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a.h

Friday, May 04, 2007

Guy Sorman: “O Brasil não tem nada a aprender com a China”

Nesta entrevista, Sorman toca em pontos essenciais a partir de uma pespectiva liberal que, em grande medida, como vocês sabem, eu endosso... No entanto, há pontos polêmicos, como dizer que a corrupção "não é um problema meu" e, por outro lado, dar pitaco sobre o Brasil não parece sensato. Bem como, advogar uma centralização de projetos políticos para um país das dimensões do nosso vai contra o que o país mais necessita: a aplicação do princípio federativo em profundidade e eficácia maiores do que o conhecido por aqui e atualmente praticado.

a.h


Abril de 2007



Fernanda Arechavaleta

O cientista político Guy Sorman é um francês que foge ao estereótipo. Não é mal humorado, por exemplo. E tampouco se mostra ranzinza com aqueles que tentam puxar uma conversa em inglês em vez do francês. E foi exatamente assim – bem-humorado e em inglês – que Sorman recebeu a reportagem de AMANHÃ para uma conversa de quase 50 minutos na manhã do dia 04 de abril, depois de proferir uma palestra no seminário internacional “Fronteiras do Pensamento”, realizado pela Copesul. Autor de “A Nova Riqueza das Nações”, Sorman acredita que os ideais do liberalismo estão distorcidos na América do Sul. E isso explicaria por que essa corrente de pensamento econômico é, muitas vezes, confundida com uma espécie de ideário perverso que visa ratificar a subordinação dos mais pobres aos mais ricos. Para Sorman, o problema da América Latina, e principalmente do Brasil, é a falta de igualdade de oportunidades. A liberdade de escolha – um dos preceitos do liberalismo clássico – só pode ser exercida por aqueles que têm dinheiro, e o resultado é que parcelas cada vez maiores da população começam a se identificar com correntes ditas anti-liberais. Apesar disso tudo, Sorman se declara um amante do Brasil. Confira por que na entrevista abaixo:

Futuro do Brasil e o governo Lula
Como o senhor vê o futuro do Brasil?
A situação não é ruim. Eu vim aqui pela primeira vez há 25 anos e, se compararmos aquela época e a de hoje, há muitos resultados positivos. Primeiro em termos políticos. Naquela época, era o fim da ditadura militar; agora, é uma democracia. A própria democracia, apesar de não ser perfeita, evoluiu. Vocês têm o Fernando Henrique Cardoso (FHC), que é um centro-direitista, têm Lula, que é um centro-esquerdista. É uma democracia sem violência e com continuidade de política econômica, mesmo com a troca de comando. Isso é um enorme progresso, pois, finalmente, os brasileiros e os investidores sabem para qual direção o país está caminhando. O próximo presidente pode ser de esquerda ou de direita, mas a economia permanecerá a mesma. Em segundo lugar, o lado econômico. Os resultados não são espetaculares, mas também não são ruins. Em vez de levar em consideração apenas o crescimento do PIB, é preciso olhar outros índices, como a queda da taxa de mortalidade infantil. Um dos problemas que ainda não foram resolvidos é que os negros permanecem à margem da sociedade, o que pode ser um resultado do crescimento vagaroso. Mas globalmente o país não está indo tão mal.

Por que o senhor considera que globalmente o país não vai mal?
Globalmente, e também em termos ideológicos, está tudo certo. Trata-se de um país muito mais liberal do que era há 25 anos, tanto política quanto economicamente. Em 1985, era proibido importar computadores no Brasil porque decidiram que eles deveriam ser fabricados aqui. No entanto, os PCs produzidos internamente não funcionavam. Dessa forma, as empresas brasileiras não conseguiam competir com o resto do mundo. Para importar um computador, era uma enorme burocracia, era preciso receber autorização do governo federal, além de corromper políticos. Em 1985, liberalismo significava: eu quero comprar um computador. Hoje, o Brasil está inserido na globalização. Por isso, eu não ligo se as pessoas dizem que são liberais ou anti-liberais: tenho mais interesse nos resultados. Lula não se denomina um liberal, mas ele introduziu uma noção de continuidade na política econômica do Brasil e isto é muito bom. Vindo da denominada “esquerda”, há um sentido de legitimidade do povo: um governo de esquerda, fazendo o que o Lula faz, indo para os Estados Unidos, lidando com Bush, reduzindo despesa dos Estados. Se tudo isso fosse feito por um governo de direita, provocaria uma revolução. As pessoas diriam que estão vendendo o Brasil para Bush. Mas é o Lula, “então deve ser certo”, “é um sistema muito bom”.

