Friday, April 19, 2013
Sunday, November 21, 2010
Novos amigos, novas traições
Novos amigos e novas traições[i]
Sem dúvida que o apoio russo às medidas mais duras contra o governo iraniano é um bom sinal dessa nova aliança, cuja integração à OTAN parece selar e, que a vitória Republicana nas últimas eleições sobre os Democratas parece ameaçar através da revisão do acordo de desarmamento (START) entre as duas potências. Apesar disto, esta vitória do governo Obama em se aliar ao Kremlin não deveria ser menosprezada. O próprio “guarda-chuvas da OTAN” na Europa Oriental, Polônia e República Tcheca elaborado no governo Bush foi redesenhado contra o Irã, inclusive com navios de guerra americanos estacionados no Mediterrâneo. Obviamente, as recentes insinuações ocidentais de apoio à Geórgia ou à Ucrânia serão deixadas de lado por tempo indeterminado, o que também significa suas possibilidades de autonomia e avanço democráticos.
Se por um lado esta perspectiva de deixar as ambições russas de lado e focalizar inimigos mais imediatos como o Irã se consolidam, nuvens negras se formam no horizonte sobre a China e a Índia, outros rivais regionais asiáticos que poderão colocar em cheque a solidez da aliança americana e russa dentro da OTAN se reagirem contra um novo expansionismo russo. No entanto, a história nos mostra que alianças entre estados democráticos e autocráticos não têm tido sucesso prolongado... Para a União Européia, por exemplo, as “revoluções coloridas” em países como a Geórgia e a Ucrânia significam também sua segurança econômica através de rotas de gás natural que lhes fornecem alternativa energética. A questão subjacente a boa estratégia de pressionar o Irã e forças insurgentes no Afeganistão é o que fazer com os sistemas políticos da periferia russa. Ignorar estes processos democráticos permitindo o avanço autoritário poderá significar uma fatura muito cara a ser paga num futuro não tão distante.Tuesday, September 29, 2009
Guerras regionais e outras não tão regionais

Algumas guerras têm conseqüências apenas locais ou regionais, outras têm conseqüências globais, mas por um curto período. Não dá para buscar equivalência entre, p.ex., a Crise de Suez (1956) e a II GM. Este caso é um óbvio exemplo que mudou praticamente tudo que veio depois. Algumas guerras, no entanto, parecem ser episódios isolados e regionalmente autônomos, como foi o caso da Península Coreana para depois se compreender como estava ligada a um contexto mais abrangente da Guerra Fria.
A questão que eu proponho discutir e estará mentindo quem disser que tem a resposta, é se o Iraque tem a ver com a Guerra da Coréia no sentido de que não foi uma guerra que se encerrou em si mesmo, mas uma campanha contra o Islã radical,. Esta é minha visão, mas isto só poderá ser vislumbrado no futuro, evidentemente.
Os objetivos gerais dos EUA (para quem não leva em consideração o que chefes de estado dizem, mas o que fazem) seriam:
- Mudar a percepção regional através de uma vitória decisiva;
- Eliminar a possibilidade de construção ou utilização de ADMs;
- Usar o Iraque como centro de operações para a região (sua localização é bem privilegiada).
Pouco importa se Saddam não tinha as ADMs alegadas por GWB, mesmo porque já utilizara químicas e bacteriológicas contra os curdos, mas o Irã era o alvo verdadeiro, bem como a insuflação waabita na Arábia Saudita. A dependência regional como base de apoio da península arábica também fragilizava e deixava a ação americana com poucas opções. Só assim podemos entender outros movimentos regionais, em aparente desassociação, como foi o caso recente do Cáucaso envolvendo Geórgia, Ossétia do Sul e Rússia... A Geórgia queria um oleoduto passando por seu território (nacional), ao que os ossetas (russos) insuflados por Moscou bradavam por autonomia. Na verdade, este duto seria alternativa energética para a Europa aumentando a oferta e reduzindo a dependência de combustíveis russos a partir do Cáspio. A desculpa era a autonomia das regiões russófilas dentro da Geórgia, enquanto que o monopólio russo estava em jogo.
E a OTAN? Na região seria moeda de troca, pois não há como investir numa infra-estrutura tão cara sem defendê-la e a organização tinha mais legitimidade que qualquer ação individual. Ou era isto ou se ficaria a mercê de qualquer um com um lança-foguetes. Claro que se trata de uma ameaça aos russos, mas esta é uma ação decorrente da disputa energética pela quebra do monopólio de petróleo e gás e não uma ‘resposta’, como muitos querem, a autonomia do Kosovo.
Os russos deram seu recado, mas o fato é que a OTAN deslocou suas frotas ao Mar Negro cercando o Oriente Médio de norte a sul, pois já está situada no Golfo Pérsico. No oeste temos Israel e Turquia, o que falta é algo estável a leste...
Quem perdeu? A Geórgia. Quem ganhou? Moscou e Washington elevando a disputa para outro nível ou, se preferirem, área.
Wednesday, August 27, 2008
A balança de poder russa
A invasão russa da Geórgia ainda não mudou, substancialmente, a balança de poder na Eurásia. A ação americana no Iraque ou no Afeganistão, bem como a instabilidade no Paquistão permanecem as mesmas. Os americanos não auferiram nenhum poder a mais para influenciar no território da ex-União Soviética ou manter forças reservas terrestres para interferir no Cáucaso. De um ponto de vista exclusivo a partir de Washington, os americanos não ganharam muito no Cáucaso, mas podem perder.
