operação entre 2008 e 2010, com nove unidades, mas a demora no licenciamento ambiental fez com que o cronograma fosse atualizado para 2012 (com a entrada de uma máquina a cada três meses), e agora antecipado, a pedido do consórcio formado pelas empresas Tractebel/Suez, a Alcoa, a Vale do Rio Doce e a Camargo Corrêa.
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O que mais emPACa a produção:
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INVESTIDORES CRITICAM QUE PAC NÃO TRATA DAS GRANDES QUESTÕES ENERGÉTICAS
Apesar da lista de obras de infra-estrutura energética, o PAC (Programa de Aceleração do Crescimento) deixou de contemplar "grandes questões" do setor elétrico, segundo avaliação do presidente do Instituto Acende Brasil, Cláudio Sales. A instituição representa os investidores do setor elétrico no País. "Na linha geral, todas as propostas do PAC vão em direção à contribuição", disse Sales, referindo-se, por exemplo, à redução do custo do financiamento do BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social), que terá um impacto positivo em novos empreendimentos. Entretanto, Sales avaliou que faltou ao programa tratar de questões tributárias e medidas para melhorar o ambiente de investimentos no setor. Segundo o executivo, a carga tributária (impostos e encargos) do setor elétrico corresponde hoje a 43,7% em média da conta paga pelos consumidores. Ele também destacou como indispensável para estimular investimentos, a criação de melhores condições para o investimento privado, ou seja, condições mais competitivas e transparentes em relação às estatais, um ambiente de transparência e isonomia. Para os investidores, o ideal seria que as estatais abrissem seu capital e entrassem no Novo Mercado, de forma que tivessem compromissos de governança corporativa com a transparência, por exemplo. Outro problema tratado timidamente no PAC, segundo ele, foi o processo de obtenção de licenciamento ambiental, que atrasa o processo de investimento no setor elétrico. Sales afirmou que no caso de licenças prévias, o prazo chega a dois anos, enquanto o previsto pelo próprio Conama (Conselho Nacional do Meio Ambiente) prevê até 12 meses. Para licenças de instalação, o tempo de espera tem superado em sete a oito meses "o que seria razoável", o que pode comprometer o planejamento e as projeções de oferta de energia ao longo dos anos.
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Coisa bonita... quando se fala de energia e entrave burocrático no país, o presidente boliviano opina. Analogamente, sem entender que não bastam medidas econômicas ou liberação de fundos para o setor de energia, nosso presidente não só aceita declarações espúrias como espera que o problema educacional se resolva sem planejamento e ordem?
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LULA DIZ QUE LICENÇA AMBIENTAL PARA USINA NO RIO MADEIRA SAI EM 15 DIAS
O presidente Lula anunciou na reunião do Conselho Político, no Palácio do Planalto, nesta terça-feira, que em 15 dias estará concluído o licenciamento ambiental para a construção da hidrelétrica do Rio Madeira. Segundo o líder do PSB na Câmara dos Deputados, o deputado federal Márcio França, Lula disse que essa medida é importante, porque a geração de energia elétrica é o "cerne" do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC). De acordo com ele, o presidente avaliou que quando começarem os procedimentos para a obra da hidrelétrica será uma forte sinalização para os investidores, e que isso poderá produzir efeitos maiores que os esperados no PAC. Ainda na reunião, Lula disse que estava decepcionado com o resultado final do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), porque apesar dos investimentos no setor, os números de rendimento dos alunos não foram positivos. Lula, segundo relato do líder do PSB, disse que pretende tomar providências com relação a isso. É sintomático que Lula tenha anunciado a emissão da licença ambiental para a usina hidrelétrica no Rio Madeira na véspera da chegada ao Brasil, em visita oficial, do presidente da Bolívia, Evo Morales. Ele se opõe à construção desta usina.
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Quando o preço do barril cai no exterior, parece uma boa saída a alta no mercado interno... assim, para que investir na produção e atingir auto-suficiência? Para derrubar preços? Isto não interessa a "maior empresa brasileira".