Lula faz um bom governo, na sua opinião?
Não estou envolvido no debate político, vejo as coisas com uma distância histórica. Eu encontrei Lula pela primeira vez nos anos 80. Naquela época, ele era leninista, trotskista, era uma espécie de revolucionário de sua época. Eu achava que ele era basicamente um oportunista. Hoje, ele se livrou daquela baboseira ideológica e entendeu que se o Brasil deseja ser um país desenvolvido, deve partir para a globalização, para o mercado livre. Lula foi esperto o suficiente para não se tornar uma espécie de Hugo Chávez, mas muito pragmático para entender que o bom para o Brasil é fazer parte da comunidade global e ter uma zona de livre comércio com os Estados Unidos, já que ali está o maior mercado para os produtos brasileiros e o maior investidor no Brasil. Acho que o Lula está fazendo a coisa certa. Já essa corrupção no dia-a-dia do governo não é problema meu.

No início do ano, o governo brasileiro anunciou um programa para acelerar o desenvolvimento econômico, baseado, principalmente, no investimento em infra-estrutura, como rodovias. O senhor acredita que essa é uma maneira de acelerar o desenvolvimento econômico?
A infra-estrutura é essencial para o desenvolvimento econômico. Quando você constrói uma estrada, ela dá acesso ao mercado da região. Então infra-estrutura é absolutamente necessária. Mas deve ser privada ou pública? Digo que pode ser privada e pode ser pública. Os melhores aeroportos são privados; as melhores estradas, também. Então, às vezes existe uma certa confusão neste debate. Mais uma vez eu digo que o liberalismo é uma questão de liberdade de escolha. O governo deve se perguntar: qual é a melhor maneira? Dinheiro dos pagadores de impostos ou dos consumidores? Na Europa, por exemplo, por muito tempo, todas as estradas e comunicações eram públicas. Hoje, 25 anos depois, elas são privadas. A infra-estrutura pode muito bem ser privada

Política na América Latina
O senhor considera correta a estratégia de fechar acordos bilaterais ou todos os latino-americanos deveriam se unir?
Não acho que todos deveriam se juntar, pois até que todos entrem num consenso pode-se levar séculos. Há uma grande diversidade na América Latina. Os problemas não são os mesmos em todos os países. A Argentina, por exemplo, tem uma grande pedra no sapato que é a dívida. Mesmo quando o país boicotou 75% dela, ainda restaram 25% que precisam ser pagos – e 25% de uma dívida crescente... Os argentinos sofrem uma grande crise financeira e de legitimidade, porque ninguém mais está pronto para investir lá. Por isso, fazer um acordo com o governo argentino é impossível. Já o Chile é um dos países mais avançados na América Latina. Por essas e outras, não vejo problema em cada país negociar diretamente em vez de negociar em bloco.

Mas, recentemente, Lula criticou a negociação direta do Uruguai com os Estados Unidos...
Esse posicionamento faz parte da diplomacia imperialista do Brasil. A crítica a Tabaré Vasquez é totalmente absurda. O grande problema da América Latina não é o Uruguai e sim a crise argentina e a crise na região andina: Venezuela, Equador, Peru e Bolívia. Nesses quatro países, basicamente, há um problema étnico. Na Bolívia, por exemplo, quando Evo Morales foi eleito, as pessoas disseram que um candidato de esquerda ganhou as eleições. Não é um esquerdista, é uma vingança do povo indígena. Nós sempre tendemos a interpretar as eleições políticas com critérios da Europa Oriental. Mas devemos olhar para esses países com um critério relacionado à sua história. A história da Bolívia e do Peru é uma história de uma maioria de indígenas, de pessoas exploradas pelos brancos por muitos séculos. Eles entendem que podem usar a democracia para tentar se vingar, ou, pelo menos, ter oportunidades iguais. Originalmente, a guerra civil na Colômbia foi uma revolta dos negros contra os brancos no poder. Portanto, em toda a América Latina você tem esse tipo de divisão étnica que é frequentemente menosprezada.

Como os governos podem fazer para lidar com essa situação?
Para começar, é necessário colocar o assunto em pauta. Na Bolívia, por exemplo, os presidentes sempre negam a existência de problema racial. No entanto, se você olhar nas ruas, percebe quem é pobre e quem é rico. O problema precisa ser analisado por sociólogos, que tendem a entender qual é o problema. Será que estas pessoas têm acesso às mesmas facilidades educacionais? O país deveria fazer um programa de oportunidades iguais? Tudo isso deveria ser levado em consideração. Até hoje nenhum governo boliviano ou peruano pensou em uma ação afirmativa que pudesse ser aplicada nestes países.