Retomemos os eventos: dia 7 de agosto, forças georgianas fizeram incursão sobre a região separatista da Ossétia do Sul, que mantinha um status autônomo desde o fim da URSS. Sua capital, Tskhinvali foi ocupada. Na manhã seguinte,
blindados e infantaria motorizada russas apoiadas pela força aérea invadiram o território georgiano na Ossétia do Sul. Informalmente, esta região se alinhou a Rússia que operou para anular sua incorporação à Geórgia. Dada a velocidade da operação que, em questão de poucas horas, levou a reação russa, está claro que os russos já sabiam das intenções de Tbilisi. O contra-ataque, cuidadosamente planejado que forçou a retirada georgiana levou apenas dois dias. No domingo, dia 10, os russos já logravam consolidar sua posição de ocupação na Ossétia do Sul (veja o mapa ao lado). No dia seguinte, os russos atacaram forças georgianas como se fossem dois machados. Um deles em direção a cidade georgiana de Gori ao sul, o outro em direção a Abkhazia, região separatista da Geórgia alinhada com os russos. O objetivo foi cortar a ligação da capital georgiana, Tbilisi com os portos do país. A partir daí, os russos bombardearam as bases aéreas de Marneuli e Vaziani. Seu posicionamento, a cerca de 60 quilômetros da capital georgiana tornou, praticamente impossível seu reabastecimento de Tbilisi.O porquê da invasão georgiana
O ponto de partida de nossa indagação é qual o objetivo da invasão da Ossétia do Sul pela Geórgia na noite de quinta-feira? Após três noites precedentes de vigília osseta em vilas georgianas houve a troca da artilharia. Os georgianos, como é seu caráter, lutaram e resistiram, sob o claro intento de levar a ação da Geórgia para frente. Os EUA são os aliados mais próximos do país. Cerca de 130 conselheiros militares americanos e mais outros civis assessoravam o governo georgiano e empresários com os quais negociavam. Desta forma, torna-se inconcebível que os EUA não soubessem dos planos de Tbilisi. A inteligência americana, seus satélites e aviões espiões teleguiados também deveriam estar monitorando a movimentação de tropas russas. Estamos falando de milhares de soldados russos se deslocando em direção ao sul. Os russos sabiam claramente que os georgianos iriam contra-atacar. Como então, os americanos não poderiam saber igualmente dos russos? Da mesma forma, os americanos deveriam saber que a ação georgiana era o pretexto ideal para Moscou invadir e expulsar as forças da Geórgia. Se os georgianos se apoiavam nos americanos (e confiavam neles), não poderiam meter os pés pelas mãos e traçar uma estratégia que prejudicasse suas negociações regionais indo contra seus próprios interesses. Uma hipótese é que houve uma avaria na inteligência americana ou um péssimo calculo do poder de contra-ataque russo. Difícil crer que sua análise se baseasse no histórico da década de 90 quando o exército russo estava uma verdadeira bagunça e seu governo paralisado. Com a insuflação do separatismo nas regiões georgianos, os russos prepararam uma arapuca na qual os patos georgianos caíram direitinho.
Outro episódio em que os russos tomaram a dianteira foi na movimentação em território afegão nos anos 70 e 80, quando os EUA se viram forçados a buscar reforços e apoio nos guerrilheiros muhajedin de base ideológica talebã. E isto que os russos evitaram estes movimentos por anos... Ao contrário dos EUA, a Rússia não viu nenhum obstáculo militar. Economicamente, Moscou sabe muito bem de sua importância da exportação de seu gás para a Europa. Politicamente, os americanos necessitam dos russos, mais do que os russos necessitam dos americanos. O momento era ideal e o golpe, preciso.
O cerco ocidental a Rússia
Há alguns precedentes que explicam a motivação russa. Do ponto de vista ocidental e, americano em particular, a Revolução Laranja na Ucrânia (novembro de 2004), que levou um líder pró-ocidental ao poder, Viktor Yushenko, representou uma vitória da democracia. Para os russos, por sua vez, esta “revolução” era uma intrusão apoiada pela CIA para trazer a Ucrânia a esfera de influência ocidental e americana, leia-se Otan. O pai de George W. Bush – George H. W. Bush – e Bill Clinton prometeram que a Otan não se expandiria para os limites do ex-território soviético. A promessa fora quebrada em 1998 com a incorporação da Polônia, República Tcheca e Hungria ao seu sistema de defesa. Novamente, em 2004, não se contentando com a Europa Central, a Otan incorporou outras três ex-repúblicas soviéticas no Báltico, Lituânia, Letônia e Estônia. Os russos toleraram tudo isto até que chegou a vez da Ucrânia, cuja entrada no “guarda-chuvas” da Otan representou uma ameaça a sua segurança nacional. Se consumada sua entrada na Otan, a Federação Russa ficaria desestabilizada e indefensável. Quando, por fim, tentaram incorporar a Geórgia, a influência russa no Cáucaso seria, por fim, extirpada. A conclusão óbvia era que os EUA iriam partir a Federação Russa em diversos movimentos separatistas, descosendo-a como se rasgassem um velho cobertor cheio de remendos. Lembremos ainda que, pouco antes, Europa e EUA apoiaram a independência do Kosovo em relação a Sérvia. Os sérvios, antigos aliados dos russos não eram o problema, mas para Moscou desde o fim da II Guerra era condição de estabilidade que as áreas de influência não fossem alteradas. Com este princípio violado, outras regiões, dentro da própria Rússia poderiam seguir o exemplo. Os russos solicitaram que este status não fosse alterado, mesmo porque o Kosovo já tinha uma autonomia informal que equivalia, na prática, a esta nova independência formal. A Rússia foi simplesmente ignorada.