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LUCRO DA PETROBRAS ATINGE RECORDE DE R$ 25,9 BILHÕES
A Petrobras, maior empresa brasileira, anunciou nesta terça-feira que obteve lucro recorde de R$ 25,9 bilhões no ano passado, o que representa alta de 9% em relação a 2005 (R$ 23,7 bilhões). Nos nove primeiros meses do ano os ganhos haviam atingido R$ 20,7 bilhões. O lucro do quarto trimestre alcançou R$ 5,2 bilhões, uma queda de 27% em relação ao terceiro trimestre. Segundo a Petrobras, o resultado foi prejudicado pela queda dos preços do petróleo no mercado internacional, que tiveram uma redução média de preços de 14%. O diretor Financeiro e de Relações com Investidores da Petrobras, Almir Barbassa, disse que no fim do ano os custos foram mais elevados em razão de estoques adquiridos no terceiro trimestre. Além disso, ele afirmou que as exportações líquidas subiram particularmente nos últimos três meses do ano. Elas foram de 93 mil barris de óleo equivalente por dia no período e ficaram prejudicadas pela queda da cotação internacional da commodity. No ano, a Petrobras obteve superávit de 128 mil barris de óleo equivalente. No ano, o maior preço de venda de petróleo e de derivados (que subiu em média 20,45% ante 2006) foi o principal fator a explicar o lucro recorde. A produção de petróleo subiu 6% e a de derivados 2% em 2006. O volume de vendas internas registrou um incremento de 3%. A comercialização da gasolina cresceu 7% com a redução do percentual de álcool no combustível no ano passado e graças ao crescimento da frota de veículos. o lucro da Petrobras sofreu uma retração de R$ 1,450 bilhão, em 2005, para R$ 350 milhões, em 2006. Segundo Barbassa, as perdas são fruto de gastos na áreas de Exploração e Produção (poços secos e sísmica), sobretudo, nos Estados Unidos, além da elevação de impostos na Bolívia e redução de participação na Venezuela. Na Bolívia, o lucro da Petrobras caiu de R$ 250 milhões em 2005 para R$ 57 milhões em 2006. Na Venezuela, ele sofreu um decréscimo de R$ 164 milhões para R$ 94 milhões. "A valorização do real representou perdas de 9% nos ativos internacionais", afirmou Almir Barbassa. Com o resultado, a Petrobras vai propor aos acionistas dividendos que totalizam R$ 7,9 bilhões, o que equivale a R$ 1,80 por ação. No ano passado, a receita da Petrobras alcançou R$ 158,2 bilhões, o que representa um aumento de 16% sobre 2005. Já os investimentos da empresa atingiram R$ 33,7 bilhões, uma alta de 31% sobre 2005. Em 2007, eles são estimados em R$ 55 bilhões. A produção média de petróleo e gás da Petrobras no Brasil em 2006 foi de 1,777 milhão de barris por dia e o País não conseguiu atingir a auto-suficiência sustentável no ano passado. No ano anterior, a média ficou em 1,684 milhão de barris por dia. No mês de dezembro, a produção cresceu 1% sobre o volume produzido no mesmo mês do ano anterior e chegou a 1,832 milhão de barris por dia. Segundo a estatal, as principais razões para o aumento da produção são a entrada em operação dos poços ABL-68 e ABL-11, interligados à plataforma P-50 (Albacora Leste), e à entrada em operação da plataforma P-34, no Campo de Jubarte.
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Concordo com o possível sucesso do etanol no longo prazo, mas contar com a alta do preço do barril de petróleo para isso é, no mínimo, medíocre. Nunca é demais lembrar que se, para uma OPEP, as reservas já deveriam ter acabado (por que esta mentira sensacionalista inflaciona preços), para uma AIE ainda há petróleo para, pelo menos, um século. E, também não custa lembrar que quando se diz que um poço tem capacidade de extração para 10 anos, ele acaba produzindo por mais algumas décadas.
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DEMANDA DE ETANOL PODERÁ INFLACIONAR O PREÇO DOS GRÃOS
A União Européia, como os Estados Unidos e o Brasil, deseja que os biocombustíveis sejam incluídos na composição de boa parte dos combustíveis produzidos por seus países membros em proporção de até 85%, no caso do etanol. Essa tendência tem um efeito perverso: ela pode fazer crescer o preço dos cereais, porque cria uma fonte de procura alternativa, além dos alimentos para animais e seres humanos. O preço do milho mais que duplicou na bolsa de mercadorias de Chicago, em quatro meses, e arrastou com ele o da soja e os dos demais grãos. O problema é que em um momento no qual as matérias-primas das quais o etanol é extraído estão se valorizando, o preço do petróleo voltou a cair para entre US$ 50 e US$ 60 por barril, cotação à qual o etanol, ainda que subsidiado, não consegue equilibrar suas contas. Presos em um dilema que envolve custos em uma ponta e o mercado na ponta oposta, os biocombustíveis correm o risco de perder sua atratividade. Mas, Alain d'Anselme, presidente do Sindico Nacional dos Produtores de Álcool Agrícola (SNPAA) da França, não acredita nessa hipótese. A tendência de longo prazo do petróleo é de alta, devido ao inevitável esgotamento dos recursos fósseis. O preço dos grãos não aumentará em proporção semelhante, porque é possível elevar as áreas de produção e a produtividade agrícola de maneira extraordinária, e é possível substituir os vegetais usados como base para a produção do etanol (o milho, a cevada, a beterraba e, por fim, a biomassa). Rodolphe Roche, analista de matérias-primas na Schroders, uma administradora de fundos de investimento em Londres, acredita que o etanol resistirá a esses problemas. O custo não se compara ao do petróleo, mas "é preciso olhar além do preço", diz ele. Devido à confusão de tendências políticas vigente, os Estados Unidos desejam reconstruir sua independência energética. E o etanol representa uma maneira esplêndida de subsidiar a agricultura em um momento no qual as negociações da Organização Mundial de Comércio acarretam o risco de um corte obrigatório na assistência que eles propiciam a seus agricultores.
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Porto Alegre, 14 de fevereiro de 2007 - Videversus nº 649
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