E no Brasil?
No Brasil também existem problemas raciais, mas geralmente não são analisados como raciais. Oficialmente todos são iguais. Espero que chegue o dia em que o Brasil envie um embaixador negro para Paris. Acredito que não exista nenhum embaixador negro no país. Muitas vezes, maquia-se o racismo dizendo que os negros são discriminados não pela cor, mas porque não têm educação. Se essa é a questão, é preciso criar um sistema de educação específica para os negros - talvez uma ação afirmativa no Brasil. Os Estados Unidos têm esse conceito de diversidade. A composição da sociedade brasileira é diversa, mas quando se olha para a universidade, para os altos cargos públicos, não há diversidade. Como a diversidade pode ser incluída no sistema? Não num sistema de cotas. Vamos pensar no problema e achar uma solução.

O Brasil e a China
O que o Brasil tem a aprender com a China?
Nada. Em primeiro lugar, lá não há uma democracia. É um regime bastante autoritário. Não há liberdade individual, tudo é proibido. Religião, liberdade de expressão, mídia: tudo sob o controle do partido comunista. Em segundo lugar, não existe empreendedorismo verdadeiro em território chinês. Os empresários são estrangeiros investindo na China e usando, apenas, mão-de-obra barata – tudo provido pelo partido comunista. Em terceiro lugar, o que a China produz para o mundo não é inovador. Os fabricantes desenham algum produto na Coréia ou no Japão, depois os produzem na China e de lá são exportados. Na prática, o que é “feito na China” só é empacotado lá. Não há inovação. O modelo chinês é lucrável somente para uma pequena elite. Os que pertencem ao “podium” são 200 milhões, mas os outros um bilhão de chineses são mantidos fora do sistema econômico.

O Brasil está bem atrás da China em termos de crescimento econômico...
Sim, o Brasil está atrás, mas porque vive num sistema democrático. E em toda a democracia o crescimento é mais lento, pois o processo de decisão é mais lento. Algumas pessoas vão dizer: então a saída é termos um totalitarismo para caminharmos mais rápido. Mas não se pode levar em consideração apenas fatores econômicos. A democracia é muito importante. Talvez você perca 1% ou 2% de crescimento ao ano, mas você tem outras coisas que os chineses, por exemplo, não têm. Outra razão para o crescimento lento do Brasil é que uma imensa parte da população não está integrada na sociedade porque não tem educação. Os investimentos na educação básica são muito baixos. O Brasil deveria apostar no microcrédito. Toda vez que menciono a falta de microcrédito no país, eu ouço: “Mas nós temos”. Vocês têm, mas como uma forma de corrupção e populismo, não como um processo econômico. O sistema de microcrédito deveria ser gerenciado pela iniciativa privada. É muito importante que os empresários no Brasil entendam que o país está no caminho certo por causa da continuidade econômica.

O que emperra as mudanças na política brasileira?
O problema do Brasil é não ter partidos políticos nacionais e sim organizações regionais, agremiações locais. Assim o processo político é muito lento e existe muita corrupção – porque você tem que comprar os votos dos membros do parlamento. Esse é o Brasil. Acho que as coisas vão mudar e haverá mais partidos nacionais no futuro por causa da migração para outros Estados. Cada vez mais pessoas vão do Nordeste para São Paulo. Então, o comportamento político delas deverá mudar. Por causa da educação, das oportunidades e porque elas pertencem a um país global que é o Brasil. Conseqüentemente, eles vão agir como cidadãos brasileiros e menos como cidadãos do Maranhão, por exemplo. Eu digo “do Maranhão” por causa do José Sarney. Hoje, se você é um cidadão do Maranhão, você vota no Sarney porque ele foi bom para os seus pais e existe uma tradição familiar de apoio a ele. Acredito que com o crescimento da economia, mudanças demográficas e migração interna, pouco a pouco você verá uma redução deste poder local e de partidos locais. No entanto, será lento o processo de substituição dos partidos locais por outros mais nacionais. Neste momento, no Brasil, a pobreza tem a ver com suas origens locais. E muitos Estados no Brasil foram organizados para que os pobres se mantivessem pobres. Desta maneira, você precisa de política nacional para destruir a estrutura feudal no Nordeste do Brasil. Lembre-se que nos Estados Unidos o povo queria manter a escravatura em nome da liberdade do Estado. Aqui não é escravatura, mas é uma espécie de sistema feudal. Então eles dizem para o governo central: vocês não devem interferir nos nossos problemas. Esse problema só pode ser destruído pela nacionalização do corpo político.