Desde o ocorrido na Ucrânia, os russos já concluíam que os EUA estavam cercando-os ostensivamente e estrangulando seu país em pontos estratégicos. Mesmo em episódios de menor importância estratégica – como foi o caso do Kosovo –, EUA e Europa não levaram a Rússia em consideração uma só vez. Chegara o limite para a ruptura. Se mesmo em um caso de pequeno significado regional (política e economicamente falando), a Rússia não tinha qualquer peso, para Moscou, o Ocidente já lhe declarara guerra. Para os russos não se tratava mais de entender o porquê disto tudo, mas sim em como responder a isto tudo. Se o Kosovo podia ser declarado como independente sob patrocínio ocidental, a Abkhazia e Ossétia do Sul também poderiam ter suas independências patrocinadas pela Rússia. Tratava-se apenas de jogar com as cartas que se dispunha. E os russos jogaram com quase todas.
Para os russos foi uma vitória moral: ao protestarem, EUA e Europa se revelariam hipócritas,
pois negavam à Abkhazia e Ossétia do Sul, o mesmo que defenderam para o Kosovo. Por razões políticas internas a Rússia, o fato era importantíssimo. Se para o ministro Putin, a queda da URSS fora um desastre, isto não significava que quisesse retomá-la nos mesmos moldes de antigamente, mas que a segurança nacional estava, a partir de então, em uma rota perigosamente descendente. Uma rota de insegurança patrocinada pelo Ocidente. Urgia, para ele, retomar a influência russa nos territórios da extinta União Soviética.Consideremos o seguinte: durante a Guerra Fria, São Petersburgo estava 1.930 km distante de qualquer país da Otan. Hoje está apenas 96,5 km distante da Estônia, um membro desta organização militar. A desintegração soviética deixou a Rússia cercada por países hostis ao seu antigo domínio e influenciados por americanos, europeus e, em alguns casos, pela China.[1]
A ressurreição da esfera russa
Putin não quis restabelecer a URSS, mas quis restabelecer a hegemonia russa dentro do ex-território soviético. Para tanto, ele teve que implementar as seguintes tarefas:
1) Reconstruir o exército russo e restabelecer seu crédito como força de peso regional.
2) Anular a influência da Otan no contexto regional da periferia russa.
O que Putin também revelou era o sabido de todos, mas não demonstrado empiricamente: como os EUA se acham atrelados a suas ações no Oriente Médio não poderiam oferecer muitas garantias no Cáucaso, ou em qualquer outra parte do globo.
No cômputo da operação até o momento, uma lição para ucranianos, georgianos, bálticos, europeus e centro-asiáticos digerirem, serviu como bônus. Especialmente, para a Polônia e República Tcheca.
Para o Kremlin, a defesa de mísseis balísticos que os EUA querem introduzir nestes países é uma ameaça clara a Rússia. Com o ataque a Geórgia, Putin e Medvedev querem demonstrar que as promessas e garantias dos americanos são vazias. Para os EUA, o Oriente Médio e, particularmente, o Irã lhe tomam muito mais atenção em detrimento do distante e inóspito Cáucaso. E os americanos querem a aliança russa contra o Irã, particularmente, não lhes vendendo armamento, como o eficaz sistema de defesa aérea S-300. Se os russos quiserem mesmo importunar os EUA, poderão vender armas não somente ao Irã, mas também a Síria.
O dilema americano consiste em priorizar o Cáucaso agora e deixar o Oriente Médio (o que parece fora de questão) ou limitar sua ação na Geórgia para evitar uma aliança russo-iraniana. Apesar dos interesses russos confluírem aos dos EUA na questão iraniana – o sistema de armas iraniano é mais ameaçador para a Rússia do que para os EUA considerando seu território mais próximo... O mesmo podendo se dizer sobre o Afeganistão, um acirramento do conflito no Cáucaso com maior ingerência americana pode alterar a situação para um quadro diametralmente oposto: uma aliança russa com o Irã e rebeldes afegãos contra os EUA.
Os ventos atuais são, aparentemente, favoráveis a Moscou. Seus coringas estão no fato de que:
1) Os russos apóiam os americanos (por enquanto...) em regiões críticas como o Afeganistão e Irã (próximos de suas fronteiras).
2) Os europeus dependem de seu fornecimento de gás e padecem com o déficit de forças expedicionárias.
Apesar de não ser uma potência mundial como os EUA, a Rússia é uma inegável força regional com reservas de armas nucleares e uma economia em ascensão, embora muito dependente de seus recursos naturais. Estes simples fatos compelem seus vizinhos a reavaliarem seus posicionamentos políticos em relação a Moscou.
No caso da Geórgia, provavelmente os russos exigirão a renúncia do presidente, Mikhail Saakashvili. Isto é o que querem e para isto estão se movimentando. Em uma escala mais ampla, a Rússia tem dado demonstrações de requerer o retorno ao status de grande potência. Em uma favorável combinação de fatores e eventos de médio prazo: o retorno do investimento e organização militares sob os governos de Vladimir Putin e, os gastos e envolvimento americanos no Oriente Médio ajudaram a consolidar o crescimento do poder russo. Uma “janela de oportunidade” se abriu para Moscou e o Kremlin a atravessou. Enquanto os americanos estiverem atrelados a sua geopolítica no Oriente Médio, a Rússia tenderá a crescer regionalmente. A guerra na Geórgia não foi uma surpresa, foi preparada por meses. Se as fundações geopolíticas que datam de 1992 fossem suficientes para deter o curso histórico de séculos em que a Rússia se sedimentou como poder imperial, não teríamos este conflito. Talvez, os últimos 15 anos tenham sido uma “aberração histórica” para o leste europeu. Se a retificação para um “eterno retorno” do Império Russo devesse ocorrer, ela está ocorrendo justamente agora.
Monday, August 18, 2008
Por trás da micro-análise do Caucáso, um exercício de sofismas
Em Por trás da miniguerra no Cáucaso, o xadrez geopolítico de Immanuel Wallerstein, uma série de meias-verdades e um verdadeiro “contorcionismo teórico” camuflado como “didática” serão analisados agora, nas notas de rodapé que se seguem:
...
Parece que os Estados Unidos se enganaram redondamente quando imaginaram ter alguma espécie de privilégio de superpotência em sua partida contra a Rússia[1]
O mundo testemunhou nesta semana uma miniguerra no Cáucaso, e a retórica tem sido intensa, embora em grande medida irrelevante. A geopolítica é uma série de gigantescas partidas de xadrez disputadas entre dois jogadores, nas quais estes buscam posições de vantagem. Nessas partidas, é crucial conhecer as regras vigentes que regem os lances. Os cavalos não podem andar na diagonal. Entre 1945 e 1989, a partida principal de xadrez era disputada entre os Estados Unidos e a União Soviética. Ela se chamava a Guerra Fria, e as regras básicas do jogo eram conhecidas metaforicamente como "Yalta". A regra mais importante dizia respeito a uma linha que dividia a Europa em duas zonas de influência. Essa linha foi chamada por Winston Churchill de "Cortina de Ferro" e se estendia de Stettin a Trieste. A regra dizia que, não importasse quanta turbulência fosse instigada na Europa pelos peões, não haveria guerra de fato entre os Estados Unidos e a União Soviética. Ao final de cada instância de turbulência, as peças voltariam a suas posições originais. Essa regra foi respeitada cuidadosamente até a queda dos comunismos, em 1989, marcada mais notadamente pela destruição do Muro de Berlim. É inteiramente verdade, como todos observaram na época, que as regras de Yalta foram anuladas em 1989 e que a partida disputada entre os Estados Unidos e (desde 1991) a Rússia mudou de maneira radical. O maior problema desde então é que os Estados Unidos não compreenderam direito as novas regras do jogo. Eles se proclamaram, e foram proclamados por muitos outros, a única superpotência mundial. Em termos de regras de xadrez, isso foi interpretado como significando que os Estados Unidos tinham liberdade para movimentar-se pelo tabuleiro de xadrez como bem entendessem e, especialmente, para transferir antigos peões soviéticos para sua esfera de influência. Sob Clinton, e mais notadamente ainda sob George W. Bush, os Estados Unidos passaram a jogar a partida dessa maneira. Só havia um problema nisso: os Estados Unidos não eram a única superpotência mundial -nem sequer eram uma superpotência.[2]
Mais jogadores
O fim da Guerra Fria significou que os Estados Unidos foram rebaixados. De uma das duas superpotências, passaram a ser um Estado forte em meio a uma distribuição realmente multilateral do poder real em um sistema inter-Estados. Muitos países grandes passaram a poder disputar suas próprias partidas de xadrez sem precisarem informar as duas antigas superpotências de seus lances. E começaram a fazê-lo. Duas decisões geopolíticas de importância maior foram tomadas nos anos Clinton. Primeiro, os Estados Unidos fizeram pressão grande e mais ou menos bem-sucedida para que os antigos satélites soviéticos ingressassem na Otan [a aliança militar ocidental]. Esses países estavam ansiosos por entrar, apesar de os países-chave da Europa Ocidental -Alemanha e França- relutarem um pouco em seguir esse caminho. Eles viam a manobra dos EUA como tendo o objetivo, em parte, de limitar sua recém-adquirida liberdade de ação geopolítica. A segunda decisão-chave dos Estados Unidos foi tornar-se jogador ativo nos realinhamentos de fronteiras dentro da antiga República Federal da Iugoslávia. Isso culminou na decisão de autorizar a secessão de facto de Kosovo da Sérvia e implementá-la com suas tropas. A Rússia, mesmo sob Boris Ieltsin, ficou bastante insatisfeita com essas duas ações dos Estados Unidos. Mas a desorganização política e econômica da Rússia durante os anos Ieltsin era tão grande que o máximo que ela pôde fazer foi queixar-se, em voz bastante fraca, é mister acrescentar. A chegada ao poder de George W. Bush e Vladimir Putin foi mais ou menos simultânea. Bush decidiu levar a tática da superpotência única (ou seja, os Estados Unidos podem movimentar suas peças da maneira como decidem por conta própria) muito mais longe do que fizera Clinton.[3]Regras próprias