Aquecimento global e questões energéticas
Com o aquecimento global em pauta, o senhor acredita que é possível ter proteção ecológica e desenvolvimento econômico ao mesmo tempo?
Não. É preciso escolher se as pessoas querem desenvolvimento econômico primeiro. Estão certos aqueles que colocam o bem-estar pessoal em primeiro lugar. O aquecimento global é uma coisa muito teórica e longínqua para as pessoas comuns. Se elas puderem optar, vão escolher o desenvolvimento econômico. Todo desenvolvimento econômico traz algum impacto no aquecimento global, mas não se tem certeza do quanto. É uma escolha de base teórica. Quando o país se desenvolve, muitas vezes, utiliza técnicas e padrões de consumo de energia que são menos danosos para o clima, certo? Sabemos que os países que produzem muito dióxido de carbono, como Índia e China, é porque usam técnicas muito pobres. Na Europa e nos Estados Unidos, são usadas técnicas evoluídas. Se olharmos por esse ângulo, o desenvolvimento também é uma maneira de melhorar as condições do meio ambiente, porque são usadas melhores técnicas e se consome menos energia para produzir a mesma quantidade.

O que o senhor pensa sobre a anunciada crise do petróleo?
Está em toda parte, mas não quer dizer que seja verdade. Não existe crise de energia. As reservas de petróleo são enormes. O grande problema é que a maioria delas não é explorada, porque é um processo muito caro. Se o preço do petróleo sobe, então, podemos acessar novos recursos que nunca foram explorados. Agora, reservas imensas foram descobertas no Oeste africano. São mais importantes que as da Arábia Saudita e do Iraque. Não foram exploradas até agora porque ficam no fundo do mar e, novamente, é muito caro. Existem várias alternativas para o petróleo. É uma questão de preços. O problema é a relação entre o preço e o tipo de energia que usamos. Também é verdade que todo mundo tem interesse em aumentar a diversidade de fontes de energia. É por isto que todos os países ocidentais são a favor do etanol. O etanol não é uma solução perfeita porque você tem que plantar uma grande quantidade de milho e outros grãos – e isto consome grande quantidade de água. Por isso, não é uma grande solução.

O Brasil está certo quando procura se posicionar como líder na produção de etanol?
Sim. Eu lembro que, quando isto começou, há muitos anos, com o “Pró-álcool”, não parecia ser muito racional, porque o governo brasileiro subsidiava e a mistura de etanol e óleo ficava muito cara para o país. Hoje, parece que uma boa estratégia para o Brasil. Com o aumento do preço, a escolha brasileira está se tornando mais racional. Mais uma vez, não devemos pensar que o Brasil é uma nova Arábia Saudita ou que etanol vai substituir petróleo. É apenas parte do processo de diversificação. A economia do Brasil não deve confiar demais no etanol.

2 comments:

Bruno said...

Muito interessante a entrevista. Não compartilho do otimismo dele em relação ao país, no entanto - pelo menos não a curto e médio prazo. Se o Brasil crescer mais de 6% ao ano, entra em colapso. Não é possível se ter muitas perspectivas assim, visto que não se tem feito absolutamente nada para mudar esse quadro.

Creio que ele foi muito realista quando disse que, globalmente, o Brasil é muito mais liberal hoje do que há vinte e cinco anos. E foi muito feliz ao citar a malfadada "Lei de Informática" como exemplo. Só que atribuo isso ao colapso do "socialismo real", e não a algum tipo de "mudança de mentalidade" do eleitorado e da classe dirigente do país. Não é que tenhamos começado a adotar o ideário liberal; é que as propostas socialistas se esgotaram...não estamos praticando algumas poucas virtudes por acreditarmos que seja a coisa certa a se fazer, mas porque o vício tornou-se insustentável.

a.h said...

Apesar disto, ele manteve um posicionamento "liso" quanto a questão da corrupção - "isto não é problema meu" ou algo do tipo -, como se fosse uma disputa comezinha, coisa da intriguenta oposição e que (aí que está), não interfiriria no liberalismo!

Acho que interfere sim ao não separar público de privado. Desse jeito, sempre teremos o meio termo, estamos a meio caminho do desenvolvimento, «mas que no fundo não é uma dinâmica e sim uma estática.»

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