Para começar, em 2001 Bush retirou o país do Tratado de Mísseis Antibalísticos firmado por EUA e União Soviética em 1972. Em seguida, anunciou que os Estados Unidos não ratificariam dois tratados novos assinados durante o governo Clinton: o Tratado de Proibição Total de Testes, de 1996, e as modificações acordadas no tratado de desarmamento nuclear SALT 2. Então Bush anunciou que os Estados Unidos iriam adiante com seu Sistema Nacional de Defesa Antimísseis. E, em 2003, Bush invadiu o Iraque. Como parte dessa iniciativa, os Estados Unidos buscaram e obtiveram o direito de construir bases militares e o direito de sobrevoar repúblicas centro-asiáticas que antes faziam parte da União Soviética. Além disso, os EUA promoveram a construção de dutos para o escoamento do petróleo e gás natural da Ásia Central e do Cáucaso, passando ao largo da Rússia. E, finalmente, os Estados Unidos fecharam um acordo com a Polônia e a República Tcheca para instalar uma defesa antimísseis, ostensivamente para proteção contra mísseis iranianos. A Rússia, porém, viu essas instalações como sendo voltadas contra ela. Putin decidiu reagir com muito mais eficácia que Ieltsin. Sendo um jogador prudente, porém, ele primeiro se movimentou para fortalecer sua base doméstica, restaurando a força da autoridade central e revigorando as Forças Armadas russas. Nesse momento, as marés da economia mundial mudaram, e, de uma hora para outra, a Rússia tornou-se a rica e poderosa controladora não apenas da produção petrolífera, mas também do gás natural tão necessário aos países da Europa Ocidental.[4]Adversário fortalecido
Então Putin começou a agir. Ele criou relacionamentos com a China, selados em tratados. Manteve relações estreitas com o Irã. Começou a expulsar os Estados Unidos de suas bases na Ásia Central. E assumiu uma atitude firme contra a ampliação da Otan para duas zonas-chave: a Ucrânia e a Geórgia. A fragmentação da União Soviética levara ao surgimento de movimentos secessionistas étnicos em muitas antigas repúblicas, incluindo a Geórgia. Quando, em 1990, a Geórgia procurou pôr fim ao status autônomo de suas zonas étnicas não-georgianas, estas imediatamente se declararam Estados independentes. Não foram reconhecidas por nenhum país, mas a Rússia garantiu sua autonomia de fato. Os fatores mais imediatos a incentivar o desencadeamento da miniguerra atual foram dois. Em fevereiro, Kosovo formalmente converteu sua autonomia de fato em independência de direito. Sua iniciativa foi apoiada e reconhecida pelos Estados Unidos e muitos países da Europa ocidental. A Rússia avisou, na época, que a lógica dessa iniciativa se aplicaria igualmente a secessões de fato ocorridas nas antigas repúblicas soviéticas. Na Geórgia, a Rússia imediatamente e pela primeira vez reconheceu a independência de direito da Ossétia do Sul, em resposta direta à de Kosovo. E, na reunião da Otan de abril deste ano, os Estados Unidos propuseram que Geórgia e Ucrânia fossem recebidas num chamado Plano de Ação para Ingresso (na Otan). A Alemanha, a França e o Reino Unido se opuseram, dizendo que isso provocaria a Rússia.[5]Jogada desesperada
O presidente neoliberal e fortemente pró-americano da Geórgia, Mikhail Saakashvili, se desesperou. Ele via a reafirmação da autoridade georgiana na Ossétia do Sul (e também na Abkházia) como perspectiva cada vez mais distante, de maneira permanente. Assim, escolheu um momento de desatenção da Rússia (Putin estava nas Olimpíadas, o presidente Dmitri Medvedev, de férias) para invadir a Ossétia do Sul. As insignificantes forças militares da Ossétia do Sul desabaram completamente, é claro. Saakashvili imaginava que forçaria os Estados Unidos (e também a Alemanha e a França) a sair em seu apoio. Em vez disso, houve uma reação militar russa imediata, superando o pequeno Exército georgiano de forma avassaladora. O que Saakashvili recebeu de George W. Bush foi retórica. Afinal, o que Bush podia fazer? Os Estados Unidos não são uma superpotência. Suas Forças Armadas estão inteiramente tomadas por duas guerras que estão perdendo no Oriente Médio. E, o mais importante de tudo, os Estados Unidos precisam da Rússia muito mais do que a Rússia precisa deles. O chanceler russo, Sergei Lavrov, em artigo no "Financial Times", fez questão de observar que a Rússia é "parceira do Ocidente com relação ao Oriente Médio, Irã e Coréia do Norte". Quanto à Europa ocidental, a Rússia, essencialmente, controla seu suprimento de gás. Não foi por acaso que foi o presidente Nicolas Sarkozy, da França, e não Condoleezza Rice, quem negociou a trégua entre Geórgia e Rússia. A trégua contém duas concessões essenciais da Geórgia. Esta se comprometeu a não mais recorrer à força na Ossétia do Sul. E o acordo não faz referência à integridade territorial georgiana. Assim, a Rússia emergiu muito mais forte que antes. Saakashvili apostou tudo o que tinha e agora esta geopoliticamente falido. E, como nota de rodapé irônica, a Geórgia, uma das últimas aliadas nos EUA na coalizão no Iraque, retirou seus 2.000 soldados desse país. Esses soldados vinham exercendo um papel crucial nas áreas xiitas e agora terão que ser substituídos por soldados dos EUA, que, para isso, terão que ser retirados de outras áreas. Quando se joga xadrez geopolítico, é aconselhável conhecer as regras, para não
ser derrubado pela jogada do rival.[6]
IMMANUEL WALLERSTEIN, pesquisador sênior na Universidade Yale, é autor de "O Declínio do Poder Americano"[7]
[1] Quem pensa assim realmente na cúpula dirigente em Washington? É um engano, tosco, tomar a retórica política por verdade. Se fosse assim não haveria ações de contenção, como ora vemos com a Otan.
[2] “Potência militar” se torna um país quando apresenta notável desproporção de forças superior aos seus oponentes. “Superpotência” é quando sua capacidade de destruição afeta o globo inteiro, o que é, evidentemente, o caso dos EUA. Já, quando há mais de uma superpotência, suas ações têm que levar em conta a mútua capacidade de destruição reduzindo assim, sobremaneira, seus movimentos no “xadrez geopolítico global”.
[3] Interessante a observação das ações unilaterais dos EUA, quando precisamente vários estados ex-socialistas anseiam por entrar em sua esfera de influência através de acordos de defesa. Se fosse assim tão ruim, como então há (porque não se trata do passado), o desejo explícito de vários paises da Europa Oriental e do Oriente Médio (no Cáucaso) em integrar o guarda-chuvas da Otan? A Guerra Fria acabou, justamente, devido a pressão americana na corrida armamentista sob governo de Ronald Reagan. Enquanto que o orçamento militar se restringia a meros 6% de seu PIB, a URSS teve que dispensar cerca de ¼ do seu para mal acompanhá-los. Dizer que os EUA saíram “enfraquecidos” ao final do período do Pós-Guerra é, no mínimo, tolo. Enquanto que a ONU fragorosamente fracassou na Iugoslávia, a Otan sob presidência americana é que, finalmente, pos fim ao conflito.
[4] E, justamente, por isso tenta de todas as formas (como o pretexto de salvaguardar etnias russas na Geórgia) interferir na construção do oleoduto georgiano. O que não passa do mais bruto imperialismo. Os EUA, neste caso específico, não fizeram senão um acordo comercial. E de mais a mais, a riqueza pautada em produtos minerais é que tem base frágil. Assim como “as marés da economia mundial mudaram”, o mesmo pode acontecer novamente tão logo outras regiões venham a se estabilizar na oferta de combustíveis para exportação.
[5] Sim, é verdade que a lógica do apoio ao Kosovo foi utilizada como justificativa pela Rússia.
Nada a objetar. Mas, cabe lembrar que a lógica de dura retaliação aplicada pela própria Rússia à província separatista da Chechenia não foi respeitada quando a Geórgia fez a mesmíssima coisa em seu território reprimindo os movimentos separatistas na Abkhazia e Ossétia do Sul. Claro que para Wallerstein é conveniente lembrar apenas um dos dados do movimento de seu xadrez geopolítico...[6] “Papel crucial” das forças georgianas no Iraque? Ridículo. Só o numero de soldados americanos mortos na guerra supera os 3.000. E mais de 130.000 ainda estão em ação no país. Se o “chanceler russo, Sergei Lavrov (...) fez questão de observar que a Rússia é ‘parceira do Ocidente com relação ao Oriente Médio, Irã e Coréia do Norte’”, como então Putin “criou relacionamentos com a China, selados em tratados. Manteve relações estreitas com o Irã. Começou a expulsar os Estados Unidos de suas bases na Ásia Central”? Parece que o professor esqueceu as próprias palavras proferidas no início do artigo. Não só a mentira tem pernas curtas, como o sofisma também.
[7] O “pesquisador sênior na Universidade Yale” não passa de mais um pobre tolo antiamericanista com pretensões a clone intelectual de 5ª categoria de Noam Chomsky.
Wednesday, August 13, 2008
Caos no Cáucaso - 8
Questões psicológicas, econômicas e políticas motivaram RússiaEntrevista com Marshall Goldman, PhD em estudos da Rússia pela Universidade Harvard, sobre a ofensiva russa na Geórgia.
Tuesday, August 12, 2008
Monday, August 11, 2008
Para que viseiras se tens um mapa?

Um pouco de perspectiva: A guerra maior é uma guerra por recursos energéticos e supremacia. O grupo anglo-americano buscando manter sua supremacia, como sempre, e a Rússia tentando tomá-la.
O novo teatro de guerra é este:
A área circulada com linha tracejada corresponde a regiões de produção e reservas de petróleo e gás. Inclui Irã, Geórgia, Armênia, Chechênia e, claro, a Arábia Saudita. A racionália anglo-americana é "manter o mundo livre". A racionália russa é "construir um mundo multipolar, livre da opressão americana".
A estratégia Russa é construir a Aliança Eurasiana, desde a China até a França. A estratégia americana é isolar a Rússia por meio de um cinturão de países da OTAN em torno da Rússia. A Geórgia faria parte deste cinturão e já aceitou fazer parte da OTAN. A Rússia está se antecipando à estratégia americana e está reagindo.
(Notem também, pelo mapa, a bobagem que é falar em "ameaça iraniana": O Irã está literalmente cercado por aliados americanos: Iraque, Afeganistão, Turquia, Arábia Saudita, etc. Cada aviãozinho daqueles no mapa é uma base aérea americana.)
A Geórgia não apenas faz parte do cinturão de detenção da Rússia, mas é um corredor importante para escoamento da produção de hidrocarbonetos do Azerbaijão, no Mar Cáspio. Planejava-se ali o oleoduto Baku-Tbilisi-Ceyhan (BTC), operado por uma companhia britânica.
Aí entra o imprevsível: Mikhail Saakashvili, homem totalmente pró-Ocidente, mas impetuoso e intuitivo, eleito presidente da Geórgia em 2003, na chamada Revolução da Rosa. O erro de Saakashvili foi o mesmo de vários entusiastas do Ocidente. Sempre e sempre, deslumbrados, achando que os "valores" do Ocidente são idealistas, românticos, acima de qualquer cálculo político frio e também, mais importante, acima dos próprios interesses das nações ocidentais avançadas.Saakashvili, embalado pelas promessas americanas, pela entrada na OTAN, pelas suas peregrinações a universidades americanas e européias, pelos rapapés e elogios sempre oferecidos pelo Ocidente a seus aliados entusiasmados, achou que estava surfando a onda da História: Por que não invadir a Ossétia e a Abcázia e dar ao russos a lição que eles merecem ?
Certamente, nossos irmãos americanos e a Otan virão em nosso socorro.
Como aconteceu outras vezes, não foram, não. Saakashvili está agora isolado e prestes a ser deposto pelos russos, provavelmente morto. O Ocidente não virá em seu socorro. O Ocidente não entrará em uma guerra contra a Rússia pela Geórgia. Os "valores Ocidentais" são para os românticos como Saakashvili, não para os veteranos do jogo.
Uma bela demonstração deste drama, ao vivo, pelo Youtube, tempos modernos, Saakashvili, pede em vão pela ajuda do Ocidente, em nome dos valores, da liberdade, do empreendedorismo.
E recebe apenas uma resposta fria do repórter, que foi previamente informado pelos chefes: "Mas não foi você quem começou tudo ?". Cruel...
http://br.youtube.com/watch?v=Ai2yeTB1xIQ&feature=related
E assim morrem os românticos...
...
O "romantismo" ficou por conta do comentarista acima, como se tratasse disso... Evidentemente que não é o caso, mas que essa história está mal contada e desviada de foco para, de modo nada original, culpar os americanos em uma situação que não têm qualquer participação direta.
A questão não é o interesse em si na área produtora de petróleo “pelo grupo anglo-americano”, mas como este, efetivamente, se processa. Ao que eu saiba, não há imposição do “grupo anglo-americano” à Geórgia para que sirva de canal de escoamento dos hidrocarbonetos do Cáspio.
Apenas mostrar a disposição destas forças “anglo-americanas” (como se não houvesse a disposição das forças em contrário...) serve como subsídio parcial de análise, mas não como veredicto. Ou se é um ingênuo socialista ao pensar que tais recursos não têm que ser comercializados como qualquer commodity que é ou se é um ingênuo liberal que acha que os mesmos não têm que ser protegidos por forças armadas de países que os detêm ou que querem, simplesmente, comprá-los.
Assim, a “reação russa” é de que forma? Utilizando o pretexto do embate étnico, os russos buscam assegurar seu monopólio no fornecimento de combustíveis à Europa ao pressionar pela obstrução da rota alternativa de petróleo. Isto não é uma reação, qualitativamente, equivalente, mas justamente uma inversão do jogo comercial ora em curso. Se os russos quisessem mesmo manter sua primazia de acordo com as regras comerciais deveriam baratear seu produto. Coisa que, historicamente, são completamente avessos.
Não faço coro com os que acreditam numa aliança incondicional entre Moscou e Teerã, mas se a “ameaça iraniana” não se configura como realidade é, justamente, porque o país está cercado por bases americanas. E a justificativa para tanto existe devido ao currículo histórico dos aiatolás, como quando Khomeini mandou obstruir o Estreito de Ormuz em 1979 com minas submarinas e triplicando o preço do barril de petróleo. A lógica de um país basicamente mono-exportador é esta: a simples redução da oferta. Se há aqueles que discordam, a redução da oferta também pode se dar compulsoriamente, com um "bônus" de 1.400 mortes num só dia.
Mas, se esperar que a mídia brasileira adjetive a campanha russa de "imperialista" (tal qual faz com os americanos no Iraque...) é melhor sentar.
Também dizer que o presidente da Geórgia, Saakashvili “surfou na onda da história” ao invadir a Abkházia e a Ossétia do Sul que fazem parte do território georgiano, como se isto tivesse algo a ver com "liberalismo" e, supostamente, atendesse aos interesses americanos, é contar a história pela metade. É não considerar que houve influência e apoio russa nestes territórios, bem como infiltração de massa de manobra russa com outros povos.
Acho tão legítima a discussão sobre a autodeterminação destes povos (abkhazes o ossetas) quanto o princípio de autonomia econômica georgiano sobre como e para quem escoar o petróleo do Cáspio.
Só para nos refrescar a memória, quem definiu os rumos da secessão chechena se não os russos? Alguém teve moral para divergir disto dentro do quadro das nações?
Se for lícito dizermos que toda secessão é legítima dentro do princípio de autodeterminação dos povos, alguém ainda apóia o separatismo gaúcho? No dos outros é refresco, mas no nosso é pimenta...
Dizer que são “interesses de estado” é chover no molhado. A questão é como eles são geridos. Se Putin lembrou a necessidade da China considerar a questão do Tibet eu pergunto se isto se funda em bases verdadeiras ou só pela criação de mais um estado-tampão do qual a Rússia poderia estabelecer laços e influência? Ou se acredita que só americanos agem de acordo com seus interesses?
Óbvio que surgirão, mais e mais daqueles que darão um jeito de inverter totalmente a questão encontrando alguma "culpa anglo-americana". Se fosse doença seria sintomático como transtorno mental. Como não é, se trata de simples burrice.
Sunday, August 10, 2008
Caos no Cáucaso - 4
O recado russo*
Qual é a mensagem russa?
Com a fragmentação soviética, as forças militares russas passaram a ser tratadas como de 3ª categoria e os governos de Putin tentaram mostrar ao mundo que quem pensasse assim estava redondamente equivocado.
No episódio em curso na Ossétia do Sul está a prova. Em uma demonstração de habilidade do ataque aéreo, as forças russas se fixaram no ponto estratégico do túnel de Roki que conecta a região à vizinha russa Ossétia do Norte. Em menos de 12 horas, quando as forças georgianas ensaiaram uma reação, uma coluna de blindados e artilharia russa surgiu no lado sul do túnel em direção à capital, Tskhinvali. Os veículos contavam com logística apropriada para sua manutenção com unidades do 58º exército e a 19ª divisão motorizada nos subúrbios da cidade. Prontos para uma guerra urbana de longa duração. A coordenação das forças terrestres com o poder de fogo dos helicópteros Mi-24 na retaguarda sustentou o bombardeio noite adentro. Os russos removeram os recursos georgianos baseados no porto de Poti onde se localizava sua marinha e a base aérea de Marneuli. Os combatentes georgianos de Su-25, que poderiam ter alguma reação foram eliminados do jogo. Na água, a frota russa do Mar Negro integrada pela Moskva de 11.000 toneladas obstruiu a possibilidade de qualquer apoio. Um cerco definitivo.No assalto, rápido, bruto e eficaz, a Rússia provou que emergiu fortalecida e ampliada como potência do cenário dos anos 90. Desde o colapso soviético, não havia tal imposição a sua periferia como se viu.
Do Báltico à Ásia Central, passando pela Ucrânia se fará, no mínimo, uma reconsideração estratégica do que significa ter fronteiras com a Rússia.
* Adaptado de Russia: The Military Message of South Ossetia.
Saturday, August 09, 2008
Caos no Cáucaso - 3
No mapa ao lado figuram duas regiões separatistas da Geórgia. A Abkhazia, onde os russos financiaram guerrilheiros chechenos como 'pacificadores' e a Ossétia do Sul, enclave russo desde os tempos de (sempre ele...) Stálin.
A questão está relacionada ao petróleo do Cáspio, cujo duto, se bem sucedido disponibilizará uma alternativa de combustíveis fósseis à Europa colocando uma pá de cal sobre o tacão do Kremlin. Obviamente sua construção do Azerbaidjão à Turquia tem financiamento americano.
Friday, November 16, 2007
Caos no Cáucaso
Realmente, as lideranças islâmicas até podem ter se originado no fundamentalismo com Khomeini, mas a manutenção de sua ordem é dada por interesses de estado. O petróleo pesa mais do que a abstração de Alá. No entanto, acreditar que o atual serviço de informação russo, como herdeiro da antiga KGB “orienta” ou “dirige” de longe o que quer que Khamenei ou Ahmadinejad diga, significa tomar o Irã por mero satélite russo. E não é. Pensar assim equivaleria a adotarmos um “raciocínio paramétrico” e não estratégico, no qual apenas um dos agentes envolvidos pensa e manipula os outros dados do tabuleiro.
Se Moscou fosse assim tão influente sobre o que os muçulmanos fazem ou deixam de fazer, por que a guerra da Chechenia foi um dos maiores problemas que o governo de Boris Yeltsin enfrentou e legou ao seu sucessor? Se fosse assim, o ministro de estado georgiano, David Bakradze, não acusaria os russos de infiltrarem-se na região separatista da Abkhazia procurando sua desestabilização. Ele acusa os russos de estarem trazendo “grande quantidade” de material e pessoal militar para a região. Incluindo na lista 200 chechenos, chamados de “pacificadores” por Moscou.
Entre os mal entendidos entre Moscou e Tbilisi, nada menos que um míssil russo “caiu por engano” em um campo da Geórgia expulsando diversos diplomatas. Como se não bastasse, os russos são acusados de seqüestrar soldados da Geórgia em novembro passado. Ora, os chechenos tem um histórico de violência e situações conflitivas que pouco poderiam contribuir a qualquer pacificação na região. Um dos conhecidos episódios refere-se ao conflito entre 1990 e 1992 na região de Nagorno-Karabakh onde os chechenos apoiaram a região secessionista da Abkhazia contra os cristãos armênios. O episódio mostrou a incompetência do governo georgiano e o sucesso maquiavélico russo.
A primeira vista, parece ter uma aliança Moscou-Islã caucasiano. Mas, isto é ingenuidade. O que Moscou fez foi aplicar os princípios de sua realpolitik à região, apoiando chechenos contra chechenos o que lhe garantiu vitória sobre a guerrilha. As autoridades russas vangloriam-se de ter 15.000 deles como seus aliados. Quando
um governo cita um número destes é porque, provavelmente, tem mais... Suas táticas incluem câmaras de tortura subterrâneas onde famílias inteiras são alocadas.Faz sentido, portanto, pensar que há militância chechena pró-Moscou sendo levada para regiões vizinhas, como é o caso da Abkhazia. No entanto, o tiro pode sair pela culatra. A concentração de chechenos em uma dada área pode ter efeitos contraproducentes que, num prazo não muito longo, atentem contra os próprios interesses russos. Dissipados podem ser aliados, aglutinados podem adquirir força. Este princípio deveria ser adotado em favelas brasileiras ao combate ao narcotráfico: realocar moradores dispersando-os, evitando assim novos focos de domínio extralegal.
Geograficamente falando, a Abkhazia é muito próxima e parecida com a Chechenia. Isto pode alimentar intentos unionistas muçulmanos e separatistas contra a Geórgia que, mais tarde se voltariam contra a própria Moscou. Ainda mais se levarmos em consideração que os escrúpulos chechenos tem se mostrado piores que o vigor das tropas russas.


